No início da década de 1990, o historiador Eric Foner e Lynne Cheney foram entrevistados no programa Firing Line acerca dos National History Standards, que na altura estavam a receber alguma atenção a nível nacional devido à versão da história que estava a ser incluída nos manuais escolares das escolas públicas. Durante a entrevista, Cheney acusou Foner de ser um historiador revisionista.
No dia seguinte, um repórter da Newsweek telefonou a Foner para lhe perguntar sobre a acusação. “Professor Foner, quando começou todo este revisionismo?”
Foner respondeu (segundo o seu relato da conversa telefónica): “Provavelmente com Heródoto.” Heródoto, para quem eventualmente não saiba, é o historiador da Grécia Antiga geralmente considerado o pai da disciplina da história.
O repórter da Newsweek respondeu: “Tem o número de telefone dele?”
Não sei se a história é verdadeira, uma vez que apenas dispomos do relato de Foner acerca da sua própria piada espirituosa, mas espero sinceramente que sim. Quer Foner esteja ou não a embelezar o episódio para o tornar mais cómico, este proporciona uma boa oportunidade para explicar o que significa ser um historiador “revisionista”.
Numa outra entrevista, Foner colocou a questão de forma mais directa:
É difícil para quem não é versado em história compreender por que razão a interpretação histórica muda. Na cultura geral, “historiador revisionista” é um termo depreciativo. Mas é isso que fazemos. Rever a história é o nosso trabalho. Portanto, todos os historiadores são, em certo sentido, historiadores revisionistas.
História revisionista é um rótulo de que o Mises Institute não se procura afastar, nem deveria fazê-lo. O académico e historiador do Mises Institute Jeff Riggenbach tem um livro inteiro dedicado ao tema da história revisionista americana. O próprio Murray Rothbard escreveu um ensaio sobre a importância da história revisionista. Mas, naturalmente, o rótulo de “revisionista” continuará provavelmente a ser lançado contra os académicos do Mises Institute como termo pejorativo, tal como Lynne Cheney o usou contra Eric Foner.
Então por que razão é o revisionismo tão importante para a disciplina? Como Mises explica em Theory and History, o nosso conhecimento dos acontecimentos históricos não é, nem pode alguma vez ser, perfeito. As provas documentais são sempre necessariamente incompletas, e nenhum historiador é capaz de reunir todas as provas potencialmente relevantes que de facto existem. O melhor que os historiadores podem fazer é procurar descobrir novas provas e reexaminar as antigas à luz de uma teoria sólida, de modo a poderem propor novas interpretações.
E, se um historiador estiver a fazer bem o seu trabalho, o resultado natural será uma revisão da história. Para contribuírem para a investigação académica sobre o assunto, os historiadores não podem simplesmente repetir a narrativa já existente; têm de ampliar, refutar ou rever a narrativa existente de acordo com novas provas e novas análises. É precisamente isto que a profissão de historiador implica.
Uma má obra de história raramente resulta de provas incorrectas ou fabricadas (embora o recente trabalho de encomenda de Nancy McClean demonstre que obras deste género podem, ainda assim, receber amplos elogios, desde que sustentem o enviesamento ideológico aprovado). Com mais frequência, porém, como nos recorda Jeff Riggenbach, uma má história é aquela que omite provas relevantes ou carece de uma teoria sólida que permita interpretar correctamente as provas e ponderar com rigor a sua relevância. Uma boa história é aquela que corrige estes erros humanos através de uma revisão sólida.
Então por que razão promove tanto o Mises Institute o revisionismo?
Mises ofereceu ao historiador uma ferramenta adicional para a sua caixa de ferramentas académica, da qual poucos historiadores profissionais têm tirado partido: a praxeologia. A história, como Mises nos diz e Rothbard nos recorda nos textos anteriormente referidos, não é uma ciência a priori. Mas, ao analisar as provas empíricas da história — sendo a prova documental o principal instrumento do historiador —, o historiador misesiano pode aplicar à análise o conhecimento a priori adquirido através da praxeologia. Munido de uma teoria adequada, o historiador misesiano consegue, assim, propor uma nova interpretação da história que seja compatível tanto com as provas empíricas como com a teoria sólida da acção humana.
Munido dos conhecimentos teóricos proporcionados por Mises, Murray Rothbard conseguiu apresentar uma revisão da história da Grande Depressão suficientemente convincente para que o reputado historiador Paul Johnson escrevesse o prefácio de uma edição posterior. Rothbard reviu a história de uma forma que constituiu um importante contributo para a nossa compreensão destes acontecimentos.
A Grande Depressão Americana é, naturalmente, apenas uma das grandes revisões históricas de Rothbard. Outro grande académico misesiano, Robert Higgs, aplicou conhecimentos semelhantes para rever a nossa compreensão da relação entre a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Os exemplos poderiam continuar quase ad infinitum, mas menciono estes dois porque estiveram entre as revisões mais importantes para a minha própria compreensão pessoal da forma como os conhecimentos misesianos podem melhorar a nossa compreensão da história.
O rótulo de “história revisionista”, portanto, não deveria ser nem pejorativo nem elogioso; deveria ser uma redundância. A história que não oferece qualquer revisão não é sequer história — é apenas a repetição dos contributos de outra pessoa (para fins pedagógicos, isto pode, naturalmente, ter o seu próprio valor, caso alguém seja capaz de pegar em ideias complexas e torná-las acessíveis a um público mais vasto). Mas chamar a alguém historiador revisionista, se a afirmação for verdadeira, é simplesmente chamar-lhe “historiador”.
É importante ter presente que o revisionismo não é mais elogio do que é insulto, pois é preciso mais do que uma “revisão” para se ser um bom historiador. Tom Woods deixa isto claro na introdução a 33 Questions About American History You’re Not Supposed to Ask. Conta-nos a famosa história da partida de H.L. Mencken acerca da banheira, na qual se conta como Mencken publicou intencionalmente uma falsa “história da banheira” em 1917. Mencken estava — como sempre — a fazer humor, mas ficou surpreendido ao descobrir que a sua história fora recebida com entusiasmo, chegando mesmo a receber cartas de pessoas que apresentavam “provas” corroborantes da sua falsa história!
Durante muitos anos, a falsa história da banheira de Mencken “reviu” a história da banheira — uma consequência que o próprio Mencken não previra. Quando esta narrativa histórica foi corrigida, a correcção foi também uma revisão — uma revisão da história que Mencken fabricara como brincadeira. Para que a história seja boa história, tem de ser mais do que meramente “revisionista”; tem também de ser honesta e rigorosa.
O Mises Institute assume orgulhosamente a história revisionista dos seus académicos, mas fá-lo porque estes reconhecem que ainda há muito a fazer para melhorar a nossa compreensão de uma história rigorosa, aplicando ao campo da história os — lamentavelmente negligenciados — ensinamentos de Ludwig von Mises. Enquanto a historiografia dominante continuar a ignorar uma teoria económica sólida — ou, mais especificamente, a teoria económica Austríaca —, continuará a haver história que necessita de revisão correctiva.
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
