«O Estado é a grande ficção através da qual todos se esforçam por viver à custa de todos os outros.»
— Frédéric Bastiat
A intuição de Bastiat torna-se mais profética a cada dia que passa. Observa o que sucede em qualquer crise. A reacção é previsível: as pessoas fragmentam-se em tribos em guerra, cada qual convencida de que luta pela própria sobrevivência. Vizinhos tornam-se denunciantes, famílias dividem-se por ideologia, e comunidades voltam-se contra si mesmas. Enquanto os cidadãos se exaurem mutuamente em cruzadas morais, algo mais avança silenciosamente — a concentração de poder. As burocracias expandem-se, a autoridade aperta, e a maquinaria de controlo torna-se cada vez mais intrincada.
Isto não é acidente. Um sistema erigido sobre a coerção necessita de divisão como de oxigénio. Precisa de inventar inimigos internos para justificar a sua dominância, para manter as pessoas dependentes da sua “protecção”. Quando os cidadãos estão ocupados a combater-se uns aos outros — por política, cultura, raça ou fé — não formulam a questão fundamental: por que razão alguém deve governá-los de todo?
Cada “emergência” orquestrada, cada pânico financeiro, ou guerra cultural, serve o mesmo propósito: fazer a expansão do poder centralizado parecer simultaneamente natural e necessária. Randolph Bourne tinha razão — a guerra é a saúde do Estado — mas, no nosso tempo, a guerra assume formas mais subtis: propaganda, inflação, vigilância e medo.
O único antídoto é a auto-propriedade, a troca voluntária e a recusa em participar no jogo de senhores e súbditos.
A Arquitectura da Crise Manufacturada
O mecanismo funciona porque ataca o fundamento da cooperação voluntária. Quando o futuro se torna imprevisível, as pessoas recolhem-se em tribos que prometem certeza. O estado não precisa de impor ordem directamente; manufactura o caos até que implores por grilhões. A incerteza torna-se o pretexto do controlo.
Esta é a lógica de todos os monopólios: destruir as alternativas e depois apresentar-se como a única solução. O estado degrada a moeda através da inflação, criando desespero. Regula o comércio até que apenas os bem relacionados consigam operar. Monopoliza a justiça até que as pessoas aceitem os seus tribunais como inevitáveis, e depois aponta para a desordem resultante para exigir mais poder para “corrigir” aquilo que ele próprio quebrou.
Cada guerra cultural, cada pânico financeiro, cada “emergência” segue o mesmo guião. Enquanto te enfureces com o teu vizinho por bandeiras, slogans ou linhas partidárias, o banco central drena as tuas poupanças. Enquanto discutes qual escândalo importa mais, os reguladores entrincheiram silenciosamente os monopólios que servem. Enquanto te afogas em indignação e distracção, alianças público-privadas constroem a maquinaria de vigilância e controlo.
O génio do sistema reside no facto de participares voluntariamente. Aceitas restrições que outrora terias rejeitado. Denuncias dissidentes. Aplaudes quando as “pessoas erradas” são silenciadas. E, enquanto a atenção é colhida, o poder concentra-se silenciosamente — até que a conformidade parece virtude e a soberania individual se torna ilusão.
Isto não é conspiração. É o comportamento natural de um sistema que nada produz e só pode sobreviver extraindo de quem produz. Um parasita tem de manter o hospedeiro suficientemente vivo para se alimentar, mas suficientemente confuso para não notar a perda de sangue.
A Morte da Troca Voluntária
A civilização assenta numa premissa simples: duas pessoas trocam apenas porque ambas esperam beneficiar. Essa troca pressupõe, não apenas a auto-propriedade — a pretensão de que controlas o teu corpo, o teu trabalho e os frutos da tua acção — mas um reconhecimento mútuo mínimo dessa mesma pretensão nos outros. Como Hans-Hermann Hoppe sustenta, qualquer tentativa de justificar normas pressupõe propriedade sobre o próprio corpo, e negar a auto-propriedade de outrem enquanto se dialoga com ele constitui uma contradição performativa. Mesmo quando discordamos em tudo o resto, o próprio acto de interacção pacífica sinaliza um respeito ténue mas vital: concedemos reciprocamente estatuto de proprietários de nós mesmos, e com ele, o direito de viver e prosseguir fins próprios.
A guerra liquida esse respeito — não apenas a guerra entre nações, mas a psicologia permanente de guerra que o estado cultiva. Sob o seu feitiço, o outro deixa de ser parceiro potencial de troca e torna-se inimigo a quebrar. O teu vizinho deixa de ser um par e passa a ameaça. O desacordo deixa de ser divergência de juízo e passa a deslealdade e traição.
Esta inversão não é efeito colateral; é o objectivo. A troca voluntária e a livre associação são as únicas forças que limitam de forma fiável o poder político, porque pessoas que podem mover-se, comerciar e reorganizar as suas vidas retêm alavancagem. Uma vez arrebanhadas em campos hostis, desconfiadas de estranhos e dependentes de autoridades centrais para segurança e sobrevivência, essa alavancagem desaparece. A governação deixa de actuar como árbitro entre iguais e assume o papel preferido: mestre de um conflito gerido.
Daí decorrem as prioridades. Ataca a moeda, e inserir-te-ás em cada transacção. Ataca a comunicação, e poderás ditar que coordenação é possível. Ataca a propriedade, e decidirás quem pode acumular, conservar ou perder os meios de independência.
