«Para mostrar que se trata de uma meia-verdade, temos de recorrer a longas e áridas dissertações.»
— Frédéric Bastiat
Continua a ser uma visão muito prevalecente a de que os empregadores exploram de algum modo as pessoas que trabalham para eles quando retiram um lucro da sua actividade empresarial, apesar do facto de que o empregador de alguém estar manifestamente a fazer mais pelas suas finanças do que todas as pessoas que não a empregam. Acrescentaria ainda – talvez de forma algo jocosa -, incluindo esses guerreiros de teclado que afirmam que integrar alguém numa relação de emprego constitui exploração.
É verdade que os trabalhadores recebem menos do que o valor total do que produzem, mas isso acontece porque aquilo que produzem é realizado com outros recursos que têm de ser comprados, e numa fábrica ou local de trabalho que tem um preço e exige custos gerais de funcionamento. O capitalista é responsável por pagar o marketing e a publicidade que ligam o produto a potenciais compradores — e, no fim de contas, se o produto não se vender, todos os outros já foram pagos, mas o capitalista fica com o prejuízo.
O capitalista apresenta uma visão do que pensa vir a satisfazer melhor as necessidades das pessoas do que aquilo que actualmente as satisfaz. Isto requer uma competência específica que é, em si mesma, uma contribuição laboral para além da dos restantes empregados, e que é própria do empreendedor. Se a sua visão for acertada, obterá efectivamente um lucro. Se for falha, sofrerá uma perda. Este risco não é necessário: na ausência do motivo do lucro, uma pessoa rica é mais propensa a comprar uma casa maior ou a fazer um cruzeiro. Mas o capitalista assume um risco agora e abdica de consumo presente, na esperança de colher benefícios mais tarde. Isso é, em parte, aquilo pelo qual está a ser remunerado.
Outra parte pela qual está a ser remunerado prende-se com o intervalo de tempo entre a realização do investimento e o recebimento do retorno desse investimento. Todos preferimos dispor de recursos no aqui-e-agora do que algures no futuro, porque o futuro é incerto; é por isso que os credores podem cobrar juro pelo dinheiro que emprestam. Optam por abdicar de uma quantidade menor de consumo presente em troca de uma maior no futuro. Os trabalhadores são pagos agora; o capitalista só é pago mais tarde, apenas depois de o produto ser vendido, e apenas SE for vendido, depois de todos os outros terem sido pagos. O economista Eugen von Böhm-Bawerk explicou que, longe de explorar o trabalho, o capitalista remove dos trabalhadores o ónus da espera pelo rendimento. Se quisessem produzir os bens por si próprios, também teriam de esperar até encontrar um comprador antes de obterem um salário estável, e antes disso teriam de poupar ou contrair empréstimos para acumular os recursos necessários à compra de uma fábrica ou oficina sem a ajuda do capitalista.
Por fim, importa referir que o capitalista está a aumentar o valor do trabalho do trabalhador! Se um homem decidir tentar, num campo, as mesmas manobras que numa fábrica o poderiam levar a algum lado, isso não produzirá grande valor para terceiros. É evidente que os trabalhadores podem ganhar mais a trabalhar para o seu empregador do que por conta própria; caso contrário, limitar-se-iam a declarar-se trabalhadores independentes e avançariam para obter um rendimento mais elevado. Talvez alguns consigam ganhar mais por conta própria, mas não queiram assumir as responsabilidades inerentes que são actualmente asseguradas pela empresa que os emprega. Isto também é prova de que os capitalistas estão a fornecer valor.
Os marxistas sustentam que os capitalistas simplesmente retiram os seus lucros «por cima», sem fornecerem qualquer valor próprio — que estão a «extrair mais-valia» dos seus trabalhadores. Mas, se isso fosse verdade, organizações sem fins lucrativos apareceriam para subcotar as empresas com fins lucrativos, eliminando os custos «mortos» de pagar a um capitalista. Não o fazem porque não podem. Os capitalistas estão claramente a fornecer alguma competência ou visão que beneficia os seus trabalhadores. Cada parte beneficia da troca mútua, como o demonstra o facto de que, se o trabalhador pudesse obter um melhor acordo, tomá-lo-ia, e se o empregador pudesse encontrar trabalhadores melhores, contratá-los-ia.
Em última análise, os salários não são uma grandeza arbitrária, mas um reflexo de quanto valor um empregado é capaz de fornecer a um cliente. Se uma pessoa quiser prescindir de um empregador, pode fazê-lo aprendendo competências, seja no trabalho, seja paralelamente, que lhe permitam trabalhar por conta própria. Do mesmo modo, os lucros não são arbitrários, mas um reflexo de quanto valor uma empresa está a fornecer no mercado. Desde que, naturalmente, retire os seus lucros de servir o mercado e não de fazer lobby ou de apelar ao estado, mas isso é assunto para outro artigo.
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
