Nas entrelinhas, Lewis diz-nos que fazer o bem ou ser bom é uma possibilidade humana, que é algo de natureza moral, e que se torna tal pela escolha.
Um dos traços mais afáveis que muitas pessoas possuem é a inclinação ou o desejo de partilhar algo de bom com os outros. Se a sorte lhes sorri, apressam-se a partilhá-la com os amigos. Se descobrem uma boa receita, um autor interessante, uma nova planta, ou o que quer que seja, mal conseguem esperar para partilhar a informação a alguém. Conheci uma boa senhora tão dada a partilhar com os outros aquilo que cozinhava que o marido a acusava de abordar transeuntes na estrada para os alimentar.
Há, todavia, perigos a evitar, mesmo numa partilha bem-intencionada. Nem todos se encontram, em todos os momentos, no comprimento de onda espiritual adequado para apreciar as boas novas alheias. Nem todos os paladares estão preparados para experimentar algum sabor exótico que lhes possa ser imposto pelos que partilham. Ter de ver e apreciar as fotografias das férias de outrem é, notoriamente, pouco popular entre muitos. Os que sabem partilhar escolhem com cuidado aqueles com quem partilham.
Há, porém, quem não se contente com meramente partilhar aquilo que concebe como sendo bom com destinatários dispostos. Com efeito, há quem vá além da partilha com destinatários relutantes. Se decidem que algo é bom — ou seria bom para nós — determinam que devemos tê-lo ou fazê-lo, quer o desejemos quer não. Em suma, impõem-no. Mas vão ainda mais longe; não se limitam a forçar os outros a partilhar aquilo que é deles. Utilizam o poder da tributação para retirar de todos nós aquilo que estão decididos a impor, pelo menos, a alguns de nós. Em suma, compeliriam todos nós a ser bons, a fazer o bem — aquilo que é “bom” segundo o seu critério, naturalmente — ou a fornecer bens àqueles que julgam dispor de provisão insuficiente.
Práticas Antigas
A nossa não é a única época em que aqueles inclinados a tais compulsões lograram prevalecer. Povos de outras eras divergiram de nós quanto aos bens que deveriam ser impostos ou distribuídos, mas foram igualmente movidos pelo impulso de os proporcionar a todos. Em algumas terras, membros do clero foram pagos com dinheiros públicos para assegurar que a população tivesse os benefícios da sua mensagem. Os puritanos americanos consideravam que ouvir sermões era um bem tão grande que a frequência deveria ser obrigatória. No final da Idade Média, houve países em que a ortodoxia religiosa era tida por tão importante que a recusa em professar as crenças aprovadas podia conduzir à tortura e à morte. Com frequência, ao longo da história, as pessoas foram compelidas pelos detentores do poder a fazer aquilo que se supunha ser bom para os seus corpos, as suas mentes, as suas almas, os seus governantes, os seus países, ou o que quer que fosse.
Mas coube à nossa época sistematizar, regularizar e generalizar as compulsões para fazer o “bem.” A Autoridade Tributária transformou o inquérito numa prática anual para todos, com computadores destinados a detectar os candidatos mais prováveis a uma completa inquisição. Nem sequer os puritanos aumentavam os benefícios dos seus sermões com base num índice de custo do pecado.
Como digo, sistematizámos tanto a tributação como os modos de atribuição de bens. O “fazer o bem” compulsório é o maior e mais dispendioso empreendimento nos Estados Unidos. As pessoas são compelidas a pagar impostos, grande parte dos quais é afectada à realização de “boas obras.” Essas “boas obras” abrangem desde a oferta de refeições gratuitas a certas crianças em idade escolar até à concessão de ajuda externa a países inteiros. A compulsão é também utilizada de forma mais directa para fazer com que as pessoas pratiquem o “bem,” como quando os pais são obrigados a enviar os filhos à escola ou os empregadores são compelidos a adoptar medidas de segurança impostas pela OSHA.1 Mas é enquanto contribuintes que somos mais universalmente chamados a participar neste “fazer o bem.”
