Recensão de: A Revolta contra a Humanidade: Imaginar um Futuro sem Nós
por Adam Kirsch
Columbia Global Reports, 2023; 100 pp.
Aristóteles afirma, no livro I da Ética a Nicómaco, que «a felicidade, sendo algo final e auto-suficiente, é o fim a que todas as acções visam». A palavra grega eudaimonia, traduzida nesta edição por «felicidade», é frequentemente traduzida como «florescimento».
Não é obviamente verdade que queremos que a nossa vida floresça? É claro que todo o tipo de coisas más nos pode acontecer, mas não é isso que visamos. Algumas pessoas pensam que há mais na moralidade do que a felicidade, ou definem «moralidade» de modo a que inclua apenas deveres para com os outros; mas mesmo essas pessoas reconhecem geralmente que a busca da própria felicidade é importante.
No seu novo livro, Adam Kirsch, poeta e crítico literário que edita a secção Review de fim-de-semana do Wall Street Journal, escreve sobre pessoas que negam que se deva procurar a própria felicidade, concedendo-lhes uma credibilidade que as suas posições não merecem. Os anti-humanistas são um desses grupos que não valorizam o florescimento. Acreditam que os seres humanos provocarão uma catástrofe não só para si próprios mas também para outras espécies, se os actuais níveis de emissões de carbono continuarem.
Os anti-humanistas não pensam que os danos provocados pelo homem se limitem ao clima. Na presente era do «Antropoceno», o termo em voga, os seres humanos perturbaram o equilíbrio da natureza. Não é que o mundo fosse um paraíso antes da nossa chegada, mas tornámo-lo muito pior:
A ideia de que nos destruiremos a nós próprios ao devastar o planeta é mais radicalmente perturbadora [do que a ameaça de uma guerra nuclear]. Significa que a humanidade está ameaçada não apenas pelos nossos vícios reconhecidos, como o ódio e a violência, mas pela prossecução de fins que habitualmente consideramos bons e naturais: prosperidade, conforto, aumento da nossa espécie.
Na minha opinião, os cenários apocalípticos dos propagandistas das alterações climáticas são exageros grosseiros, mas esse não é um argumento que precise de ser considerado aqui. (Para uma boa discussão, ver Alex Epstein, Fossil Future, que eu analisei aqui.)
Suponhamos, porém, que se acredita que uma catástrofe climática iminente está para breve, a menos que «façamos alguma coisa». Nesse caso, não deveríamos tentar organizar as nossas actividades de modo a perturbar o menos possível as nossas vidas? Os anti-humanistas não pensam assim. Uma vez que causámos tantos danos à natureza, consideram que seria melhor livrarmo-nos de nós próprios.
Se a única forma de restaurar a soberania da natureza for o colapso da civilização humana, então [Paul] Kingsnorth acolhe essa perspectiva. . . . Se tiver de escolher entre a natureza e a humanidade, Kingsnorth escolhe a primeira, plenamente consciente de onde tal decisão pode conduzir.
Kirsch observa que alguns filósofos simpatizantes do anti-humanismo pensam que, para expor correctamente a sua posição, é necessária uma modificação radical da linguagem comum:
O primeiro passo para mudar a nossa imagem do mundo é mudar a linguagem que usamos para o descrever. . . . Para os teóricos do anti-humanismo, a linguagem apresenta um problema particular, porque é um modo de cognição exclusivamente humano. Paradoxalmente, assim que declaramos a intenção de pensar fora ou contra a nossa humanidade, falhamos, pois essa é uma declaração que apenas os seres humanos podem conceber ou compreender.
Um problema interessante confronta aqueles que adoptam uma atitude tão negativa em relação aos seres humanos. Se as nossas actividades nos colocam efectivamente em conflito com outras formas de vida ou com o «equilíbrio da natureza», por que razão deveríamos preocupar-nos com isso? Porque seria do nosso interesse sacrificarmo-nos por um conjunto de plantas e animais?
Uma resposta seria negar que os valores — isto é, aquilo que deve ser prosseguido — estejam directamente relacionados com as pessoas que os desejam. Segundo esta posição, os valores são «intrínsecos»; algo é valioso simplesmente em si mesmo. Entre esses valores intrínsecos encontram-se, porém, os valores relativos ou os interesses de diversos seres vivos (e, em alguns casos, de entidades não vivas). Assim, aquilo que os humanos valorizam não conta, ou conta negativamente. Mas quem sustenta isto tem de explicar a motivação moral: mesmo que existam valores intrínsecos, é necessário mostrar por que razão nos deveríamos importar com eles.
Não creio que os anti-humanistas tenham fornecido tal explicação, mas isso não os impediu de desejar que estivéssemos todos mortos:
Um exemplo proeminente é Patricia MacCormack, cujo livro The Antihuman Manifesto: Activism for the End of the Anthropocene (2020) apela a «um fim do humano tanto conceptual como excepcionalizado, efectivamente, enquanto espécie». A segunda parte dessa exigência deve ser cumprida através da «desaceleração da vida humana mediante a cessação da reprodução» e da «defesa do suicídio [e da eutanásia]».
A maioria dos leitores achará repugnantes posições deste género, mas será essa reacção racional? Kirsch afirma:
A mistura de raças e a homossexualidade também pareceram outrora uma profanação à maioria das pessoas; a escravatura e o sistema de castas foram coisas que a humanidade prezou durante milénios. Os males enraizados só podem ser superados quando são submetidos a um escrutínio racional. . . . A sabedoria da repugnância significa que a razão se cala precisamente quando mais precisa de ser ouvida.
Kirsch não conseguiu bloquear a sabedoria da repugnância. Como ele próprio diz, as pessoas podem rejeitar com horror propostas que visam alterar males a que estão cegas, mas isso apenas mostra que a repugnância não é a palavra final. Muitas vezes, um exame racional sustentará a proposta ou, pelo menos, não encontrará nada de errado nela; mas isso não demonstra que a repugnância nada valha. Aqueles que propõem mudanças suportam o ónus da prova. Têm de apresentar argumentos suficientes para superar a nossa repugnância. A razão é o juiz final, mas os reformadores têm de partir do ponto em que nos encontramos agora.
O riso também tem muito a seu favor. Kirsch leva isto a sério, mas como evitar rir-se disto, e por que razão o deveríamos tentar?
[A teórica política Jane Bennett] escreve sobre o encontro com um qualquer monte de lixo num esgoto pluvial de Baltimore e sobre vê-lo subitamente de uma nova forma: «a materialidade da luva, do rato, do pólen, da cápsula de garrafa e do pau começou a cintilar e a brilhar». . . .
«Por que defender a vitalidade da matéria? Porque o meu palpite é que a imagem da matéria morta ou totalmente instrumentalizada alimenta a hybris humana e as nossas fantasias destruidoras da Terra, de conquista e consumo», escreve ela. Assim que reconheçamos a matéria viva e não-viva como nossa parente em aspectos essenciais, teremos menos probabilidade de a destruir ou explorar.
Montes de lixo do mundo, uni-vos!
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
