Em 1977, Murray Rothbard escreveu um artigo em resposta a um número da Reason Magazine em que o tema principal do mês era um debate entre intervencionismo e não-intervencionismo.
A maior parte do artigo, com cerca de 3.000 palavras, é dedicada a desmontar dois textos de alegados libertários que defendem uma política externa intervencionista. Mas, antes de entrar nisso, Rothbard dedica algum tempo a atacar a própria ideia de que isto deva sequer ser objecto de debate em círculos libertários:
À primeira vista, este objectivo parece legítimo, até nobre, adequadamente democrático e em espírito de livre investigação. Mas, pensando melhor, o que se passa aqui? Porque não há debates na Reason apresentando ambos os lados da questão sobre a abolição da OSHA,1 dos controlos de preços, do serviço militar obrigatório, e assim por diante? Porque não há um artigo a elogiar o Comunismo? Afinal, a Reason não supostamente não é uma revista de debate, mas um periódico dedicado à liberdade, isto é, comprometido com uma certa visão do mundo. Publicaria um debate sobre os méritos e deméritos do assassínio em massa? Mas então, claro, acabou de fazer exactamente isso, com mais espaço e paixão dedicados ao lado pró-assassínio em massa.
Para Rothbard, a própria noção de um caso libertário a favor do intervencionismo fanático que orientava a política externa americana no auge da Guerra Fria era completamente absurda.
E, no entanto, quarenta e nove anos depois, continua a haver uma quantidade preocupante de autodenominados libertários — tanto nos EUA como no estrangeiro — que aderem plenamente ao pretexto actual para o belicismo contínuo de Washington.
A figura mais proeminente a defender esta posição neste momento é o presidente da Argentina, Javier Milei. Mas não está sozinho. Vários comentadores manifestam repetidamente apoio ao libertarianismo quando discutem políticas internas ou defendem directamente as políticas económicas de libertários notáveis como Rothbard ou Ron Paul, ao mesmo tempo que promovem uma política externa intervencionista.
Esta combinação de posições é tão incoerente hoje como o era quando Rothbard escreveu o artigo acima. Uma política externa que procura manter um império global através de uma série interminável de guerras, “ajuda” externa e intervenções encobertas é totalmente incompatível com o sistema libertário de laissez-faire e mercado livre no plano interno que estas pessoas afirmam apoiar.
Na verdade, não só é incompatível como é pura e simplesmente impossível se nos concentrarmos nas exigências económicas do actual estado belicista em Washington.
As guerras são extremamente dispendiosas. Ainda mais dispendioso é travar várias guerras ao mesmo tempo, armar aliados por procuração [proxy] noutra, manter constantemente centenas de milhares de tropas em centenas de bases estrangeiras, abastecer e manter todas essas bases, assegurar os oceanos do mundo com uma marinha massiva, recolher informação sobre praticamente todos os países da Terra, e tudo o resto que o nosso aparelho militar e de “segurança nacional” faz. É um enorme dreno de recursos sobre os Estados Unidos.
A única forma de o governo federal conseguir levar a cabo tudo isso, ano após ano, deve-se ao montante considerável de impostos sobre o rendimento pagos pelos americanos e, ainda mais importante, à capacidade da Reserva Federal de financiar programas governamentais através da inflação — ocultando o verdadeiro custo e tornando-o mais aceitável politicamente. E esses são dois componentes do sistema interno actual a que os libertários, em geral, se opõem.
Mas imagine-se tentar financiar o actual estado belicista sem o imposto sobre o rendimento ou sem a Reserva Federal.
A única forma de isso ser possível seria recorrer a outros mecanismos de financiamento. O governo teria de aumentar tarifas, impostos sobre as empresas e impostos especiais de consumo para níveis nunca antes vistos. E teria de convencer credores honestos a comprar títulos de guerra — agravando a dívida nacional e tornando muito mais difícil lançar guerras impopulares como a mais recente de Trump com o Irão.
