De acordo com grande parte da economia “popular”, o actual sistema monetário amplifica as injecções monetárias iniciais. Assim, se o banco central injectar mil milhões de dólares na economia, e os bancos mantiverem 10 por cento em reservas contra depósitos, isso permitirá ao primeiro banco emprestar 90 por cento dos mil milhões de dólares. Os 900 milhões de dólares, por sua vez, acabarão no segundo banco, que emprestará 90 por cento dos 900 milhões de dólares. Os 810 milhões de dólares acabarão num terceiro banco, que, por sua vez, emprestará 90 por cento de 810 milhões de dólares, e assim sucessivamente.
Consequentemente, a injecção inicial de mil milhões de dólares tornar-se-á em 10 mil milhões de dólares (isto é, a oferta monetária expandir-se-á por um múltiplo de 10). Note-se que, neste exemplo, o banco central iniciou activamente o bombeamento monetário de mil milhões de dólares, o qual, por sua vez, os bancos expandiram para 10 mil milhões de dólares.
Economistas da escola pós-keynesiana (PK) têm manifestado dúvidas quanto à validade do enquadramento popular do multiplicador monetário. Argumentam que a principal fonte da expansão monetária é a procura de empréstimos, em conjunto com a disposição dos bancos para conceder crédito. Além disso, para os PK, os bancos centrais não estão activamente envolvidos na expansão da moeda. O papel do banco central no sistema bancário moderno é o de efectuar um acto de equilíbrio. Por exemplo, se num determinado dia as receitas em numerário do governo excederem as despesas, isso conduz a uma escassez de numerário nesse dia. Para evitar uma corrida ao numerário no mercado monetário e um subsequente aumento da taxa de juro overnight, o banco central tem de injectar uma quantidade apropriada de numerário, de modo a manter a taxa de juro no nível alvo — pelo menos é o que defendem os PK. Nesta forma de pensar, a principal fonte da expansão monetária são os bancos comerciais que — através de um aumento do crédito — provocam um aumento da oferta monetária.
A oferta de crédito, segundo os PK, nunca é independente da procura — os bancos apenas concedem empréstimos porque alguém está disposto a pedir emprestado o dinheiro do banco, emitindo um IOU1 ao banco. Novamente, segundo esta forma de pensar, a força motriz da expansão do crédito bancário, e portanto da expansão da oferta monetária, é o aumento da procura de empréstimos.
Segundo os PK, os bancos estarão sempre dispostos a satisfazer a procura de um mutuário de boa qualidade. Mas, sendo assim, como é acomodada a procura de crédito? Qual é a fonte da oferta de crédito? Parece que, para os PK, a fonte da oferta é o endividamento dos próprios bancos.
Quando um banco se endivida junto de outra entidade, tudo o que temos é uma transferência de dinheiro dessa entidade para o banco, sem qualquer alteração na oferta monetária. Além disso, segundo os PK, o banco central não tem nada a ver com a expansão da oferta monetária. Portanto, se nem o banco central nem o endividamento dos bancos estão a causar a expansão da oferta monetária, o que então provoca o aumento da oferta monetária?
O Multiplicador Monetário: Mito ou Realidade?
O multiplicador monetário surge porque os bancos estão legalmente autorizados a utilizar dinheiro que foi colocado por indivíduos em depósitos à ordem. Os bancos tratam este tipo de dinheiro como se lhes tivesse sido emprestado.
Se John deposita 100 dólares à ordem no Banco Um, não abdica da sua reivindicação sobre os 100 dólares depositados. Ele mantém um direito ilimitado sobre esses 100 dólares. O depósito à ordem não seria considerado diferente do dinheiro detido no bolso do indivíduo. (Note-se que John pode exercer a sua procura de dinheiro quer mantendo-o no bolso, quer debaixo do colchão, quer no depósito à ordem no banco). Assim, quando o Banco Um utiliza o dinheiro depositado como se lhe tivesse sido emprestado, é como se o banco tivesse retirado parte do dinheiro da posse do indivíduo sem o seu consentimento. Uma vez que o banco empresta parte do dinheiro depositado, o banco gera novos depósitos.
