É difícil encontrar algo que possamos chamar “bom” a sair da actual guerra EUA-Israel contra o Irão. No entanto, um desenvolvimento positivo tem sido o facto de a prática enganosa de Israel de fingir que não tem um programa de armas nucleares ser agora insustentável.
A renovação da discussão em torno do programa de armas nucleares de Israel foi, em parte, motivada por ataques com mísseis iranianos na área de Dimona, uma cidade no sul de Israel conhecida por albergar instalações de investigação nuclear.
Num relatório de 22 de Março sobre os ataques pelo Jerusalem Post, são assinaladas as contínuas negações por parte do estado israelita: “Na década de 1960, o então primeiro-ministro Levi Eshkol prometeu que ‘Israel não será o primeiro estado a introduzir armas nucleares na região.’ Esta posição tem sido repetida por responsáveis israelitas desde então.”
No entanto, o artigo prossegue, referindo que “é geralmente aceite que a instalação [perto de Dimona] produziu plutónio para o alegado arsenal nuclear.” Avaliações modernas, “como um relatório de 2025 do Stockholm International Peace Research Institute, estimaram que Israel possui um stock de cerca de 90 ogivas nucleares.”
Outras estimativas afirmam que o stock é consideravelmente maior. Por exemplo, em 2016, uma divulgação de emails do antigo Secretário de Estado dos EUA Colin Powell mostram Powell a afirmar que a destruição mútua assegurada1 tornaria extremamente improvável que o regime iraniano utilizasse armas nucleares, mesmo que as possuísse. Segundo Powell: “os rapazes em Teerão sabem que Israel tem 200 [armas nucleares], todas apontadas a Teerão, e nós temos milhares.”
Ainda assim, é política tanto do estado israelita como do estado norte-americano fingir que não existe qualquer stock nuclear israelita. Agentes do regime americano nem sequer respondem à pergunta quando questionados sobre armas nucleares israelitas. Por exemplo, numa troca na semana passada entre o congressista Joaquin Castro e o subsecretário de Estado para o Controlo de Armamento Thomas DiNunno, DiNunno recusou responder a perguntas directas sobre factos básicos:
“Qual é a capacidade nuclear de Israel em termos de armamento?” perguntou Castro numa comissão de inteligência. “Não posso comentar essa questão específica. Teria de o remeter para os israelitas,” respondeu DiNunno. “Israel tem armas nucleares?” Castro reiterou a pergunta. “Não estou preparado para comentar isso,” insistiu DiNunno.
“Não está preparado para comentar? É uma pergunta muito básica. Estamos com um aliado a conduzir uma guerra contra o Irão. Esta guerra continua a escalar,” recordou Castro aos presentes. Quando clarificou se DiNunno desconhecia o estatuto nuclear de Israel, este disse que também não podia comentar.
“O senhor é a principal pessoa responsável por conhecer e compreender isto. Não nos vai dar uma resposta? Não percebo porque é que esta questão é tão tabu quando é uma pergunta básica, e estamos numa guerra ao lado de Israel contra o Irão. Estamos a lidar com o potencial de um desastre nuclear,” advertiu Castro.
“Mais uma vez, estaria fora da minha competência, enquanto subsecretário para o controlo de armamento e não-proliferação, discutir essa questão específica,” respondeu novamente DiNunno, sem dar resposta à pergunta inicial.
Trata-se, de forma transparente, de um esforço para evitar admitir aquilo que é talvez o mais evidente “segredo aberto” dos assuntos internacionais: o estado de Israel possui um arsenal nuclear.
Mas qual é exactamente o intuito de recusar admitir a existência desse arsenal?
Um factor importante é o facto de a existência do arsenal tornar o estado de Israel inelegível para ajuda dos EUA ao abrigo da lei norte-americana. Isto constitui um problema para os apoiantes, nos EUA, da ajuda militar e económica ao estado de Israel. Como recentemente noticiou o Military.com:
Durante décadas, os Estados Unidos forneceram a Israel assistência militar substancial, actualmente estruturada como ajuda de segurança plurianual autorizada pelo Congresso e implementada através de dotações anuais. Esse apoio é frequentemente tratado como rotineiro do ponto de vista legal. Contudo, uma análise mais atenta da legislação norte-americana de não-proliferação levanta uma questão séria que o Congresso e sucessivas administrações têm, em grande medida, evitado: a lei federal existente permite ajuda a um país amplamente reconhecido como possuidor de armas nucleares que nunca declarou?