A Legitimidade da Força
Muito se disse — e pode ainda dizer-se — a favor e contra muitos desses programas em si mesmos. Que algum bem tenha sido feito ou possa ser feito por esses meios pode ser posto em causa. Mas desejo examinar aqui questões mais fundamentais. Quero concentrar-me na questão do uso da força em si mesma e na sua legitimidade para os cristãos. Concedo que este assunto possa interessar primordialmente apenas aos cristãos, mas, como espero demonstrar, diz respeito também a outros.
Aparentemente, muitos presumem que, porque o ensino cristão ordena que se preste auxílio aos necessitados, é, portanto, conforme ao cristianismo recorrer à força governamental para realizar boas obras. Os adeptos do “evangelho social,” por exemplo, promoveram tal noção com considerável fervor.2 Houve socialistas cristãos que favoreceram a redistribuição da riqueza pelo governo como estando em consonância com princípios cristãos. Chegou mesmo a sustentar-se, ainda que não muito activamente nos últimos tempos, que o marxismo ou o comunismo não são mais nem menos do que a aplicação prática dos ensinamentos de Jesus. Em todo o caso, muitos cristãos professos não mostram relutância em utilizar o governo de inúmeras maneiras supostamente destinadas a fazer o bem, e um número considerável de não-cristãos inclina-se a aceitar que tal atitude está em consonância com o cristianismo.
Não há dúvida de que os cristãos são exortados a praticar actos de auxílio, bondade e obras de caridade para com os desamparados e necessitados. Em parte alguma isso é mais enfatizado do que na descrição, por Jesus, do Juízo Final. Aí, a distinção entre os justos e os condenados estabelece-se precisamente entre aqueles que deram de comer aos famintos, de beber aos sedentos, acolheram os estrangeiros, vestiram os nus e visitaram os doentes ou presos e aqueles que o não fizeram. Pois, disse Ele: “Em verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequenos, a Mim o fizestes. Em seguida dirá aos que estiverem à esquerda: Apartai-vos de Mim, malditos.” (Mateus 25:45-46.)
Mas daí não se segue que os cristãos devam recorrer à força para realizar tais boas obras ou aprovar o uso da força governamental para tal fim. A Bíblia não é, evidentemente, um manual de ciência política ou de economia política. Não surpreende, pois, que o assunto não surja directamente no Novo Testamento. Mas, mesmo que houvesse muito mais comentário político do que efectivamente há, a questão de o governo compelir as pessoas a fazer o bem poderia não ter surgido. Os governos daquele tempo não eram particularmente dados à prática de boas obras.
Dádiva Voluntária
Ainda assim, é possível inferir das Escrituras uma posição cristã. O impulso do ensino do Novo Testamento orienta-se no sentido da prática voluntária, amorosa e solícita do bem, não no de actos forçados. Há um vasto conjunto de indícios que apontam para a conclusão de que a dádiva voluntária é aquilo que é recomendado, mas há também alguma evidência de que o governo e a força não fazem parte directa do empreendimento cristão. Por exemplo, numa tentativa de apanhar Jesus em falta, os principais sacerdotes e escribas enviaram emissários que lhe perguntaram se era lícito pagar tributo. Jesus pediu uma moeda e perguntou-lhes de quem era a efígie nela gravada. Responderam que era de César. “E disse-lhes: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Lucas 20:25) Uma das inferências que daqui se pode retirar é que Deus e César (o governo) actuam em esferas distintas e, sem dúvida, por meios distintos.
Quanto ao uso da força, Jesus pronunciou palavras bastante incisivas. Quando estava a ser preso para ser levado a julgamento, um dos discípulos, Pedro, segundo uma versão, desembainhou a espada e cortou a orelha a um homem que lançara mão de Jesus. “Então Jesus disse-lhe: Mete a tua espada no seu lugar; porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão.” (Mateus 26:52) Repetidas vezes, Jesus afirmou que viera trazer vida. A espada (a força) é instrumento de morte; por conseguinte, é proscrita no âmbito da acção cristã.
