[Esta palestra foi proferida na Conferência do Instituto Ron Paul sobre como acabar com o vício de Washington pela guerra.]
Murray Rothbard foi o criador do movimento libertário moderno e um amigo próximo tanto meu como de Ron Paul. O seu legado foi grandioso, e no Instituto Mises, tento todos os dias honrar as suas esperanças para connosco.
De entre todas as muitas questões que o preocupavam, esta era a mais importante para ele: a questão da guerra e da paz. Devido ao seu apoio a uma política externa pacífica e não intervencionista para os Estados Unidos, o agente da CIA William F. Buckley colocou-o na lista negra da revista National Review e tentou, felizmente sem sucesso, silenciar a sua voz.
Durante a década de 1950, Murray trabalhou para o Fundo Volker e, numa carta a Ken Templeton em 1959, queixou-se da situação: “Não consigo pensar em mais nenhuma revista que pudesse publicar isto, embora pudesse dar uns retoques e tentar uma das publicações de esquerda-pacifistas. A questão é que estou cada vez mais convencido de que a questão da guerra e da paz é a chave de todo o movimento libertário, e que nunca chegaremos a lado nenhum nesta grande contra-revolução (ou revolução) intelectual a que possamos pôr fim a esta… guerra fria – uma guerra pela qual acredito que a nossa política de linha dura é em grande parte responsável.”
A posição de Buckley era a de que seria necessário erguer uma “burocracia totalitária” no nosso território para combater o comunismo no estrangeiro. A implicação era que, uma vez diminuída a ameaça comunista, este esforço extraordinário, tanto interno como externo, poderia também diminuir.
Como os programas governamentais não costumam diminuir, mas antes procuram novas justificações quando as antigas deixam de existir, poucos de nós ficamos surpreendidos quando o estado de guerra, e os seus apologistas de direita, continuaram a funcionar normalmente mesmo depois de a sua justificação inicial ter desaparecido da história.
Aliás, como se constatou, a ameaça soviética foi grosseiramente exagerada, como sempre acontece com estas ameaças. A maldade do regime soviético nunca foi posta em dúvida, mas as suas capacidades e intenções foram constantemente distorcidas e exageradas.
Apesar dos fundamentos duvidosos em que se baseavam as alegações histéricas por detrás da suposta “ameaça soviética”, a sua existência cristalizou-se numa das ortodoxias incontestáveis da National Review e do movimento conservador mais vasto que então nascia. Quando Murray apontou o absurdo de toda a situação, para não falar da natureza contraproducente da intervenção militar americana no estrangeiro, rapidamente se tornou uma figura controversa na National Review, revista que o tinha publicado nos seus primeiros anos.
Muito antes de existir um “movimento conservador” oficial, com as suas revistas, as suas ortodoxias antiquadas, os seus think tanks ineficazes (com direito a sinecuras para os ex-políticos) e a sua ânsia de respeitabilidade, existia uma associação informal e menos formal de escritores e intelectuais que se opunham a Franklin Roosevelt (tanto nas suas políticas internas como externas), um grupo que Murray apelidou de “Velha Direita”.
Não havia uma linha partidária entre estes intrépidos pensadores porque não havia ninguém para impor uma.
Mesmo na década de 1950 e com o avançar da Guerra Fria, ainda era possível encontrar vozes de moderação entre os restos da Velha Direita. Num artigo de 1966, Murray cita o grupo de direita For America, um grupo de acção política cuja plataforma de política externa exigia “nenhum recrutamento militar obrigatório”, bem como o princípio de “não entrar em guerras estrangeiras a menos que a segurança dos Estados Unidos esteja directamente ameaçada”.
Murray citou ainda o romancista jeffersoniano Louis Bromfield, que escreveu em 1954 que a intervenção militar contra a União Soviética era contraproducente:
Um dos grandes fracassos da nossa política externa em todo o mundo decorre do facto de nos termos permitido ser identificados em todo o lado com as antigas, fadadas e decadentes pequenas nações colonial-imperialistas europeias que outrora impuseram a grande parte do mundo o padrão de exploração e dominação económica e política… Nenhum destes povos rebeldes e despertos confiará em nós ou cooperará de qualquer forma enquanto permanecermos identificados com o sistema colonial económico da Europa, que representa, mesmo no seu modelo capitalista, os últimos resquícios do feudalismo… Deixamos a estes povos que estão a despertar nenhuma outra escolha senão recorrer ao conforto e à promessa de utopia russa e comunista.
