A guerra é o pináculo da intervenção governamental. É o pretexto para toda a espécie de males serem impostos aos governados. Desde o confisco através de impostos e inflação até à restrição da liberdade de expressão, redireccionamento e até nacionalização de sectores inteiros, nada aumenta o poder do estado como a guerra.
Como o estado é depredatório e nada produz de útil, é a situação empobrecedora por excelência. Do ponto de vista ideológico, é ainda pior, misturando o amor pela própria cultura e pátria com o próprio estado. Reduz a resistência dos indivíduos à perda de liberdade e cria nas suas mentes o mito do governo protector.
Há também outra ideia insidiosa que muitas pessoas sustentam: a de que a guerra tem benefícios económicos e outros, não para certos indivíduos ou grupos, mas para a comunidade em geral. Vale a pena examinar estes supostos benefícios para mostrar que não, a guerra não beneficia a comunidade — é apenas morte e destruição.
Estímulo Económico
Como todos os estímulo governamentais, a guerra é apenas um redireccionamento de recursos. Em vez de se adaptar aos recursos existentes, o que o estímulo de guerra faz é aumentar a moeda e o crédito a níveis sem precedentes para financiar despesas governamentais exorbitantes. Isto significa simplesmente que recursos reais são retirados da comunidade sob a forma de inflação e impostos e gastos em coisas que a comunidade não deseja.
É semelhante a gastar todas as suas poupanças e qualquer crédito que consiga obter. Durante algum tempo parece que está mais próspero, até que esses recursos se esgotam. O estímulo orçamental provoca o mesmo desperdício de poupança e capital que, durante algum tempo, parece ter estimulado a economia. Mas isto é apenas despesa. Em breve não há recursos suficientes e a realidade impõe-se. Quando recursos suficientes foram desperdiçados, já não há o bastante para sustentar a festa, por mais dinheiro que o governo imprima. Se continuar a imprimir, cria um período de hiperinflação. Se parar, teremos uma recessão.
A forma como o estímulo é implementado também é importante. Como é feito através de crédito bancário, a análise temporal dos empresários é completamente alterada. Uma diminuição das taxas de juro faz parecer que há mais recursos poupados. O problema é que os empresários experienciam isto, em geral, como um aumento da procura. Aqueles que não reagem — por o considerarem insustentável — terão dificuldade em satisfazer a procura, perderão clientes para outras empresas e ainda assim serão fortemente atingidos na recessão. Assim, a maioria dos empresários terá de acompanhar a onda e tentar adaptar-se quando ocorrer o colapso.
Esta situação não aumenta os recursos nem melhora o bem-estar da comunidade; desperdiça recursos e impede melhorias sustentáveis. No geral, a comunidade ficará mais pobre depois. A ideia de que este tipo de estímulo é positivo é completamente errada.
Pleno Emprego
Quando visitámos Berlim, contaram-nos a história da Berlim comunista, em que um funcionário público era pago para anotar todos os dias as horas dos relógios na Alexanderplatz. Este é o problema da obsessão com o desemprego. O emprego em si não deveria ser relevante, mas sim o emprego em quê. Se as pessoas trocam o seu trabalho por dinheiro mas não produzem bens valorizados por outros, isso corresponde a recursos, dinheiro e trabalho desperdiçados.
Este é o problema do emprego público. Em vez de algo positivo, é um desperdício de recursos. O governo retira necessariamente recursos da esfera produtiva — recursos reais que as pessoas desejam — e redirecciona-os para usos que as pessoas não desejam, como preencher formulários, fabricar uniformes militares ou produzir munições.
Por isso, sim, o governo poderia tributar ou inflacionar o suficiente para empregar toda a gente numa economia, mas esse emprego retiraria recursos à comunidade, não os acrescentaria. Estariam simplesmente a desperdiçar potencial. Este tipo de utilização do emprego torna todos mais pobres. É assim que se apresenta o pleno emprego em tempo de guerra.
No início dá a impressão de pleno emprego, mas quando a guerra termina, o aumento subsequente do desemprego não ocorre porque o governo deixou de gastar, mas porque a comunidade foi esgotada de recursos.
Avanços Tecnológicos
A ideia de que a guerra fomenta a inovação e o avanço tecnológico é contrária à realidade. Surge de quem deseja justificar a guerra e vê invenções positivas face a um contrafactual imaginário em que essas inovações não teriam ocorrido. Muito poucos comparam as inovações em tempo de guerra com as de tempo de paz. Aqueles que o fazem mostram que, na melhor das hipóteses, a taxa de inovação se altera mas muda pouco no conjunto, e, na pior, há um declínio da “inventividade”.
Mas aqui está o ponto crucial. Esta inovação é mal alocada. Em vez de inovações para melhor servir os consumidores, a inovação em tempo de guerra serve o governo e visa melhorar armas e poder destrutivo. Armas e poder destrutivo não melhoram a qualidade de vida das pessoas.
Ao redireccionar a investigação sobretudo para uso militar, existe um enorme custo de oportunidade que poucos consideram. Se tivermos em conta o efeito nulo sobre a inovação global e o foco na inovação militar durante a guerra, podemos concluir com segurança que a guerra reduz os avanços tecnológicos e a melhoria da eficiência produtiva.
Mudança Social e Política
Um exemplo típico de mudança social benéfica é a entrada das mulheres no mercado de trabalho, erradamente atribuída à economia de guerra durante a Segunda Guerra Mundial. Digo erradamente porque, se estudarmos as mudanças no mercado de trabalho em países que não participaram na guerra, como a Espanha, observamos a mesma tendência de participação feminina. Trata-se apenas de uma tendência social privada que muitos atribuem à intervenção do governo. A realidade é que estas mudanças sociais já estavam em curso e os defensores da guerra atribuem-nas ao governo e à própria guerra.
Outro contrafactual é a comparação com outras guerras. Porque é que a Segunda Guerra Mundial alterou o estatuto social das mulheres, mas a Guerra Franco-Prussiana da década de 1870 não? Ou guerras ainda anteriores?
A mudança política é por vezes apresentada como um benefício da guerra. Como isto sequer é defendido é um mistério, mas a ideia é que a guerra pode derrubar um regime opressivo e criar algo melhor. Os acontecimentos recentes mostram o contrário. Síria, Iraque e Afeganistão são exemplos de guerras que ou não provocaram mudança de regime ou criaram guerras civis crónicas e instáveis que agravaram a situação da população.
Nos países em que os regimes eram, digamos, “benignos”, as guerras criaram uma mudança ideológica no sentido de maior poder do estado, maior aceitação da intervenção estatal e menor liberdade individual. Alguns consideram isto positivo, mas, para mim, são efeitos negativos. Politicamente, a guerra beneficia apenas o governo.
Conclusão
A guerra não tem efeitos positivos. Mises escreveu: “O que distingue o homem dos animais é a compreensão das vantagens que podem ser obtidas através da cooperação sob a divisão do trabalho.” E: “A economia de mercado implica cooperação pacífica. Ela desmorona-se quando os cidadãos se transformam em guerreiros e, em vez de trocarem bens e serviços, combatem uns contra os outros.”
Esta nova guerra entre os governos de Israel, dos EUA e do Irão será como todas as outras: negativa em todos os seus aspectos.
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