O Evangelho e o Governo, segundo São Paulo
O apóstolo Paulo tratou do governo com algum detalhe no capítulo 13 da Epístola aos Romanos. Em essência, o que afirmou foi o seguinte: as autoridades existentes são ordenadas por Deus para punir os malfeitores. É para o vosso bem que os malfeitores sejam punidos; portanto, deveis obedecer às autoridades que vos governam e pagar-lhes o tributo que lhes é devido pelo ofício que exercem. Contudo, na conclusão do capítulo imediatamente anterior, exortara a evitar do uso da força:
Não torneis a ninguém mal por mal . . . .
Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens.
Amados, não vos vingueis a vós mesmos . . . .
Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem.
Romanos 12:17-21.
Pelo menos para mim, é claro que não há fundamento nos ensinamentos de Jesus e dos seus discípulos para compelir as pessoas a fazer boas obras ou a serem boas. Recomenda-se a ajuda voluntária; evita-se a força. Mas o falecido C. S. Lewis teve algumas reflexões elucidativas sobre estas matérias, e gostaria agora de chamar a atenção para algumas delas. Faço-o com gosto adicional pois isso me proporciona a oportunidade de falar de um dos meus autores predilectos. Para além disso, acrescenta o peso de um dos principais apologistas cristãos do século XX ao argumento contra a coacção.
Como observei, porém, mesmo a inocente oferta de partilha nem sempre é bem recebida, e tive ocasião de aprender que Clive Staples Lewis (1898-1963) não agrada a todos os leitores. Uma senhora a quem emprestei um dos seus livros assegurou-me que ele era demasiado difícil. Um ministro expressou a opinião de que a sua obra era fastidiosa ou, pelo menos, que se alongava em demasia sobre assuntos que poderiam ser tratados mais brevemente. Outro considerou-o algo excessivamente ousado na escolha dos temas. Assim, embora o meu entusiasmo pela sua obra não tenha diminuído por qualquer crítica adversa que tenha encontrado, a minha determinação de o partilhar com outros é temperada pela consciência de que nem todos se deixarão cativar pelo seu engenho, pela sua sabedoria, pelo seu raciocínio tenaz e pela sua franqueza como eu fui. Não lhe faltaram leitores, evidentemente. Por exemplo, o seu pequeno livro Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples] foi publicado nos Estados Unidos, em edição de bolso, em 1960. Em 1970, encontrava-se já na sua décima segunda reimpressão. Recomendo-o, antes, porque cada novo leitor poderá, porventura, ficar Surprised by Joy [Surpreendido pela Alegria], como ele intitulou a sua autobiografia.
Uma Missão Intelectual
C. S. Lewis foi nada menos do que um missionário cristão para o intelecto do século XX. Percebeu que o temperamento moderno torna extraordinariamente difícil aceitar as pretensões de verdade do ensino cristão. Ainda assim, impôs-se a tarefa de demonstrar a possibilidade intelectual da sua verdade e, uma vez feito isso, de afirmar tais pretensões com ousadia e sem compromisso com o espírito do nosso tempo, ou de qualquer outro. Estava soberbamente equipado para tal empreendimento. Era um erudito, um don de Oxford, professor de literatura inglesa, homem familiarizado com os clássicos, poeta, romancista, satírico, autor de livros para crianças, e, todavia, alguém que não recuava perante debates com ateus nem se julgava demasiado elevado para levar os seus pensamentos a soldados sem formação académica.
Muito apropriadamente, Lewis era um convertido ao cristianismo, pois possuía aquele zelo frequentemente associado aos convertidos. Convertido de quê? Do intelectualismo moderno, sem dúvida, do seu relativismo, da sua tendência para o reducionismo, dos seus sofismas e, em última análise, do seu cansaço do mundo.
