No capítulo sete, aprendemos que as máquinas permitem-nos aumentar a produtividade, o que levará a mais recursos e menos escassez; mais riqueza e menos pobreza.
Existe a ideia recorrente ao longo da história que as máquinas criam mais desemprego do que emprego e, por isso, tornam a população mais pobre.
Vamos imaginar o seguinte exemplo: a Janela Rápido compra uma nova máquina – um carrinho de mão – para carregar areia. Isto faz com que metade das pessoas que até agora carregavam sacos de areia sejam despedidas.
O vosso cunhado desaprova, dizendo:
– Agora há menos emprego, menos salários e, portanto, mais pobreza.
Ao ouvir tal coisa, a vossa avózinha diz:
– Uma nova máquina eliminará o trabalho de alguém substituir essa pessoa no exacto trabalho que ela realizava, criando desemprego. No entanto, numa primeira fase, a construção e a manutenção do carrinho de mãos empregará novas pessoas.
– Mas isso ainda não significa que temos o mesmo número de empregos que antes. – intercede o cunhado.
– Pois não, meu filho. – responde a avózinha – Numa segunda fase, temos de assumir que a máquina só será comprada pela Janela Rápido se for mais eficiente, o que significa que haverá maior produtividade e mais sacos de areia a serem carregados por hora. A partir de um certo momento, esta máquina vai passar o «ponto de equilíbrio», começando gerar lucros.
– Com estes lucros os donos podem: reinvestir na sua empresa, expandindo as suas operações e criando mais emprego e produção, ou investir noutras empresas, que agora podem expandir as suas operações, levando ao mesmo aumento de emprego e produção, ou usar o dinheiro que ganharam para consumo próprio de outros produtos, aumentando o investimento noutras áreas.
– Mesmo se só considerássemos estes efeitos, muito provavelmente compensariam os empregos que foram perdidos na fábrica de vidro. No entanto, ainda temos mais consequências positivas!
– Se a Janela Rápido passar a produzir as janelas a um custo mais baixo que os concorrentes (porque agora é mais eficiente), das duas uma: expande as suas operações, reinvestindo o “novo lucro”; ou as suas concorrentes adoptam o mesmo método de produção (comprando as mesmas máquinas), o que irá levar a uma queda dos custos de produção de todo o sector. Além disto, outras empresas fora deste sector irão perceber a oportunidade de lucro que este sector agora representa e poderão entrar nele, passando a produzir janelas.
– Tudo isto leva a um aumento da concorrência: os menores custos de produção, associados ao aumento da margem de lucro, são chamativos, trazendo novos produtores para o sector.
– A concorrência fará com que, indirectamente, aquilo que foi poupado com a substituição dos trabalhadores se reflicta no preço final, pago pelos consumidores.
O cunhado exclama indignado:
– Isso nunca acontece! Quando os donos têm mais lucros, nunca baixam os preços.
A avózinha continua:
– Se só ganhassem lucros sem nada mudar, terias razão, mas o mercado a funcionar livremente não funciona assim. Pensa nas televisões, por exemplo. Até há relativamente pouco tempo, um plasma era um luxo ao qual muito poucos tinham acesso e hoje está presente na maioria das casas. Isto não é devido à bondade inerente dos produtores de televisões, mas sim ao processo constante de inovação e concorrência que caracteriza o mercado livre.
– Continuando o raciocínio, se a procura pelas janelas for elástica, ou seja, se a quantidade vendida aumenta com a descida do preço, até poderão haver mais pessoas empregadas no sector de vidro do que havia antes (sendo exemplo paradigmático disto o que aconteceu em indústrias como a de tecidos na revolução industrial). Por outro lado, se a procura for pouco elástica, ou seja, se a quantidade vendida não aumentar com uma descida do preço, os consumidores vão ter mais dinheiro para gastar noutras coisas, aumentando o emprego noutros sectores.
O cunhado diz:
– Mas não percebo esta obsessão com a produtividade, temos é de aumentar o emprego! De que vale produzirmos mais se há a possibilidade de haver mais pessoas desempregadas?
A avózinha diz:
– A base da confusão com as máquinas provém do facto das pessoas confundirem meios com fins. O objectivo das máquinas não é aumentar o emprego, é de aumentar a produção, o que aumenta a riqueza.
– É muito fácil diminuir o desemprego. Se parássemos de usar carrinhos de mãos, teríamos de carregar os sacos de areia com as mãos, o que empregaria mais pessoas. No entanto, cada uma delas produziria menos do que podia, e receberia menos do que poderia. Está menos rica. No passado, quase ninguém se podia dar ao luxo de estar desempregado porque, se parasse de trabalhar, morria à fome ou ao frio. Olha eu, costumava trabalhar 14 horas como costureira a coser à mão antes de existirem máquinas de costura acessíveis. Quão mais ricos somos, mais desemprego voluntário podemos ter porque temos mais riqueza para a podermos usar em lazer, podendo trabalhar menos horas. E isso é bom!
– Se as máquinas realmente diminuíssem a produção e a riqueza, então a conclusão lógica seria pararmos de usar qualquer máquina. Mas isso seria tão absurdo que nunca é defendido.
Então o cunhado diz baixinho:
– Mas as máquinas do passado já tiveram o seu efeito na economia e já nos adaptámos, as novas é que metem medo pelo que podem vir a fazer.
– Exactamente – concorda a avózinha – só se tenta proibir novas tecnologias, para beneficiar o grupo pequeno dos trabalhadores dessa indústria, à custa de toda a sociedade. Aliás, só estão vivas quase 8 mil milhões de pessoas, incluindo tu, por causa das máquinas: se não aumentassem o número de empregos totais e de produtividade como é que teríamos conseguido alimentar e empregar cada vez mais pessoas ao longo da história?
Em conclusão, máquinas não só não geram desemprego a longo prazo, mas também podem diminuir o preço dos produtos, o que nos torna todos mais ricos. Claro que não nos podemos esquecer das pessoas que perdem os seus empregos a curto prazo, mas não podemos olhar só para elas. Especialmente, quando esta perda de emprego significa que estas pessoas podem passar a trabalhar em áreas em que são realmente precisas para satisfazer necessidades, onde são mais produtivas e podem ter um poder de compra maior do que antes.
Nota: O livro Economia Numa Lição de Henry Hazlitt está disponível gratuitamente na nossa biblioteca.