A desagregação resultante é apresentada como acidental: instituições “falham”, sistemas “colapsam”, a confiança “dissipa-se”. Na realidade, a decadência é o resultado previsível de políticas que substituem consentimento por comando. À medida que os velhos sistemas ruem sob as próprias contradições, o estado torna-se mais desesperado — mais autoritário — revestindo a sua decomposição de slogans patrióticos e cruzadas morais. Contudo, nenhum volume de coerção pode conjurar aquilo que foi sistematicamente minado: uma sociedade fundada na auto-propriedade, no respeito recíproco e na disposição de lidar uns com os outros como iguais, não como inimigos.
A Ilusão do Controlo e a Realidade da Decadência
Eis o paradoxo: o estado afirma tornar-se mais forte, mais eficiente, mais necessário. Isto é teatro. Os sistemas subjacentes estão a colapsar. A moeda perde valor, a confiança nas instituições evapora-se, e a infra-estrutura de controlo exige manutenção constante e financiamento sempre crescente — ambos cada vez mais difíceis de sustentar.
A vigilância, a censura e os controlos financeiros não são sinais de força; são admissões de fraqueza. Uma ordem estável não precisa de monitorizar cada transacção nem policiar cada palavra. Ganha consentimento pelo desempenho. Mas quando a ordem já não consegue entregar — quando a inflação corrói poupanças, quando os serviços se deterioram, quando a competência escasseia — o único recurso é a coerção.
E a coerção exige inimigos. Exige emergência permanente. Exige que acredites que, sem a intervenção estatal, a sociedade colapsaria no caos. Assim, o estado manufactura o próprio caos do qual afirma proteger-te, apontando-o como prova da necessidade de mais autoridade.
As pessoas pressentem isto, ainda que não o articulem. O ciclo de crise e soluções falhadas gera exaustão. Por isso, o estado tem de manter a população dividida, amedrontada e concentrada em combater-se mutuamente. Se as pessoas deixassem de combater os vizinhos tempo suficiente para perguntar por que razão o sistema continua a falhar, o jogo terminaria.
Este é o movimento espiral descendente de todos os sistemas coercivos. Têm de extrair cada vez mais para manter o controlo, mas cada extracção enfraquece a base produtiva de que dependem. O fim é inevitável. A única questão é o que os substituirá.
Sair do Jogo
O caminho não passa por capturar a maquinaria estatal nem por encontrar uma facção melhor no seu interior. O caminho é reconhecer o jogo como viciado e deixar de jogar.
Isto significa construir relações económicas que não requeiram permissão estatal nem a sua moeda. Significa contra-economia: trocar em moeda privada, usar comunicação encriptada, estabelecer sistemas reputacionais fora do controlo governamental. Significa redes de auxílio mútuo que contornem burocracias assistencialistas e arbitragem privada que supere os tribunais estatais.
Nada disto exige mudança política ou violência. Exige apenas que cooperes directamente com outros em vez de através do intermediário burocrático. Cada transacção fora do sistema — cada pagamento em bitcoin, cada acordo selado por aperto de mão, cada favor trocado numa rede de confiança — é um voto por um mundo diferente.
Significa também recusar as tribos que o estado cria para ti. Não tens de escolher entre facções políticas corruptas. Não tens de participar em guerras culturais que te mantêm distraído. Não tens de tratar o teu vizinho como inimigo por discordar sobre qual emergência merece pânico.
Sobretudo, significa reconhecer que o teu consentimento se exprime pela participação, não pelo voto. O estado reclama legitimidade através de eleições e constituições, mas isso é teatro. O teu consentimento real manifesta-se quando usas a sua moeda, obedeces aos seus regulamentos e aceitas os seus tribunais. Quando retiras essa participação — quando constróis alternativas — não estás a ser destrutivo; estás a ser construtivo de uma forma que o estado não pode tolerar, porque opera fora do seu controlo.
A Única Direcção que Faz Sentido
A velha ordem está visivelmente a desfazer-se. As crises manufacturadas atingem saturação ao ponto de gerar apatia em vez de mobilização. A promessa de que “se apenas obedecermos mais, acreditarmos mais tempo, sacrificarmos mais, tudo resultará” soa oca — porque acaba sempre por soar oca.
O que emerge desse colapso depende do que construirmos antes de ele se consumar. Se gastarmos o tempo a combater-nos, um novo homem forte surgirá para “restaurar a ordem”. Se gastarmos o tempo a tentar reformar o sistema, apenas atrasamos a sua falência enquanto ele extrai mais riqueza e liberdade. Mas se gastarmos o tempo a construir alternativas — alternativas reais fundadas na cooperação voluntária e na propriedade privada — criamos a possibilidade de algo genuinamente diferente.
Isto não é um apelo à passividade. É um apelo a redireccionar energia: afastá-la da defesa do indefensável e orientá-la para a construção do possível. Deixa de tentar vencer debates com pessoas treinadas para te verem como inimigo. Constrói algo a que elas possam aderir. Deixa de esperar pelo líder certo ou pela política perfeita. Constrói o mundo em que queres viver — uma transacção, uma conversa, uma comunidade de cada vez.
Essa é a única revolução que vale a pena ter. Essa é a única que realmente funciona.
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