Para C. S. Lewis, tornar-se cristão foi um despertar brusco, um ganhar vida, por assim dizer — ganhar vida para as possibilidades, para as escolhas, para os perigos da alma, para as potencialidades do espírito e, acima de tudo, para o carácter mais-do-que-tudo o que o rodeava. Como afirmou Paul Holmer:
“Ele queria ser dotado de bom gosto, viver com deleite, ser senhor da vida quotidiana e não sua vítima, ser recto e justo, ser santo e puro . . . . Colocou a sua formação e competências académicas sob a soberania dessas aspirações mais fundamentais.”3
Se tivesse sido um homem mais sensual, talvez fosse mais apropriado dizer que viveu a vida com entusiasmo; tal como foi, viveu a vida do espírito e da mente com mais do que um pouco de entusiasmo.
O cristianismo proporcionou a C. S. Lewis uma perspectiva sobre a vida, não uma teoria. Era uma perspectiva a partir da qual tudo importava, mas algumas coisas importam muito mais do que outras. O que mais importa neste mundo é o indivíduo, pensava ele. Isto é, se o cristianismo é verdadeiro, são os indivíduos que mais importam. Disse Lewis:
“Se os indivíduos vivem apenas setenta anos, então um estado, ou uma nação, ou uma civilização, que pode durar mil anos, é mais importante do que um indivíduo. Mas se o Cristianismo é verdadeiro, então o indivíduo não é apenas mais importante, mas incomparavelmente mais importante, pois é eterno e a vida de um estado ou de uma civilização, comparada com a sua, é apenas um momento.”4
O Potencial Humano
A importância última do indivíduo, acreditava Lewis, reside na potencialidade que possui para crescer, amadurecer e desenvolver-se tanto quanto possível em direcção ao homem que poderia ser. Por outras palavras, trata-se de se tornar tão plenamente humano quanto possível. Apenas na medida em que se tenha preparado, tanto quanto lhe seja possível, realizando plenamente o humano que há em si, estará pronto para o Divino na vida futura. Foi esta perspectiva sobre o homem que moldou a visão de Lewis acerca do uso da coacção. Esse crescimento e desenvolvimento espiritual, que ele considerava o fim do homem, só podem ocorrer de modo significativo na medida em que são escolhidos e queridos. Até Deus apenas está à porta e bate; dificilmente será apropriado que o homem faça mais do que isso.
Lewis era inglês, e muitas das suas observações sobre o governo foram escritas no contexto do crescimento do controlo governamental durante a Segunda Guerra Mundial e sob o Partido Trabalhista. Todavia, não eram partidárias nem no tom nem nas palavras. Declarou que
… o estado moderno existe não para proteger os nossos direitos, mas para nos fazer bem ou para nos tornar bons — em qualquer caso, para nos fazer algo ou para fazer de nós algo. Daí a nova designação de «líderes» para aqueles que outrora eram «governantes». Somos menos seus súbditos do que seus tutelados, alunos ou animais domésticos. Nada resta acerca do qual lhes possamos dizer: «Ocupai-vos dos vossos próprios assuntos.» Toda a nossa vida é assunto deles.5
Lewis negava quer que o governo pudesse tornar os homens bons, quer que fosse sua função tentar fazê-lo.