Murray mencionou ainda um artigo de 1953 de George Morgenstern, editorialista do Chicago Tribune, na revista Human Events (“que se tornou um órgão sensacionalista do ‘Movimento Conservador’”, lamentou Murray em 1966), que deplorava a tradição imperialista na história americana. Morgenstern ridicularizava aqueles que “se derretem só de ver a expressão ‘liderança mundial’” e escreveu:
Uma propaganda omnipresente estabeleceu o mito da inevitabilidade das ações americanas: todas as guerras eram necessárias, todas as guerras eram boas. O ónus da prova recai sobre aqueles que defendem que os Estados Unidos estão em melhor situação, que a segurança americana foi reforçada e que as perspectivas de paz mundial melhoraram com a intervenção americana em quatro guerras em meio século. A intervenção começou com o engano de McKinley; termina com o engano de Roosevelt e Truman.
Talvez tivéssemos uma política externa racional… se os americanos pudessem ser levados a perceber que a primeira necessidade é a renúncia à mentira como instrumento de política externa.
Com o aparecimento da National Review, estas vozes cada vez mais isoladas seriam silenciadas e marginalizadas. Até o heróico John T. Flynn, cuja biografia anti-FDR, The Roosevelt Myth, tinha alcançado o segundo lugar na lista de best-sellers do New York Times, foi rejeitado pela National Review quando tentou alertar para os perigos de uma política de intervencionismo militar.
Por que razão Murray se opôs à guerra? Eis alguns pontos básicos do seu pensamento:
Antes de mais, a guerra deforma-nos moralmente. Isto acontece porque o próprio estado distorce o nosso sentido moral. Absorvemos a ideia de que o estado pode legitimamente fazer coisas que seriam consideradas atrocidades indizíveis se realizadas por indivíduos privados. Se eu tiver uma queixa, mesmo que legítima, contra alguém, ninguém me defenderia se eu atacasse toda a vizinhança dessa pessoa, e eu seria considerado louco se minimizasse as mortes que causei como meros “danos colaterais”.
Ou imagine-se que a Apple, ou a cadeia de lojas de material de escritório Staples, ou o clube Elks, lançavam uma série de ataques com mísseis que matavam mil pessoas. A indignação seria incessante. Os ataques seriam retratados como prova da maldade incorrigível do sector privado.
Mas quando o governo dos EUA lança guerras indefensáveis contra o Iraque e o Afeganistão, espalhando a morte, a destruição e a deslocação de um número extraordinário de pessoas, há certamente alguma raiva entre os opositores desta política. No entanto, mesmo a maioria dos opositores da guerra evita tirar conclusões abrangentes sobre a natureza do estado a partir desta. Continuam reféns do que aprenderam nas aulas de educação cívica do ensino secundário, onde o estado é descrito como uma instituição grandiosa e progressista. Nem mesmo os horrores da guerra os fazem revisitar esta debilitante suposição. E da próxima vez que estiverem num avião, aplaudirão os soldados que lutaram nessa mesma guerra. (Aliás, aplaudiriam soldados que lutaram numa guerra iniciada pelo Walmart?)
Por outro lado, se pensarmos no estado como uma instituição parasitária e egoísta que sobrevive desviando recursos da população produtiva e que engana o público com uma série de argumentos já conhecidos sobre o porquê de ser indispensável ao nosso bem-estar, podemos olhar para a guerra de forma realista, sem todas as superstições e canções patrióticas.
Infelizmente, as banalidades ingénuas das aulas de educação cívica têm mais influência na mentalidade americana do que o retrato brutalmente realista do estado, da sua natureza e das suas motivações, feito por Rothbard. Assim, a farsa continua. Os presidentes que iniciam estas guerras ainda figuram nas salas de aula americanas, transmitindo a mensagem de que, quaisquer que sejam os seus supostos erros, são homens decentes, ocupando uma instituição decente, a quem as crianças têm o dever de respeitar.
A guerra e os preparativos para a mesma deformam a economia. Isto pode surpreender algumas pessoas, uma vez que praticamente toda a gente já ouviu dizer que a guerra pode estimular a economia. É certo que a guerra pode estimular sectores da economia; como observou Ludwig von Mises, estimula, tal como a peste estimula a indústria funerária.
Mas a guerra não pode estimular a economia em geral. Lembre-se, afinal, para que serve a economia: para satisfazer as necessidades dos consumidores. Durante a guerra, as necessidades da população passam para segundo plano em relação às exigências militares. As estatísticas do rendimento nacional podem dar a falsa impressão de prosperidade, mas qualquer pessoa sensata compreende que confiscar dinheiro e gastá-lo, digamos, em mísseis de cruzeiro, não enriquece a população. Isso apenas desvia recursos do uso civil.
