A engenharia social da opinião pública — a arte de moldar crenças, valores e comportamentos colectivos em larga escala — não é uma conspiração recente, mas uma prática sistemática que se desenvolveu ao longo do século XX e se intensificou dramaticamente na era digital e da inteligência artificial. Em 2026, vivemos um momento em que as técnicas clássicas de propaganda se fundem com algoritmos, deepfakes e microtargeting, criando um ecossistema de influência mais preciso e invasivo do que nunca.
Tudo começou com pensadores como Edward Bernays, sobrinho de Freud e considerado o pai das relações públicas modernas. No livro Propaganda (1928), Bernays defendeu abertamente a “manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizadas das massas” como elemento indispensável da democracia. Organizou campanhas icónicas, como a que associou os cigarros à emancipação feminina nos anos 1920. Outro pilar foi Walter Lippmann, que em Public Opinion (1922) argumentou que o público comum é incapaz de compreender realidades complexas, devendo ser guiado por elites que constroem “imagens na cabeça” das pessoas.
Mais tarde, Noam Chomsky e Edward S. Herman sistematizaram o mecanismo no clássico Manufacturing Consent (1988): os média comerciais filtram a realidade através de cinco “porteiros” — propriedade concentrada, dependência de anunciantes, fontes oficiais, “flak” (pressão contra dissidentes) e um inimigo comum ideológico. Estas ideias continuam válidas, mas foram atualizadas pela era das plataformas digitais.
As principais técnicas usadas hoje incluem:
- Enquadramento e agenda-setting — decidir não só o que pensar, mas sobre o que pensar (e o que ignorar).
- Repetição simplificada — slogans curtos e martelados incessantemente.
- Apelo emocional (medo, raiva, pertença tribal) — mais eficaz do que argumentos racionais.
- Astroturfing — simular movimentos populares orgânicos com contas pagas e bots.
- Microtargeting psicográfico — usar big data para mensagens personalizadas.
- Deepfakes e IA gerativa — criar áudios, vídeos e textos hiper-realistas para desinformação em escala industrial.
Em 2026, relatórios apontam que ataques de engenharia social assistida por IA (phishing hiper-personalizado, clonagem de voz, perfis falsos convincentes) tornaram-se a principal ameaça cibernética global.
Mas quem orquestra isto em escala global? Não existe uma única “mão invisível”, mas uma rede de actores interconectados:
- Think tanks de influência como Council on Foreign Relations (CFR), Atlantic Council, Brookings Institution, Chatham House e Heritage Foundation.
- Fundações privadas como Open Society Foundations, Bill & Melinda Gates Foundation, Rockefeller e National Endowment for Democracy (NED) — financiam ONGs, média e narrativas em temas como clima, saúde e “democracia”.
- Big Tech (Meta, Google/Alphabet, ByteDance/TikTok, X) — controlam o fluxo algorítmico de informação, amplificando conteúdo polarizador por design (engajamento = lucro).
- Agências estatais — historicamente CIA (Operation Mockingbird), Pentágono e MI6; hoje também serviços chineses e russos em campanhas híbridas.
A interacção com os mass-media e cinema é particularmente reveladora. Os média tradicionais dependem de think tanks para “especialistas” e relatórios prontos, enquanto
conglomerados (controlados por fundos como BlackRock e Vanguard) evitam confrontar anunciantes ou fontes oficiais poderosas.
No entretenimento, a colaboração é ainda mais directa. O documentário Theaters of War (2022, com actualizações e exibições contínuas em 2024-2025) revela que o Pentágono e a CIA elaboraram guiões e exerceram controlo editorial em mais de 2.500 produções desde os anos 1940. Filmes como Top Gun: Maverick (2022), franquias Marvel (Iron Man, Captain America), Mission: Impossible e outras recebem equipamentos militares, bases e consultoria em troca de ajustes que promovem valores como intervencionismo, vigilância justificada e heroísmo patriótico. Em 2025-2026, esta parceria mantém-se forte, com novas temporadas e blockbusters alinhados a narrativas de “segurança nacional”.
Em resumo, a opinião pública em 2026 não se forma espontaneamente: é um produto industrializado, onde técnicas centenárias de Bernays se encontram com o poder computacional da IA e das plataformas. O resultado é um ambiente onde distinguir propaganda de informação se torna cada vez mais difícil, e onde o consentimento, mais do que nunca, é fabricado em escala global.
Este mecanismo explica em grande parte a percepção actual face ao Irão. Durante décadas, os média ocidentais, apoiados por think tanks, fundações e fontes oficiais, retrataram persistentemente o Irão como uma ameaça existencial: um regime teocrático obcecado por armas nucleares, patrocinador do terrorismo global e inimigo irreconciliável de Israel e do Ocidente. Esta narrativa (reforçada por enquadramentos alarmistas sobre o “programa nuclear iraniano”, relatórios de inteligência selectivos, coberturas sensacionalistas de protestos internos e associações constantes ao “eixo do mal”) criou uma imagem acumulada de hostilidade que persiste mesmo perante factos contraditórios, como a ausência comprovada de um programa ativo de armas nucleares segundo avaliações de inteligência recentes.
