Murray N. Rothbard é um dos maiores nomes de sempre da economia austríaca e do libertarianismo. Ponto final. Quando se estuda a sua obra e se compreende o sistema abrangente que construiu, reconhece-se imediatamente que Rothbard é verdadeiramente um gigante sobre cujos ombros os estudiosos do livre mercado deveriam aspirar a erguer-se.
A maior parte dos académicos espera produzir investigação significativa que responda a alguma questão teórica ou empírica restrita. Muitos autores populares anseiam por publicar um artigo ou livro aclamado algures na sua carreira. O que torna Rothbard tão extraordinário é o facto de ter feito ambas as coisas e em múltiplas disciplinas. O prolífico Rothbard produziu obras pioneiras e amplamente lidas em teoria económica, filosofia, ciência política, história económica, história do pensamento económico, história propriamente dita, estratégia política e actualidade. O seu raciocínio sistemático e lógico encorajou inúmeros leitores a pensar o mundo de uma forma tão profundamente diferente que sentem como se tivessem acabado de descobrir a chave que desvenda os segredos do universo.
O princípio unificador por detrás dos escritos de Rothbard é o «libertarianismo — a disciplina da liberdade». Rothbard acreditava que estava a construir uma verdadeira ciência da liberdade que retirava contributos de múltiplas «áreas do estudo da acção humana: economia, filosofia, teoria política, história, até — e não menos importante — biologia. Pois todas estas fornecem, de formas variadas, o fundamento, a elaboração e a aplicação do libertarianismo». Rothbard integrou cada um destes campos numa estrutura logicamente coerente, uma demonstração irrefutável de que a condição essencial para o florescimento humano é a liberdade individual, enquanto o impedimento eterno ao progresso da humanidade é a intervenção governamental. A ciência da liberdade de Rothbard é realmente o bilhete dourado e o «abre-te sésamo»; é realmente a chave.
O ano de 2026 será celebrado por muitos como o 250.º aniversário da fundação do país. Embora a assinatura da Declaração de Independência seja certamente um acontecimento digno de louvor, não devemos esquecer que este ano marca também o 100.º aniversário do nascimento de Rothbard. Rothbard, que escreveu tanto sobre as ideias americanas de liberdade, independência, direito à autodeterminação e secessão, merece igualmente ser celebrado. As ideias de Rothbard são relevantes para a década de 2020 e para além dela, tal como os princípios fundadores dos Estados Unidos. A sua obra proporciona uma vida inteira de ensinamentos a estudantes, leigos, escritores populares, influenciadores das redes sociais, académicos, empresários, activistas e políticos. É por isso que o Mises Institute se orgulha de anunciar 2026 como o Ano de Rothbard.
Este artigo aborda uma selecção de ensinamentos da ciência da liberdade de Rothbard e explica a sua relevância para o século XXI. Será (esperamos!) um levantamento informativo e conciso dos aspectos mais relevantes. Começaremos por discutir a economia de Rothbard e por que motivo as suas análises dos capitalistas-empreendedores e das concessões de privilégio monopolístico são cruciais para compreender o funcionamento da economia moderna.
O Edifício Económico Rothbardiano
Rothbard foi, antes de mais, um economista, tendo obtido o seu doutoramento em economia na Columbia University em 1956. Apenas alguns anos depois publicou Man, Economy, and State, um tomo monumental que se encontra ao lado de Human Action, de Ludwig von Mises, como um dos dois livros mais importantes da tradição austríaca. A teoria económica de Rothbard é uma componente integral da sua ciência da liberdade, pelo que é apropriado começar pela economia.
No cerne da economia rothbardiana está a explicação abrangente do funcionamento da economia de mercado. Partindo do elemento básico da acção humana, Rothbard deduz passo a passo as leis económicas imutáveis que explicam a formação dos preços, as decisões de produção e a alocação e realocação de recursos escassos. Verdadeiramente, «a explicação do sistema económico livre constitui um grande edifício arquitectónico». Igualmente importante é aquilo que se segue — uma análise exaustiva das leis económicas que demonstra como o governo e as suas políticas interferem com e distorcem a ordem de mercado. As suas leis económicas mantêm-se verdadeiras para toda a sociedade humana, independentemente do tempo ou do lugar, sendo por isso cruciais para compreender o funcionamento do mundo moderno.
Rothbard ensina-nos que devemos compreender a economia como uma grande estrutura de produção, com todos os mercados interligados. Rothbard sublinha que devemos recordar sempre que a produção é «uma estrutura de etapas, uma rede que se move desde os processos de produção mais “indirectos” — as etapas de produção mais afastadas dos consumidores — até aos processos mais próximos e, finalmente, até à produção e venda de bens e serviços aos consumidores finais». Isto é verdade quer estejamos a observar o processo de produção por detrás da mais recente ferramenta de inteligência artificial, de um automóvel autónomo ou de um foguetão espacial. A produção de um automóvel avançado começa com a extracção de vários metais e minerais da terra, seguida da sua utilização no fabrico de microprocessadores e outros componentes. Só após um período significativo de tempo e da montagem de todos os componentes do automóvel ao longo de várias etapas é que o veículo fica concluído e pronto para ser adquirido pelo consumidor.