Não se pode tornar os homens bons por meio da lei», afirmou ele, «e sem homens bons não se pode ter uma boa sociedade.6
As pessoas boas, pensava ele, são uma questão individual, não algo alcançado em massa. A função básica do governo é punir os malfeitores, acreditava Lewis, não tornar os homens bons.7
Explorou a noção de compelir as pessoas a fazer ou a ser boas num ensaio intitulado “Lilies that Fester” [Lírios que Apodrecem]. Aí identificou dois tipos distintos de governo em que tal poderia ser tentado. Um é a teocracia, naturalmente, o que significa, simplesmente, governo em nome de Deus. O outro denominou-o “charientocracy.” Tanto quanto posso perceber, uma “charientocracy” é o governo dos intelectuais, dos “cultos”, dos tecnocratas, dos cientistas ou, em suma, de uma elite humanista movida pela convicção de que sabe o que é melhor para nós.8
A Teocracia Repudiada
Lewis não deixou qualquer dúvida quanto à sua baixa estima pelos méritos de uma teocracia. Afirmou: «A teocracia é o pior de todos os governos possíveis. Todo o poder político é, no melhor dos casos, um mal necessário; mas é menos mau quando as suas sanções são mais modestas e comuns, quando não reclama mais do que ser útil ou conveniente e fixa para si objectivos estritamente limitados. Tudo o que seja transcendental ou espiritual, ou mesmo algo muito fortemente ético, encoraja-o a imiscuir-se na nossa vida privada. Não vá o sapateiro além das sandálias»9 Do mesmo modo, declarou noutro lugar: «Não gosto que as pretensões do Governo — os fundamentos com que exige a minha obediência — sejam colocadas demasiado alto. (…) Creio em Deus, mas detesto a teocracia. Pois todo o governo é composto de meros homens e é, estritamente considerado, um expediente; se acrescenta aos seus mandamentos “Assim diz o Senhor”, mente, e mente perigosamente.»10
Quanto à questão de os cristãos imporem a sua visão à sociedade em geral, disse o seguinte. Mesmo que os cristãos fossem maioria numa sociedade, afirmou, «os nossos governantes continuariam a ser homens caídos11 e, portanto, nem muito sábios nem muito bons. . Como as coisas são, serão
geralmente não-crentes. E, visto que a sabedoria e a virtude não são as únicas nem as mais
comuns qualificações para um lugar no governo, não serão muitas vezes sequer os melhores
não-crentes»12 Duvidava que até o conceito cristão da durabilidade do matrimónio devesse ser imposto à sociedade em geral. «Muitas pessoas parecem pensar», observou, «que, se é cristão, deve procurar tornar o divórcio difícil para todos. Eu não penso assim. Pelo menos ficaria muito indignado se os maometanos tentassem impedir o resto de nós de beber vinho. A minha opinião é que as Igrejas devem reconhecer francamente que a maioria do povo britânico não é cristã e, portanto, não se pode esperar que viva vidas cristãs.»13
Lewis duvidava, contudo, de que a Inglaterra, ou qualquer outro país, estivesse em grande perigo de uma teocracia plenamente desenvolvida. Houve algumas mudanças de disposição desde os dias em que escrevia. Israel apresenta elementos tanto de teocracia como de socialismo nas suas práticas. O mesmo sucede com vários países muçulmanos. Há mesmo longínquos rumores de imposições teocráticas nos Estados Unidos, embora eu suspeite que haja mais ruído do que substância por detrás deles. De qualquer forma, Lewis compreendeu correctamente que aquilo com que nos defrontamos é tanto a perspectiva como a realidade de um governo que obriga as pessoas a fazer o bem com base em fundamentos humanitários, científicos, elitistas e estado-assistencialistas, mais do que teocráticos. Embora deva ter estado consciente de que muitas vezes há uma mistura de evangelho social subjacente a tais impulsos, não estava inclinado a atribuí-los ao cristianismo.
Tratou os argumentos humanitários e científicos com maior profundidade a propósito da pena capital. Lewis não professava saber se deveria ou não existir pena capital. Mas opôs-se energicamente à linha de argumentação utilizada pelos seus opositores. Os opositores da pena capital — e, por extensão, de qualquer tipo de punição enquanto tal — procuram geralmente defender que ela só poderia ser justificada com base num ou em ambos os seguintes fundamentos: que dissuadiria outros de cometer crimes ou que reformaria ou melhoraria o criminoso. Mas, se estes fossem os únicos fundamentos da punição, observou Lewis, eliminariam «da Punição o conceito de Mérito14. Mas o conceito de Mérito é o único elo de ligação entre punição e justiça. Só enquanto merecida ou imerecida pode uma sentença ser justa ou injusta.»15 Lewis notou ainda que a tendência para interpretar o crime como resultado de uma condição patológica tende a deslocar a ênfase da reforma do criminoso para a sua cura. Assim, sustentava «que esta doutrina, por mais misericordiosa que pareça, significa na realidade que cada um de nós, desde o momento em que infringe a lei [é detido, seria melhor], fica privado dos direitos de um ser humano.»16
Moralidade e Escolha
Embora à primeira vista possa não parecer assim, parece-me que Lewis foi ao cerne da questão de compelir as pessoas a fazer o bem na sua crítica àquilo a que chamou «Teoria Humanitária da Punição». Nas entrelinhas, Lewis diz-nos que fazer ou ser bom é uma possibilidade humana, que é moral, e que se torna tal por escolha. Remova-se o elemento da escolha, tente-se impô-la como terapia, e o homem é reduzido ao nível de um animal, de um mentalmente incapaz ou de uma criança pequena. A bondade fica despojada do seu carácter moral.