Não é preciso haver uma guerra declarada para que o militarismo deforme uma economia. Quando metade ou mais do talento investido em investigação e desenvolvimento é desviado para fins militares, isso significa muito menos recursos dedicados às necessidades civis. Quando o Pentágono se torna o seu principal cliente, perde a vantagem competitiva proporcionada pela disciplina de mercado. Como o custo não é a principal preocupação do Pentágono, a empresa que procura minimizar os custos tende a tornar-se a empresa que maximiza os custos e os subsídios.
A guerra e a propaganda de guerra distorcem a nossa visão sobre os outros povos. A Primeira Guerra Mundial foi talvez o exemplo clássico disso: os alemães eram os Hunos, singularmente propensos a cometer as mais hediondas atrocidades. Esta representação tornou muito mais fácil persuadir os cidadãos dos países Aliados a apoiar, ou pelo menos a aceitar, quatro anos de guerra contra eles. E depois, uma longa campanha de fome contra civis já empobrecidos e doentes para obrigar o governo a assinar um tratado injusto.
Após a guerra, houve uma pequena reacção contra as mentiras e os insultos que tornaram o entendimento internacional praticamente impossível. De facto, o nosso moderno programa de intercâmbio de estudantes surgiu da insatisfação dos intelectuais com a dimensão propagandística da Primeira Guerra Mundial. Olhavam com embaraço para o fervor chauvinista em que se viram envolvidos juntamente com os seus compatriotas e esperavam que uma maior interacção entre os povos pudesse tornar este tipo de diabolização menos eficaz no futuro.
As diversas campanhas de ódio levadas a cabo contra os inimigos dos EUA explicam porque é tão chocante para a maioria dos americanos assistir a vídeos feitos por viajantes e cineastas ocidentais sobre a vida quotidiana no Irão. Graças a anos de demonização sistemática do Irão e dos iranianos, esperam encontrar selvagens sedentos de sangue montados em camelos e a tramar massacres. Em vez disso, encontram cidades modernas a fervilhar de actividade. O mais surpreendente de tudo é que encontram pessoas que gostam de americanos, mesmo que – tal como nós – não tenham grande simpatia pelo governo dos EUA.
Nesta perspectiva, a guerra leva-nos a considerar os outros povos como descartáveis ou simplesmente inferiores a nós. Uma festa de casamento é dizimada num atentado no Afeganistão, e os americanos bocejam. Mas certamente prestaríamos atenção se o governo federal destruísse uma festa de casamento em Providence, Rhode Island. Ficaríamos quase tão chocados se, na busca de um suposto terrorista, o governo dos EUA bombardeasse um prédio de apartamentos em Londres.
Ou: a classe dominante do país B ataca uma instalação militar do país A. O país A bombardeia, então, o país B, matando centenas de milhares de civis. Quando os cidadãos do país A questionam, anos mais tarde, se aquilo foi moralmente aceitável, os seus impacientes compatriotas respondem: “Isto é a guerra”, ignorando assim todas as questões morais importantes. Aqueles que levantaram a questão são inicialmente descartados como ingénuos e, provavelmente, de lealdade duvidosa.
A guerra corrompe a cultura. Como salientou o crítico literário Paul Fussell, “A cultura da guerra mata algo precioso e indispensável numa sociedade civilizada: a liberdade de expressão, a liberdade de curiosidade, a liberdade de conhecimento”. Cita como exemplo o oficial do Pentágono que, ao explicar porque é que os militares censuraram imagens de TV mostrando soldados iraquianos a serem de facto cortados ao meio por fogo americano, observou casualmente que “se deixássemos as pessoas ver este tipo de coisas, nunca mais haveria guerra”.
A guerra distorce a nossa noção do verdadeiro significado de servir o próximo. Apenas aos membros das forças armadas somos encorajados a dizer: “Obrigado pelo vosso serviço”. Em relação aos grandes empreendedores que prolongam as nossas vidas e as tornam mais gratificantes, somos ensinados a sentir inveja e ressentimento. Certamente, não recebem agradecimentos pelo seu serviço.