Os principais motores da estrutura de produção são os capitalistas-empreendedores [ou capitalistas-empresários, N.d.T.], os indivíduos que poupam e investem em empresas, por exemplo canalizando as suas poupanças para as suas próprias firmas e sociedades, adquirindo acções de uma corporação ou emprestando dinheiro a empresas. Eles alocam as suas poupanças à produção de recursos que, por sua vez, produzem os bens de consumo que estimam que as pessoas mais urgentemente desejarão.
Rothbard revela brilhantemente como, perante probabilidades aparentemente impossíveis, as decisões individuais de inúmeros capitalistas-empreendedores resultam numa ordem harmoniosa. Como funciona tudo isto? Dada a multiplicidade de planos descoordenados formados por seres humanos imperfeitos, como conseguem os capitalistas-empreendedores alocar adequadamente as suas poupanças através da estrutura de produção para que sejam produzidos os bens de consumo que as pessoas desejam? A razão é que os lucros e prejuízos e a pressão implacável dos empresários rivais asseguram a eficiência. Boas previsões resultam em lucros para o capitalista-empreendedor, e os lucros atraem outros empresários/empreendedores esperançosos para essa indústria. Isto conduz a uma maior utilização de poupanças para produzir os bens desejados pelos consumidores, o que, por sua vez, conduz a um aumento da oferta, a uma melhoria da qualidade e a uma redução dos preços. Más previsões resultam em prejuízos, os quais estimulam uma realocação das poupanças para a produção de bens de consumo mais intensamente desejados. Se os capitalistas-empreendedores que sofrem prejuízos não ajustarem o seu comportamento, acabarão por sair do mercado.
O mecanismo competitivo de lucros e prejuízos resulta numa das leis económicas mais importantes do mercado: «A tendência do mercado é para um elevado grau de ajustamento entre antecipação e realidade, e para um mínimo de investimento erróneo.» Os mercados tenderão a produzir aquilo que as pessoas desejam, e os consumidores tenderão a ficar satisfeitos. Esta lei económica está sempre em funcionamento. Quando observamos um aumento da qualidade de vida, por exemplo através de novos smartphones, serviços de entrega mais rápidos para encomendas online e preços mais baixos de televisores e aparelhos electrónicos, o raciocínio de Rothbard fornece a derradeira explicação.
Muitas pessoas reviram os olhos quando ouvem tal explicação do livre mercado. Pensam que este raciocínio não se aplica aos bens X, Y e Z porque os seus preços permanecem elevados e a sua qualidade continua fraca, enquanto as empresas que os vendem continuam a obter grandes lucros. Por exemplo, todos nós já suportámos atrasos intermináveis em voos e o fardo adicional do questionável serviço ao cliente das companhias aéreas. Não estaremos sujeitos a um cartel de mercado e a todos os seus efeitos deletérios? Não precisaremos do governo para intervir e assegurar a ordem?
O que torna a economia rothbardiana tão relevante em situações como esta é a sua demonstração de que a situação é precisamente a inversa: a intervenção governamental está a paralisar o mecanismo competitivo de lucros e prejuízos! Observemos suficientemente de perto qualquer exemplo e encontraremos inevitavelmente aquilo a que Rothbard chama uma «concessão de privilégio monopolístico». Seja através de licenças, normas de qualidade e segurança, ou algum outro édito regulamentar, as concessões de privilégio monopolístico aumentam o custo da concorrência e desencorajam (ou proíbem pura e simplesmente) novos capitalistas-empreendedores de entrarem em determinadas linhas de produção. O resultado é que os lucros não reflectem a satisfação dos consumidores porque a entrada e a eficiência são desencorajadas pela força. A quantidade e a qualidade são inferiores e os preços mais elevados do que seriam num livre mercado. O facto de as concessões monopolísticas terem consequências restritivas é uma das mais cruciais leis económicas da intervenção governamental.
Apesar dos resultados nocivos que provocam, as concessões monopolísticas proliferam por toda a nossa economia porque «nos dias de hoje [é] muito mais provável que estejam ocultas ou sejam indirectas, disfarçadas como uma espécie de penalização sobre os concorrentes e apresentadas como favoráveis ao “bem-estar geral”». Isso torna-as muito difíceis de detectar pelo público. No caso da indústria aérea, a concorrência de companhias aéreas estrangeiras é restringida. Sob o pretexto da segurança nacional e da segurança operacional, companhias aéreas com mais de 25% de propriedade estrangeira estão impedidas de oferecer voos entre aeroportos dos EUA. Isto conduziu a um cartel de companhias aéreas domésticas patrocinado pelo governo. Em contraste, na União Europeia a restrição é menos severa e às empresas que desejem oferecer voos entre países europeus é permitida até 49% de propriedade estrangeira. Será surpreendente que as companhias aéreas da UE tenham frequentemente preços mais baixos e melhor serviço do que as suas concorrentes americanas?