Anos de repetição simplificada (“Irão a semanas/meses de ter a bomba”, “ameaça iminente”, “apoio a proxies terroristas”) e apelo emocional (medo de proliferação nuclear, solidariedade com Israel, imagens de repressão interna) condicionaram gerações a ver o Irão não como um Estado soberano com interesses regionais legítimos, mas como um problema a resolver pela força. Quando surgem acções militares conjuntas dos EUA e de Israel (como os recentes ataques de Fevereiro/Março de 2026 contra instalações nucleares, instalações de mísseis e até alvos de liderança, justificados como prevenção de uma “ameaça existencial”) uma fatia significativa da opinião pública (particularmente nos EUA e em Israel) reage com aceitação ou apoio condicionado, apesar de sondagens recentes mostrarem maiorias de desaprovação geral (por exemplo, apenas cerca de 27% dos americanos aprovam os ataques segundo Reuters/Ipsos, e 59% desaprovam segundo CNN).
Nos EUA, o apoio é mais forte entre republicanos (cerca de 55-77% em várias sondagens), enquanto democratas e independentes tendem a opor-se fortemente. Em Israel, sondagens indicam maiorias (cerca de 59%) favoráveis a acções conjuntas. Esta divisão reflecte o sucesso parcial da engenharia de consenso: mesmo sem apoio maioritário absoluto, a narrativa prévia desumanizou suficientemente o alvo para que ataques preventivos ou de “regime change” pareçam defensivos e necessários a muitos, em vez de agressão imperial.
Portugal e os países da União Europeia não são imunes a esta engenharia social. As mesmas técnicas e ações são praticadas em Portugal e na UE, com o apoio dos meios de comunicação social nacionais e europeus, que frequentemente alinham narrativas com fontes e enquadramentos ocidentais dominantes. Um fator decisivo é a profunda integração cultural com os Estados Unidos da América, veiculada pela cultura mediática, cinematográfica e jornalística: Hollywood domina o mercado audiovisual europeu (incluindo em Portugal, onde ocupa historicamente a maioria das quotas de exibição), enquanto plataformas digitais e fluxos de informação transatlânticos reforçam valores, medos e prioridades partilhados. Esta influência — visível em coberturas alinhadas sobre temas como o Irão, a Ucrânia, o clima ou a NATO — condiciona percepções colectivas, tornando a opinião pública portuguesa e europeia suscetível às mesmas dinâmicas de fabricação de consentimento que operam no eixo anglo-americano.
Assim, o que vemos hoje não é uma reacção espontânea a eventos recentes, mas o fruto maduro de décadas de fabricação de consentimento. Enquanto as plataformas digitais amplificam a polarização e as instituições de influência continuam a filtrar realidades, a manipulação da opinião pública permanece a ferramenta essencial na geopolítica contemporânea.
O nosso amigo Rothbard, encaixaria perfeitamente esta análise numa tese simples e radical: o Estado só sobrevive porque consegue fabricar, em massa, o consentimento dos governados — e fá-lo precisamente através da maquinaria de propaganda e manipulação que o texto expõe.
Para Rothbard, o Estado é uma instituição de agressão organizada que necessita de um “sacerdócio” de intelectuais, jornalistas, académicos, especialistas e estrategas de relações públicas para apresentar a sua dominação como necessária, moral e inevitável. O que o artigo descreve — think tanks, fundações, média alinhados, Big Tech, indústria cultural e a instrumentalização de conceitos como “direitos humanos”, “democracia” ou “segurança nacional” para justificar guerras, sanções e intervenções — é exactamente esse sacerdócio em acção: transformando agressão em “defesa”, saque fiscal em “solidariedade”, imperialismo em “ordem internacional baseada em regras”.
No quadro rothbardiano, a “construção do consentimento” não é um acidente ou falha do sistema; é a tecnologia central do poder político. A demonização sistemática de inimigos externos, o silenciamento ou ridicularização de dissidentes, o uso constante de medo (terrorismo, proliferação nuclear, “ameaças existenciais”, pandemias, clima) para gerar aceitação de medidas excepcionais — tudo isto são mecanismos pelos quais o Estado e os seus aliados económicos e mediáticos asseguram que a maioria não apenas obedece, mas acredita que deve obedecer. Daí Rothbard insistir que a verdadeira batalha é uma batalha de ideias: enquanto a opinião pública aceitar o mito do Estado benevolente e protector, toda a crítica económica, moral ou geopolítica ficará sempre incompleta.
A “moral da história” rothbardiana para este texto seria, portanto, esta: sempre que confrontares uma narrativa unânime vinda de governos, grandes meios de comunicação, grandes empresas e instituições “respeitáveis”, assume primeiro que estás perante um esforço coordenado de fabricação de consentimento ao serviço de interesses de poder — e só em segundo lugar considera a hipótese de estar a ser dito algo verdadeiro e justo.
Desmontar esse controlo ideológico é o primeiro, e talvez o único, passo para uma sociedade verdadeiramente livre.