O estado consegue safar-se da sua agressão, em parte, graças à manipulação da linguagem. Um soldado que morreu na guerra do Iraque foi considerado como estando a “servir o seu país”. O que poderá significar? A guerra foi iniciada sob pretextos absurdos contra um líder que não tinha prejudicado americanos e era incapaz de o fazer. Se a guerra serviu alguma coisa, foi às ambições imperialistas de um pequeno grupo dominante. De modo algum tal missão, que desviou vastos recursos do uso civil, “serviu o país”.
A guerra distorce a própria realidade. As crianças aprendem que o soldado americano lhes comprou a liberdade com os seus sacrifícios. Autocolantes blasfemos comparam o soldado americano a Jesus Cristo. Mas de que forma a liberdade americana foi ameaçada pelo Iraque, pelo Panamá ou pela Somália? Aliás, como poderia qualquer adversário do século XX ter conseguido invadir a América do Norte, dado que nem os alemães conseguiram atravessar o Canal da Mancha?
Mas esta mitologia cuidadosamente cultivada ajuda a manter o esquema a funcionar. Aumenta a reverência supersticiosa que as pessoas têm pelos membros das forças armadas, tanto do passado como do presente. Coloca os críticos da guerra na defensiva. Afinal, como podemos criticar a guerra e a intervenção quando essas mesmas coisas nos mantiveram livres?
Em suma, a guerra é indissociável da propaganda, da mentira, do ódio, do empobrecimento, da degradação cultural e da corrupção moral. É o resultado mais horrível da legitimidade moral e política que as pessoas são ensinadas a conceder ao estado. Envolto em artifícios de patriotismo, lar, canções e bandeiras, o estado ilude as pessoas, levando-as a desprezar um líder e um país de que, até então, mal tinham ouvido falar, muito menos uma opinião fundamentada, e ensina os seus súbditos a aplaudir a mutilação e a morte de outros seres humanos que nunca lhes fizeram mal algum.
Considerando o quão terrível é a guerra, o que podemos fazer para a impedir? Parte da resposta reside na forma como pensamos sobre a guerra, e aqui estão alguns pontos vitais que precisamos de ter em mente.
(1) Os nossos governantes não são uma lei em si mesmos.
Prossigamos com a missão subversiva de aplicar aos nossos governantes as mesmas regras morais contra o roubo, o rapto e o assassinato que aplicamos a todos os outros. Os nossos belicistas acreditam estar isentos das regras morais normais. Por estarem em guerra, sentem-se no direito de suspender toda a decência, todas as normas que regem a conduta e a interação dos seres humanos em todas as outras circunstâncias. O termo inócuo “danos colaterais”, juntamente com palavras superficiais e vazias de pesar, são empregues quando civis inocentes, incluindo crianças, são mutilados e massacrados. Um indivíduo comum que se comportasse desta forma seria chamado de sociopata. Dêem-lhe um título pomposo e um fato elegante, e ele torna-se um estadista.
(2) Humanizar os demonizados.
Devemos incentivar todos os esforços para humanizar as populações dos países que estão na mira dos belicistas. O público em geral é levado a um frenesim bélico sem saber absolutamente nada — ou ouvindo apenas propaganda — sobre as pessoas que vão morrer nesta guerra. Os media tradicionais não contam a sua história, por isso cabe-nos a nós usar todos os recursos que temos enquanto indivíduos, especialmente online, para comunicar a verdade mais subversiva de todas: que as pessoas do outro lado também são seres humanos. Isto tornará um pouco mais difícil para os belicistas levarem avante os seus “Dois Minutos de Ódio” e poderá ter o efeito de persuadir os americanos com sentimentos humanos normais a desconfiarem da propaganda que os rodeia.
(3) Se nos opomos à agressão, oponhamo-nos a toda a agressão.
Se acreditamos na causa da paz, pôr fim à violência agressiva entre nações não chega. Não devemos desejar a paz no estrangeiro para que os nossos governantes possam virar as suas armas contra indivíduos pacíficos nos nossos países. Basta de todas as formas de agressão contra pessoas pacíficas.
O povo e os belicistas são dois grupos distintos. Nunca devemos usar “nós” quando discutimos a política externa do governo dos EUA. Para começar, os belicistas não se importam com a opinião da maioria dos americanos. É ridículo e embaraçoso para os americanos usar “nós” quando discutem a política externa do seu governo, como se a sua opinião fosse necessária ou desejada por aqueles que fazem a guerra. Nunca use “nós” quando fala do governo.
Mas isso também é errado, para não dizer malicioso. Quando as pessoas se identificam tanto com o seu governo, percebem os ataques à política externa do governo como ataques a si próprias. Torna-se então muito mais difícil dialogar com elas – ora, está a insultar a minha política externa!
