Murray Rothbard e David Friedman exemplificam estilos contrastantes de pensamento libertário: Rothbard argumenta a partir de princípios, ao passo que Friedman tende a evitar regras fixas, sempre atento aos custos e benefícios das diversas políticas. Não vos surpreenderá que eu prefira a abordagem de Rothbard, mas a mente inventiva de Friedman merece elogios. Apesar dos diferentes estilos de pensamento, ambos convergiram na defesa de uma política externa não-intervencionista como a melhor para a América, e por uma razão semelhante: o estado faz mal as coisas.
Eis o que diz Rothbard:
Vivemos, infelizmente, num mundo de estados-nação, em que cada estado se arrogou o monopólio do uso da violência sobre a área territorial que considera sua. Por conseguinte, para limitar o uso agressivo do estado, para limitar tanto quanto possível a violência do estado contra pessoas inocentes, o libertário, seja ele anarquista ou liberal laissez-faire, chega necessariamente à conclusão de que, pelo menos, cada estado deve restringir as suas operações à área onde detém o monopólio da violência, de modo a impedir confrontos entre estados ou, mais importante ainda, danos infligidos pelo estado A à população do estado B. Este último ponto é particularmente importante na era da tecnologia moderna, em que é praticamente impossível o estado A combater o estado B sem ferir gravemente e assassinar um grande número de civis inocentes de ambos os lados.
Por conseguinte, o “isolacionismo” — a restrição da violência do estado ao seu próprio território — é um importante preceito libertário, tanto para um anarquista como para um minarquista. O estado existente não é uma alternativa inofensiva a uma agência de protecção do mercado livre. O estado é a encarnação do crime organizado, do assassínio, do roubo e da escravização. E, mesmo para os liberais do laissez-faire, o estado existente deve ser condenado com os mesmos rótulos terríveis. Limitar o governo ao seu próprio território é o equivalente, em matéria de política externa, da exigência do liberal do laissez-faire, no plano interno, de que o estado não interfira na vida dos seus próprios súbditos.
Friedman, como seria de esperar, salienta aquilo que tem probabilidades de funcionar na prática:
Os argumentos a favor de uma política intervencionista podem resumir-se numa expressão: a lição de Munique. Tem-se amplamente defendido que, se os britânicos e os franceses tivessem estado dispostos a travar Hitler na altura dos Acordos de Munique, este teria recuado e a Segunda Guerra Mundial nunca teria ocorrido. Muitas pessoas concluem que a forma adequada de lidar com potenciais inimigos, sobretudo inimigos com a ambição de conquistar o mundo, é combatê-los antes de se tornarem suficientemente fortes para nos combaterem, impedir a sua expansão aliando-nos às nações que pretendem anexar, aliando-nos a qualquer governo disposto a juntar-se a nós para lhes fazer frente.
O ponto fraco deste argumento é o pressuposto de que a política externa intervencionista será bem executada — de que o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros é Maquiavel ou Metternich. Para que esta política funcione, temos de determinar correctamente que países serão nossos inimigos e quais serão nossos aliados daí a dez anos. Se nos enganarmos, acabaremos por nos envolver desnecessariamente, por erro, nas guerras dos outros, gastando o nosso sangue e os nossos recursos nas lutas deles, em vez de serem eles a gastar os seus nas nossas.
A inversão que Friedman faz da perspectiva intervencionista habitual sobre a “lição de Munique” é uma hábil manobra de jiu-jitsu intelectual, mas concede demasiado aos intervencionistas. A verdadeira intervenção foi a pressão britânica e francesa sobre os checos para que negociassem com os alemães e, em todo o caso, Friedman não se compromete com uma política não-intervencionista para nenhuma outra nação além dos Estados Unidos, embora considere que a intervenção das potências europeias padece da mesma inépcia que atribui aos Estados Unidos.