Embora haja muito mais no ensaio que valeria a pena ler, o ponto crucial é atingido nestas palavras: «De todas as tiranias, uma tirania exercida sinceramente para o bem das suas vítimas pode ser a mais opressiva. (…) A própria bondade delas fere com um insulto intolerável. Ser “curado” contra a própria vontade e curado de estados que podemos não considerar doença é ser colocado ao nível daqueles que ainda não atingiram a idade da razão ou daqueles que nunca a atingirão. (…) Mas ser punido, por mais severamente que seja, porque o merecíamos, porque “deveríamos ter sabido melhor”, é ser tratado como uma pessoa humana feita à imagem de Deus.»17
Em suma, e segundo interpreto o que Lewis afirmou, compelir as pessoas a fazer o bem não apenas lhes retira a liberdade, mas também a responsabilidade. A sua tendência é infantilizar a raça ou produzir uma espécie sub-humana.
«Por fim», disse Lewis, «chego ao ponto em que as minhas objecções à Teocracia e à Carientocracia são quase idênticas. “Lírios que apodrecem cheiram muito pior do que ervas daninhas.” Quanto mais elevadas forem as pretensões dos nossos governantes, tanto mais intrusivo e impertinente será provavelmente o seu governo e tanto mais será profanada a coisa em cujo nome governam. (…) Que os nossos senhores (…) nos deixem alguma região onde o espontâneo, o não-comercializável, o absolutamente privado, ainda possa existir.»18
A Assistência Enfraquece os Beneficiários
C. S. Lewis encontrava-se no auge da sua actividade quando o estado-providência, ou o socialismo, parecia estar mais firmemente implantado no Reino Unido. Nunca afirmou saber muito de economia; na verdade, negava mesmo possuir conhecimentos suficientes para fazer comentários significativos sobre o assunto. Era quase certamente assim. Suspeitava que o estado moderno intrusivo se tornara uma característica permanente, pelo menos para esta época. As suas objecções à compulsão das pessoas para fazer o bem poderiam tê-lo tornado um opositor declarado do estado-providência. Tal não sucedeu, principalmente por duas razões, suspeito. Primeiro, o seu esforço principal estava cada vez mais dedicado à defesa e exposição do cristianismo, e qualquer empenhamento partidário o afastaria desse trabalho. Segundo, carecendo de compreensão económica, estava menos certo de que teria razão ao opor-se aos esforços melhoradores do estado. Ainda assim, disse o seguinte acerca das suas tendências e perigos:
A questão do progresso tornou-se a questão de saber se podemos descobrir algum modo de nos submetermos ao paternalismo mundial de uma tecnocracia sem perder toda a privacidade e independência pessoais. Existe alguma possibilidade de obter o mel do super-estado-providência e evitar a ferroada?
Não nos enganemos quanto à ferroada. A tristeza sueca é apenas um prenúncio. Viver a sua vida à sua maneira, chamar à sua casa o seu castelo, gozar os frutos do seu próprio trabalho, educar os filhos segundo a sua consciência, poupar para a sua prosperidade após a sua morte — estes são desejos profundamente enraizados no homem branco e civilizado. A sua realização é quase tão necessária às nossas virtudes como à nossa felicidade. Da sua frustração total poderiam resultar consequências desastrosas, tanto morais como psicológicas.