Da mesma forma, o uso do “nós” alimenta o fervor bélico. “Nós” temos de os apanhar. As pessoas torcem pelos seus governos como torceriam por uma equipa de futebol. E como nos consideramos decentes e bons, “eles” só podem ser monstruosos e maus, e merecedores de toda a justiça que “nós” lhes impusermos.
A esquerda pacifista incorre neste erro com a mesma frequência. Ela apela aos americanos com um catálogo de crimes horríveis que “nós” cometemos. Mas nós não cometemos esses crimes. Os mesmos sociopatas que vitimizam os próprios americanos todos os dias, e sobre os quais não temos qualquer controlo real, cometeram estes crimes.
Ron Paul restaurou a associação correcta do capitalismo com a paz e a não intervenção. Os leninistas e outros esquerdistas, sobrecarregados por uma compreensão errada da economia e do sistema de mercado, costumavam afirmar que o capitalismo precisava da guerra, que a suposta “superprodução” de bens obrigava as sociedades de mercado a procurar mercados externos – e frequentemente a entrar em guerra – para os seus excedentes de produção.
Isso sempre foi um disparate económico. Era um disparate político também: o mercado livre não precisa de nenhuma instituição parasitária para facilitar o comércio internacional, e a mesma filosofia que prega a não agressão entre indivíduos exige a não agressão entre áreas geográficas.
Mises sempre insistiu, ao contrário dos leninistas, que a guerra e o capitalismo não poderiam coexistir durante muito tempo. “É claro que, a longo prazo, a guerra e a preservação da economia de mercado são incompatíveis. O capitalismo é essencialmente um esquema para nações pacíficas… O surgimento da divisão internacional do trabalho exige a abolição total da guerra… A economia de mercado envolve uma cooperação pacífica. Desfaz-se quando os cidadãos se transformam em guerreiros e, em vez de trocarem bens e serviços, lutam uns contra os outros.”
“A economia de mercado”, disse Mises simplesmente, “significa cooperação pacífica e a troca pacífica de bens e serviços. Não pode persistir quando a matança em massa está na ordem do dia”.
Aqueles que acreditam na economia de mercado livre e sem restrições devem ser especialmente cépticos em relação à guerra e à acção militar. Afinal, a guerra é o programa governamental por excelência. A guerra tem tudo: propaganda, censura, espionagem, contratos privilegiados, impressão de dinheiro, gastos exorbitantes, criação de dívida, planeamento centralizado, arrogância – tudo o que associamos às piores intervenções na economia.
“A guerra”, observou Mises, “é prejudicial não só para os conquistados, mas também para os conquistadores. A sociedade surgiu das obras da paz; a essência da sociedade é a pacificação. A paz, e não a guerra, é a mãe de todas as coisas. Só a acção económica criou a riqueza à nossa volta; o trabalho, e não a profissão das armas, traz felicidade. A paz constrói; a guerra destrói.”
Veja para além da propaganda. Deixe de fortalecer e enriquecer o estado aplaudindo as suas guerras. Deixe de lado os discursos televisivos. Veja o mundo com outros olhos, sem os preconceitos do passado e sem favorecer a versão dos factos do seu próprio governo.
Seja decente. Seja humano. Não se deixe enganar por Joe Bidens, John McCains, John Boltons, Hillary Clintons e toda a corja de neoconservadores. Rejeite o maior programa governamental de todos.
A paz constrói. A guerra destrói.
Voltemos por momentos a Murray. Quando se opôs à Guerra do Vietname, alienou não só a National Review, a principal revista de direita e a voz conservadora mais importante do país, mas praticamente toda a gente à direita. Teve de escrever para um pequeno número de assinantes de boletins informativos. No final da década de 1960, disse a Walter Block que provavelmente só existiam 25 libertários em todo o mundo.
As coisas são muito mais fáceis para nós hoje, graças em grande parte ao empenho de Murray e ao extraordinário exemplo de Ron Paul. Existem hoje milhões de pessoas que são resolutamente contra a guerra e que não se importam a que partido político pertence o presidente que inicia uma determinada guerra.
Além disso, é encorajador saber que os mais jovens estão muito menos convencidos da necessidade de uma política externa intervencionista. Quanto mais jovem é o público, menos as exortações desprovidas de factos dos belicistas encontram ouvidos receptivos.
Na minha opinião, este é o maior legado de Murray Rothbard. Cabe a todos nós ajudar a levá-lo avante.
Publicado originalmente no Mises Institute.