O facto de os bancos utilizarem o dinheiro colocado em depósitos à ordem, enquanto os titulares desses depósitos não abdicaram das suas reivindicações sobre o dinheiro depositado, põe em marcha o multiplicador monetário da forma descrita pelo pensamento popular. Por exemplo, o Banco Um empresta 1.000 dólares, que foram retirados do depósito à ordem de John sem o consentimento deste. Os 1.000 dólares acabam no Banco Dois, que empresta, por exemplo, 90 por cento do novo dinheiro. Os 900 dólares, por sua vez, acabam no terceiro banco e assim sucessivamente.
Minimização em Mercado Livre
Numa economia de mercado livre, a probabilidade de os bancos utilizarem o dinheiro dos depositantes nas suas actividades de concessão de crédito sem o consentimento dos proprietários tenderá a ser muito baixa. Por exemplo, se o Banco Um concede um empréstimo de 50 dólares a Mike a partir dos 100 dólares depositados por John, corre o risco de falência. Suponhamos que John compra bens no valor de 100 dólares a Tom, enquanto Mike compra bens no valor de 50 dólares a Jerry. Tanto John como Mike pagam os bens com cheques sobre os seus depósitos no Banco Um.
Agora, Tom e Jerry depositam os cheques recebidos de John e Mike no seu banco — Banco B — que é concorrente do Banco Um. O Banco B apresenta esses cheques ao Banco Um e exige numerário em troca. Contudo, o Banco Um tem apenas 100 dólares em numerário — faltam-lhe 50 dólares. Consequentemente, o Banco Um corre o risco de ser declarado insolvente. O facto de os bancos terem de compensar cheques constitui um desincentivo à utilização do dinheiro dos depositantes sem o seu consentimento.
Além disso, deve reconhecer-se que a tendência para ser “apanhado” a praticar concessão de crédito sem o consentimento dos depositantes aumentará quando existirem muitos bancos concorrentes. À medida que o número de bancos aumenta e o número de clientes por banco diminui, aumenta a probabilidade de os clientes gastarem dinheiro em bens de indivíduos que operam com outros bancos. Isto, por sua vez, tende a aumentar o risco de o banco não conseguir compensar os seus cheques quando pratica banca de reservas fraccionárias.
Por outro lado, à medida que o número de bancos concorrentes diminui — isto é, à medida que o número de clientes por banco aumenta —, a probabilidade de ser “apanhado” a praticar concessão de crédito sem o consentimento dos depositantes diminui. No caso extremo, em que existe apenas um banco, este pode praticar concessão de crédito sem o consentimento dos depositantes sem qualquer receio de ser exposto. Assim, se Tom e Jerry também forem clientes do Banco Um, então, uma vez que depositam os cheques recebidos de John e Mike, a titularidade dos depósitos é transferida de John e Mike para Tom e Jerry. Esta transferência, contudo, não produzirá qualquer efeito perturbador no Banco Um.
Podemos, assim, concluir que, num mercado livre, se um determinado banco tentar expandir o crédito utilizando o dinheiro dos depositantes sem o seu consentimento, esse banco corre o risco de ser apanhado. Consequentemente, numa economia de mercado livre, a ameaça de falência tenderá a reduzir ao mínimo a utilização de depósitos nas actividades de concessão de crédito dos bancos sem o acordo do depositante.
Embora, numa economia de mercado livre, a utilização de depósitos sem o consentimento dos depositantes na concessão de crédito bancário tenda a ser mínima, o mesmo não se verifica no enquadramento de um banco central. Por meio de injecções monetárias inflacionistas, o banco central assegura que o sistema bancário seja “suficientemente líquido”, de modo a que os bancos não se levem mutuamente à falência.
Conclusões
Ao contrário do que sustentam os pós-keynesianos (PK), a existência de um banco central permite que os bancos utilizem depósitos na concessão de crédito sem o consentimento do depositante. Isto põe em marcha o multiplicador monetário (isto é, a criação de moeda a partir do “nada”).
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
- Nota escrita formalizando que se deve dinheiro a alguém [N. do T.] ↩︎