Friedman dá um excelente exemplo desta inépcia:
Na primeira vez que Hitler tentou anexar a Áustria, foi travado por Mussolini, que anunciou que a Itália não toleraria a anexação e reforçou essa posição deslocando divisões italianas para o passo do Brennero. O que alterou esta situação foi a oposição da França e da Grã-Bretanha à anexação italiana da Abissínia. Mussolini concluiu que os aliados da Itália na Primeira Guerra Mundial já não eram amigos e, dada a tibieza dos seus esforços, também não eram inimigos muito perigosos. Na segunda vez que Hitler avançou para anexar a Áustria, fê-lo com a autorização de Mussolini.
A política intervencionista incompetente dos inimigos de Hitler dera-lhe o seu primeiro aliado.
Friedman resume eficazmente os seus argumentos contra uma política externa intervencionista:
Um dos problemas de uma política externa intervencionista é podermos intervir desnecessariamente ou do lado errado; pode defender-se que foi isso que aconteceu em grande parte da nossa política em relação à China. Um segundo problema é que, mesmo estando do lado certo, estamos frequentemente envolvidos em conflitos muito mais importantes para os outros intervenientes, pelo que acabamos por pagar o custo da intervenção sem conseguir grande coisa….
O problema de uma política externa intervencionista é que executá-la mal é muito pior do que não a executar de todo. Algo que tem de ser bem feito para valer a pena fazê-lo está a ser feito pelas mesmas pessoas que dirigem os correios — e com resultados semelhantes….
Este argumento sugere que os libertários devem ser cépticos em relação a uma política externa intervencionista. É difícil conduzir uma política intervencionista bem-sucedida e, enquanto libertários, não esperamos que o governo faça bem coisas difíceis.
Mas, se o governo faz sempre asneira, que devemos fazer?
Noutro sentido, creio que existe uma política externa libertária — uma política externa que os libertários podem esperar que funcione melhor do que as políticas alternativas. Essa política consiste em defendermo-nos combatendo aqueles que efectivamente nos atacam, em vez de mantermos uma rede mundial de alianças. O argumento é simples. Uma política intervencionista mal executada é muito pior do que a ausência de tal política, e podemos ter a certeza de que uma política externa intervencionista conduzida pelo governo dos Estados Unidos será mal executada.
A maneira como Friedman vê as coisas faz lembrar a defesa do capitalismo por Frank Knight: não era tanto a melhor opçãom, mas sim a menos má.
A existência de armas nucleares complica a política externa. Friedman considera os mais variados cenários de dissuasão nuclear e pondera as vantagens e as desvantagens do uso dessas armas. Está bem ciente do inevitável assassínio de inocentes que qualquer utilização de armas nucleares implica, mas, embora considere que isso constitui uma forte razão contra o seu uso, não o exclui em todas as circunstâncias.
Rothbard exclui-o. Escrevendo durante a Guerra Fria contra a URSS, afirma:
Na verdade, porém, o maior inimigo da liberdade é o assassínio em massa. Os governos comunistas assassinam os seus cidadãos, mas a guerra nuclear assassinaria muitíssimos mais, na realidade, toda a humanidade. E, por isso, o maior inimigo da liberdade no nosso tempo, o nosso inimigo realista, se assim o quiserem, é a guerra nuclear, seja qual for o estado que a desencadeie….
Há, portanto, duas políticas essenciais que os libertários devem instar o estado americano a adoptar: uma política de “isolacionismo”, de não intervenção no território de outros estados; e pressioná-lo para que encete finalmente negociações sérias com vista ao desarmamento nuclear mútuo, com inspecções. O facto de a Rússia soviética chacinar muitos dos seus próprios cidadãos é monstruoso e importante, mas é irrelevante para a questão da política externa e para as ameaças à liberdade humana que tais políticas comportam.
Pois não compete a nenhum estado, incluindo os Estados Unidos, corrigir os pecados contra o Decálogo, espalhar fogo e devastação para levar a liberdade a todo o globo — como fizemos ao assassinar inúmeros vietnamitas em nome da sua “liberdade”. E, acima de tudo, temos de perceber que a guerra nuclear é uma ameaça à liberdade muito maior do que o comunismo. Que tal isto como exemplo de “realismo” libertário?
Friedman tem fortes convicções morais, mas argumenta muitas vezes sem fazer referência a elas. Para Rothbard, a moralidade é sempre decisiva. “E isso tem feito toda a diferença.”
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