A linguagem da lei é clara. O relatório do Military.com prossegue:
O estatuto mais relevante é a Emenda Symington, codificada em 22 U.S.C. § 2799aa-1. A lei determina que a maior parte da assistência económica e militar dos EUA “deve ser terminada” a qualquer país que forneça ou receba tecnologia de enriquecimento nuclear fora de salvaguardas internacionais completas. … A emenda não menciona Israel, nem contém qualquer isenção específica para Israel.
Escusado será dizer que o arsenal nuclear do regime israelita está muito longe de qualquer “salvaguarda internacional.” O regime de Telavive está entre o pequeno grupo de países que recusaram assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), e nunca permitiu que inspectores internacionais observassem ou inspeccionassem o seu stock de qualquer forma. Por outras palavras, Israel fez tudo aquilo de que o regime israelita acusa o Irão. O Irão tem permitido há muito a entrada de inspectores nucleares internacionais e é signatário do TNP.
Como mais um exemplo de que o estado de direito não existe nos Estados Unidos, os elementos pró-Israel dentro do governo norte-americano — que constituem grande parte do chamado “bloco” da política externa — mantêm a ficção de que Israel não é uma potência nuclear ilegal à luz da lei dos EUA. Isto permite ao regime dos EUA continuar a explorar os contribuintes americanos para assegurar que Israel permanece o principal destinatário de ajuda militar dos EUA, tendo recebido mais de um terço de um bilião de dólares desde 1946. A lei norte-americana simplesmente não importa quando entra em conflito com o apoio do regime ao estado de Israel.
Nem sequer a admissão de Powell foi suficiente para obter uma resposta clara por parte do regime dos EUA. Na sequência da divulgação dos emails de Powell, um jornalista perguntou ao porta-voz do Pentágono John Kirby se a revelação sobre o arsenal nuclear israelita tornaria Israel inelegível para ajuda. Kirby adoptou uma expressão de confusão e espanto e afirmou não poder responder à pergunta.
O absurdo das recusas por parte de responsáveis norte-americanos em falar sobre o stock nuclear israelita torna-se ainda mais evidente pelo facto de académicos israelitas admitirem abertamente a sua existência. O historiador militar israelita Martin van Creveld, por exemplo, tem falado abertamente sobre o assunto e chegou mesmo a ameaçar desencadear o arsenal sobre “o mundo” caso o estado israelita enfrente uma ameaça existencial:
Possuímos várias centenas de ogivas atómicas e foguetes e podemos lançá-los contra alvos em todas as direcções, talvez até contra Roma. A maioria das capitais europeias são alvos para a nossa força aérea. Permitam-me citar o general Moshe Dayan: “Israel deve ser como um cão louco, demasiado perigoso para ser incomodado.” Considero que, neste momento, tudo é desesperado. Teremos de tentar evitar que as coisas cheguem a esse ponto, se possível. As nossas forças armadas, contudo, não são a trigésima mais forte do mundo, mas sim a segunda ou terceira. Temos a capacidade de levar o mundo connosco. E posso assegurar-vos que isso acontecerá antes de Israel sucumbir.
A menção a Roma não é acidental. Os ramos mais fanáticos dos decisores políticos israelitas têm há muito visto Roma como um alvo particularmente desejável, por ser, de facto, a capital do Cristianismo, e porque a destruição de Roma constituiria um golpe simbólico contra os romanos que destruíram Jerusalém em 70 d.C.
Ainda assim, o regime dos EUA continua a fingir que o stock israelita não existe — de modo a continuar a gastar milhares de milhões de dólares dos contribuintes através do que é claramente um programa de ajuda externa ilegal à luz da lei norte-americana. Em vez disso, os EUA querem fazer-nos acreditar que a não-proliferação nuclear é uma prioridade do governo. Na realidade, a política nuclear dos EUA está esmagadoramente orientada para uma coisa: impedir a proliferação entre os inimigos do estado de Israel. Dito de forma clara, o regime dos EUA foi capturado por uma coligação de grupos de interesse que colocam o bem do estado de Israel acima de tudo o resto, e certamente acima do contribuinte americano e da lei dos EUA.
- Destruição mútua assegurada (MAD): conceito popularizado nos anos 60 (Guerra Fria) segundo o qual o uso de armas nucleares por um dos lados levaria inevitavelmente à destruição de ambos — atacante e defensor. [N. do T.] ↩︎
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