Tudo isto nos ameaça mesmo que a forma de sociedade para a qual as nossas necessidades apontam se revele um sucesso sem precedentes. Mas isso é certo? Que garantia temos de que os nossos senhores cumprirão ou poderão cumprir a promessa que nos levou a vender-nos? Não nos deixemos enganar por expressões acerca de «o Homem tomar nas suas mãos o seu próprio destino». Tudo o que isso pode realmente significar é que alguns homens tomarão nas suas mãos o destino de outros. Serão simplesmente homens; nenhum perfeito; alguns gananciosos, cruéis e desonestos. Quanto mais completamente formos planificados, tanto mais poderosos eles serão. Descobrimos alguma nova razão para que, desta vez, o poder não corrompa como corrompeu antes?19
Em suma, a disposição de partilhar o que é nosso com outros é um traço amável e atractivo. Os cristãos são exortados a oferecer ajuda àqueles que encontram em necessidade. Mas mesmo na partilha voluntária convém ter em conta os desejos dos outros antes de lhes impor os próprios bens. Forçar os próprios bens sobre outrem seria uma imposição injustificada. Contudo, a tirania aguarda nos bastidores, se já não estiver em cena, quando o poder do governo é utilizado para forçar as pessoas a fazer ou a ser boas. E, se Lewis estiver correcto, quanto mais elevado o motivo invocado para o tentar, tanto mais viciosa a tirania. Ou, como o exprimiu, nas palavras de John Bunyan: «Veio ardendo intensamente à minha mente que, fosse o que fosse que dissesse, e por mais que me lisonjeasse, quando me levasse a sua casa, vender-me-ia como escravo.»20
- OSHA: A OSHA (Occupational Safety and Health Administration) é a agência do Departamento do Trabalho dos EUA, criada em 1970, que define normas de segurança e saúde para prevenir acidentes e doenças no trabalho. O correspondente em Portugal é a ACT: Autoridade para as Condições do Trabalho [N. do. T.] ↩︎
- Veja-se a minha discussão dos mesmos em The Flight from Reality (Irvington, N. Y.: FEE, 1969), pp. 254–74. ↩︎
- Paul L. Holmer, C. S. Lewis: The Shape of His Life and Thought (Nova Iorque: Harper & Row, 1976), pp. 110–11. ↩︎
- C. S. Lewis, Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples] (Nova Iorque: Macmillan, 1960), p. 73. ↩︎
- C. S. Lewis, God in the Dock [Deus no Banco dos Réus], editado por Walter Hooper (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans, 1970), p. 314. ↩︎
- Lewis, Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples], p. 72. ↩︎
- Veja-se Lewis, God in the Dock [Deus no Banco dos Réus], p. 292. ↩︎
- Do grego χαρίεντες, gracioso, dotado, refinado, elegante, amável, querido [N. do T.] ↩︎
- C. S. Lewis, The World’s Last Night (Nova Iorque: Harcourt, Brace & World, 1960), p. 40. ↩︎
- Lewis, God in the Dock [Deus no Banco dos Réus], p. 315. ↩︎
- No inglês original fallen men, remetendo para a doutrina cristã da Queda do Homem.[N. do T.] ↩︎
- Ibidem, p. 292. ↩︎
- Lewis, Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples], pp. 101–02. ↩︎
- Ou “merecimento”. [N. do T.]. ↩︎
- Lewis, God in the Dock [Deus no Banco dos Réus], p. 288. ↩︎
- Ibidem. ↩︎
- Ibidem, p. 292. ↩︎
- Lewis, The World’s Last Night. ↩︎
- Lewis, God in the Dock [Deus no Banco dos Réus], p. 316. ↩︎
- Citado em Ibidem, p. 294. ↩︎
Ensaio publicado originalmente na Foundation for Economic Education.
