Para a maioria dos analistas, se os dados do produto interno bruto (PIB) mostram um aumento, isso é encarado como uma boa notícia económica. Inversamente, se os dados do PIB revelam fraqueza, isso é considerado um possível agravamento das condições económicas. A maioria dos analistas é guiada pelos dados. Para eles, a realidade é aquilo que vêem.
Pensadores como Ludwig von Mises questionaram esta forma de avaliar o estado da economia. Para Mises, os dados constituem um registo histórico e, por si sós, não podem proporcionar ao analista uma compreensão genuína da natureza dos fenómenos económicos. Ele escreveu,
A experiência da história económica é sempre a experiência de fenómenos complexos. Nunca pode transmitir o tipo de conhecimento que o experimentador abstrai de uma experiência laboratorial.
Segundo Mises, o economista tem de dispor previamente de uma teoria para poder dar sentido aos dados.
O Papel de uma Teoria
Ao contrário do que muito frequentemente se pensa, a economia não trata do PIB, do IPC ou de qualquer outro indicador económico, mas sim da acção humana, das escolhas e da cooperação social. Por exemplo, pode observar-se que as pessoas se dedicam a uma variedade de actividades. Realizam trabalho manual, conduzem automóveis, caminham pelas ruas e jantam em restaurantes. A característica distintiva destas actividades é o facto de serem propositadas ou orientadas para objectivos. Os indivíduos actuam dentro de um quadro de fins e meios; utilizam meios na tentativa de alcançar fins.
A acção propositada implica que os indivíduos avaliem os meios ao seu dispor em função dos fins. Em qualquer momento, os indivíduos possuem uma abundância de fins que gostariam de alcançar. O que limita a consecução desses fins é a escassez de meios. Assim, quando passam a estar disponíveis mais meios, um maior número de fins, ou objectivos, pode ser alcançado.
Acção Humana, Dados e Teoria
Durante uma recessão económica, pode observar-se uma diminuição generalizada da procura de bens e serviços. Devemos então concluir que a diminuição da procura é a causa da recessão?
Sabemos que a maioria dos indivíduos emprega constantemente meios escassos para alcançar fins valorizados subjectivamente. Devido à escassez e às escolhas subjectivas, é bastante provável que a diminuição observada na procura geral resulte da incapacidade das pessoas para sustentar essa procura. Problemas do lado da produção (isto é, dos meios) são as causas mais prováveis de uma diminuição generalizada da procura.
O conhecimento de que os indivíduos actuam para alcançar fins permite-nos avaliar criticamente a ideia popular segundo a qual o «motor» da economia é o consumo — isto é, a procura cria a oferta. Sabemos, porém, que sem meios não é possível alcançar quaisquer objectivos. A maioria dos meios não surge do nada; os meios têm primeiro de ser produzidos. Assim, ao contrário do que sustenta a visão popular, a força motriz é a oferta e não a procura.
O conhecimento de que as pessoas prosseguem acções propositadas não é provisório; é sempre válido. Qualquer pessoa que tente sugerir o contrário está a incorrer numa contradição, pois aqueles que argumentam contra a acção humana estão, precisamente, a envolver-se numa acção humana propositada.
Um analista que observe dados sem uma teoria não consegue fornecer razões para as alterações observadas nos dados. Tudo o que pode fazer é descrever essas alterações. Ironicamente, qualquer interpretação dos dados pressupõe necessariamente uma teoria.
As análises quantitativas também não conseguem estabelecer o significado de um fenómeno económico específico. Tudo o que as análises quantitativas dos dados podem fazer é relatar informação. Não conseguem explicar por que razão as pessoas fazem aquilo que fazem. Sem a premissa de que as acções humanas são propositadas, não é possível dar sentido aos dados históricos.
A Importância de Definir o Objecto da Investigação
Na análise dos dados históricos, o essencial é estabelecer a definição do objecto da investigação. O propósito da definição é identificar os factores fundamentais que determinam esse objecto. Para formular uma definição, é útil regressar ao princípio. Por exemplo, para estabelecer a definição de dinheiro, devemos recuar ao momento em que um determinado bem começou a desempenhar a função de dinheiro.
Historicamente, muitos bens diferentes foram utilizados como meio de troca. Mises observou que, ao longo do tempo,
…existiria uma tendência inevitável para que os bens menos comercializáveis da série de bens utilizados como meios de troca fossem sendo rejeitados um a um, até que, por fim, apenas permanecesse uma única mercadoria, universalmente empregue como meio de troca; numa palavra, dinheiro.
Ao identificar a mercadoria que foi seleccionada como dinheiro, estabelecemos que essa mercadoria desempenha a função de meio geral de troca. Isto significa que os indivíduos pagam um bem com outro bem através da intermediação do dinheiro.
Podemos também estabelecer que os aumentos da quantidade de dinheiro (isto é, a inflação), mantendo-se tudo o resto constante, geram uma diminuição do poder de compra da moeda. Isto porque os aumentos inflacionistas da oferta monetária resultam numa maior quantidade de dinheiro por unidade de bem do que anteriormente, mantendo-se tudo o resto constante.
Para chegar a esta conclusão, temos de definir preços. Um preço é um acordo voluntário para trocar determinadas quantidades de bens; numa economia monetária, um preço é geralmente a quantidade de unidades monetárias trocadas por uma unidade de determinado bem. Assim, ao observar-se um aumento da oferta monetária, pode inferir-se que, mantendo-se tudo o resto constante, mais dinheiro será gasto por bem e os preços aumentarão. Isto implica necessariamente uma diminuição do poder de compra da moeda.
A definição do dinheiro como meio geral de troca permite-nos estabelecer que, quando a quantidade de dinheiro aumenta, esse dinheiro não se espalha instantaneamente por todos os mercados; começa por alguns indivíduos. O dinheiro desloca-se de indivíduo para indivíduo e de mercado para mercado. Podemos igualmente inferir que as alterações da oferta monetária exercem efeitos sobre os preços dos bens com algum desfasamento temporal.
No mundo moderno do padrão de papel-moeda, podemos estabelecer que um aumento da oferta monetária resulta numa troca de nada por alguma coisa. Isto conduz a uma transferência de riqueza dos geradores de riqueza para actividades não geradoras de riqueza.
Sem um enquadramento teórico, dados isolados não nos podem dizer qual é o estado da economia. Os dados não nos podem dizer se um PIB robusto resulta de uma expansão da riqueza ou da erosão do próprio processo de geração de riqueza.
Muitos economistas mainstream afirmam que, através de diversos métodos matemáticos e estatísticos, é possível estabelecer relações de causa e efeito no mundo da economia. Por outras palavras, desenvolver uma teoria empírica a partir dos dados. Mas o facto de os indivíduos prosseguirem acções propositadas implica que as causas no mundo económico emanam dos próprios seres humanos. Isto significa que os métodos quantitativos não são úteis neste domínio. Não é possível quantificar a mente humana.
Conclusão
Examinar os dados económicos na tentativa de formar uma opinião sobre o estado da economia sem recorrer a uma teoria é um exercício inútil. Os dados económicos, por si sós, não podem fornecer os fundamentos de uma teoria económica sólida. Pelo contrário, é preciso partir de uma teoria válida para dar sentido aos dados.
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