Para além disso, provavelmente seria necessário algum imposto de emergência, ou a confiscação directa de recursos e de soldados. Mas tudo isso está claramente muito longe daquilo que os libertários têm em mente quando imaginam o seu sistema fiscal ideal. Seria brutal, desastroso do ponto de vista fiscal, caricaturalmente autoritário e tão visível que quase de certeza seria politicamente impossível.
Mas mesmo que ultrapassemos isso e admitamos que existe alguma forma de um sistema libertário de laissez-faire, com impostos baixos ou inexistentes, financiar um vasto estado belicista, continua a ser forçado supor que um sistema libertário poderia ser preservado no plano interno enquanto se prossegue um império global no exterior.
Randolph Bourne escreveu um ensaio em 1918 em que incluiu a frase, hoje célebre em círculos libertários, de que “a guerra é a saúde do estado”. Com isto, Bourne quer dizer que as condições internas que as guerras geram são ideais para estados que procuram obter poder universal e sem restrições sobre todos os aspectos da sociedade.
Tudo, desde silenciar ou prender dissidentes, imprimir quantidades excessivas de dinheiro, ignorar limites legais ou constitucionais ao poder do estado e exigir obediência total da população, se torna muito mais viável em tempo de guerra. Não é coincidência que algumas das maiores violações de direitos cometidas pelo governo dos EUA contra cidadãos americanos tenham ocorrido durante guerras.
Além disso, como Christopher Coyne e Abigail Hall detalharam no seu livro Tyranny Comes Home, muitas das tácticas e tecnologias coercivas desenvolvidas pelo governo dos EUA para uso no estrangeiro foram mais tarde trazidas de volta e utilizadas contra os próprios americanos.
Isto faz sentido. Para manter um império global e conter rivais estrangeiros, o governo americano investiu uma quantidade tremenda de tempo, dinheiro e capacidade intelectual no desenvolvimento das ferramentas e técnicas mais eficazes de coerção bruta, violência agressiva, vigilância intrusiva, manipulação mediática e controlo social. A ideia de que o governo trabalharia continuamente no desenvolvimento e utilização desse conhecimento no estrangeiro e depois não o utilizaria quando isso servisse os seus interesses no plano interno, por causa de alguma restrição inscrita na Constituição, é incrivelmente ingénua.
Por fim, o projecto imperial de Washington está fundamentalmente em conflito com a ética libertária. O governo americano cometeu inúmeros crimes, tanto no país como no estrangeiro, ao longo de muitas décadas de intervencionismo externo — algo que alguns autodenominados libertários têm vindo a desvalorizar como um mal necessário de curto prazo para derrotar o vilão de política externa do momento há pelo menos 74 anos, e provavelmente continuarão a fazê-lo nos próximos anos.
E, para além das acções antiéticas do governo dos EUA, é também profundamente não-libertário que autodenominados libertários fora dos Estados Unidos exijam que o governo americano forneça segurança ao seu país, derrube algum líder político interno ou vizinho de que não gostam, ou conduza guerras de que, em geral, são favoráveis, com riqueza extraída coercivamente dos contribuintes americanos.
No conjunto, Rothbard tinha razão há 49 anos quando disse que os libertários nunca devem mostrar abertura ao estado belicista. Porque os encargos económicos, sociais e morais impostos a todos nós pela obsessão de Washington em manter um império global estão a destruir as próprias normas e instituições em que os libertários acreditam.
Não podemos ter uma sociedade livre no plano interno e um estado belicista hiperactivo no exterior, tal como o estado belicista não pode existir num mercado verdadeiramente livre com uma norma genuína de propriedade privada. Aqueles que tentam separar as políticas económicas ou internas de Rothbard ou Ron Paul da sua política externa não-intervencionista estão errados. As duas coisas têm de andar juntas.
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
- OSHA (Occupational Safety and Health Administration) – Em Portugal o equivalente é a ACT – Autoridade para as Condições do Trabalho [N. do T.] ↩︎
