O maior truque económico dos últimos cem anos foi convencer-nos de que é normal a vida ficar mais cara todos os anos.
Mas pensemos nisto com calma.
Vivemos numa era em que produzimos mais, melhor, mais depressa e com menos esforço do que alguma vez se produziu na história. A tecnologia reduziu custos. A automação aumentou produtividade. A logística tornou o mundo mais eficiente. A inteligência artificial começa a fazer em minutos trabalho que antes demorava dias ou semanas.
Então a pergunta é simples: se a humanidade está cada vez mais produtiva, porque é que viver está cada vez mais caro?
A resposta que nos vendem é sempre a mesma: guerra, pandemia, energia, mercados, conjuntura, ganância, alterações climáticas, capitalismo, Mercúrio retrógrado e, se for preciso, o facto de termos bebido café depois das quatro da tarde.
Mas raramente se fala do óbvio: a moeda perdeu valor porque foi desenhada para perder valor.
Num mercado verdadeiramente livre, o progresso deveria ser deflacionário. Ou seja, os bens e serviços deveriam tender a ficar mais baratos à medida que se tornam mais fáceis de produzir. Se produzimos mais trigo por hectare, o pão deveria pesar menos no orçamento. Se fabricamos melhor e mais barato, os produtos deveriam ficar mais acessíveis. Se a tecnologia aumenta a produtividade, o cidadão deveria ganhar poder de compra.
A deflação boa não é uma catástrofe. É o dividendo natural da civilização.
É o sinal de que estamos a vencer a escassez.
Mas em vez disso temos inflação permanente, apresentada como se fosse uma lei da natureza. Dizem-nos até que 2% de inflação ao ano é “estabilidade”. Curioso conceito de estabilidade: o teu dinheiro valer menos todos os anos, mas de forma previsível. É como dizer que um casamento é estável porque a tua mulher te trai sempre à terça-feira às 17h30.
A inflação não é progresso. É confisco.
É um imposto silencioso sobre salários, poupanças e tempo de vida. Não precisa de votação parlamentar. Não aparece no recibo de vencimento. Não vem com carta das Finanças. Simplesmente acontece. Um dia acordas e trabalhas mais para comprar menos.
E depois aparece um senhor muito sério na televisão a explicar que a culpa é tua, porque “consumiste demais” ou porque “não tens literacia financeira”.
Extraordinário. Primeiro destroem a moeda. Depois vendem-te workshops para sobreviveres à destruição da moeda.
A verdade é simples: a tecnologia baixa preços. A produtividade baixa preços. A concorrência baixa preços. A inovação baixa preços.
O que sobe os preços, de forma persistente, é a expansão monetária, o crédito artificialmente barato, a dívida pública, a regulação que restringe a oferta e um Estado que se alimenta da perda silenciosa do poder de compra dos cidadãos.
Por isso é que vemos preços a cair, ou pelo menos qualidade a subir brutalmente, em sectores mais livres como a tecnologia. E vemos preços a explodir em sectores capturados pelo Estado, pela burocracia, pelo crédito subsidiado e pela regulação, como habitação, saúde, educação e energia.
Não é coincidência. É arquitectura.
Devíamos estar a viver tempos de deflação, não de inflação. Porque devíamos estar a colher os frutos da produtividade acumulada por gerações. O salário deveria comprar mais com o passar do tempo. A poupança deveria ser recompensada. A vida deveria ficar progressivamente mais acessível.
Mas isso exigiria uma coisa intolerável para o sistema: dinheiro honesto.
Uma moeda que não fosse manipulada por bancos centrais, governos endividados e tecnocratas que acham que a sociedade é um ficheiro Excel com pessoas lá dentro.
A inflação é apresentada como normal porque beneficia quem está mais perto da criação de dinheiro: Estado, bancos, grandes grupos financeiros e grandes devedores. Quem recebe primeiro compra a preços antigos. Quem recebe por último, normalmente o trabalhador e o pequeno aforrador, compra a preços novos.
É o imposto dos últimos da fila.
E é por isso que esta discussão não é apenas económica. É moral.
Quando o dinheiro perde valor, não são apenas números que mudam. São horas de trabalho, anos de poupança, sacrifícios familiares e planos de vida que são silenciosamente desvalorizados.
A inflação é o Estado a dizer: o teu ontem vale menos porque o meu amanhã custa demasiado.
E talvez a pergunta mais importante não seja porque é que há inflação.
A pergunta é porque é que ainda aceitamos que nos digam que isto é normal.
Porque não é.
Normal seria o progresso tornar a vida mais barata.
Normal seria a produtividade devolver poder de compra às famílias.
Normal seria poupar ser uma virtude, não uma sentença.
Normal seria o dinheiro medir valor, não ser usado para o roubar.
O futuro devia estar a ficar mais barato.
Só está mais caro porque alguém decidiu que a moeda podia mentir.