As implicações da economia rothbardiana são claras. Os frutos da economia que frequentemente tomamos por garantidos — melhorias na quantidade, qualidade, variedade e acessibilidade — devem-se aos esforços incessantes dos capitalistas-empreendedores que operam ao longo da estrutura de produção sob o quadro disciplinador dos lucros, prejuízos e concorrência. Em contraste, as ineficiências duradouras e as frustrações daí resultantes que muitos de nós experimentamos quando adquirimos bens e serviços correntes devem-se às concessões governamentais de privilégios especiais. Que aqueles que se esforçam por construir um futuro melhor reconheçam estas verdades económicas!
Filosofia Política Rothbardiana
A par do seu trabalho em teoria económica, Rothbard escreveu extensamente sobre filosofia política. Isto foi bastante apropriado, porque uma análise robusta do mecanismo de trocas requer uma teoria dos contratos e do que constitui violações desses contratos. Rothbard escreveu muitas obras influentes sobre teoria política que continuam a ser lidas até hoje — Por Uma Nova Liberdade apresentou a defesa definitiva do anarco-capitalismo e da provisão privada da lei e da ordem, enquanto Anatomia do Estado expôs os governos pelo que realmente são. De facto, um link do mises.org para este último foi publicado no Twitter pelo CEO do Twitter, Jack Dorsey, em 2021!
Tal como a economia rothbardiana, a filosofia política rothbardiana é reveladora. Ninguém — e quero dizer ninguém — explica a essência e a natureza do governo como Rothbard. Desde os impérios antigos até às democracias constitucionais modernas, a teoria abrangente de Rothbard sobre a origem e o funcionamento do governo constitui uma lente analítica essencial.
Ao estudar as interacções sociais entre indivíduos e as trocas de bens que realizam, Rothbard sublinha que nunca se pode perder de vista o facto de que «aquilo que está efectivamente a ser trocado é o título de propriedade de cada um destes bens». Uma componente central da ciência da liberdade de Rothbard é a elaboração do conceito de títulos de propriedade e daquilo que constitui uma troca voluntária em oposição a uma transferência coerciva.
A maior parte das pessoas considera o governo indispensável na definição e aplicação dos títulos de propriedade. Podem resmungar acerca da interferência governamental nas suas vidas e lamentar ter de pagar impostos. Mas desde os seus primeiros dias na escola primária até às notícias desta manhã, foram ensinadas de que o governo é o preço necessário para a manutenção da civilização. Se não gostam da forma como as coisas são feitas, então o melhor que podem fazer é votar noutra pessoa nas próximas eleições. Não existe outra forma.
No seu habitual estilo lúcido e perspicaz, Rothbard expõe o erro desta linha de raciocínio. Utilizando simultaneamente teoria e evidência empírica, Rothbard demonstra que o estado não é apenas mais uma empresa que as pessoas escolheram patronizar. Não é uma gelataria, a Amazon ou uma empresa privada de segurança. É, na verdade, um sindicato criminoso legalizado. O estado é «a organização na sociedade que procura manter o monopólio do uso da força e da violência numa determinada área territorial; em particular, é a única organização na sociedade que obtém as suas receitas não através de contribuições voluntárias ou pagamento por serviços prestados, mas através da coerção». Os estados emergem através da conquista e subjugação da população. Os indivíduos são incapazes de recorrer a diferentes fornecedores de lei e ordem como podem fazer com outros bens e serviços — têm de pagar impostos ao governo que domina o território em que vivem ou serão enviados para a prisão.
Além disso, o governo não funciona como as empresas no mercado, onde capitalistas-empreendedores competentes que satisfazem os desejos dos consumidores obtêm lucros, enquanto os menos eficientes sofrem prejuízos. Em vez disso, existe apenas a casta dominante dos exploradores, «os reis, políticos e burocratas que ocupam e operam o estado [e] os grupos que manobraram para obter privilégios, subsídios e benefícios do estado». Estes indivíduos ganham dinheiro de acordo com a eficácia com que exercem poder e com a habilidade com que fazem lobbying (ou ajudam aqueles que o fazem) de forma a obterem concessões de privilégio monopolístico e outros favores. A casta dominante ganha dinheiro através da «poderosa e terrível aliança entre o chefe guerreiro e o xamã, entre o Trono e o Altar». Em troca da sua fatia do bolo, os intelectuais da corte convencem o público de que deve aceitar a autoridade dos governantes e não questionar as suas decisões.
Alguns responderiam afirmando que, embora o conceito rothbardiano de estado descreva com exactidão os governos da Antiguidade ou regimes autoritários modernos como a Rússia, a China, o Irão e a Coreia do Norte, ele não esclarece o funcionamento das democracias ocidentais como os Estados Unidos. As nossas forças armadas existem para defender o público e combater os maus da fita no estrangeiro. O nosso governo é dirigido por políticos democraticamente eleitos que actuam sob o império da lei. O nosso governo é defendido por especialistas esclarecidos que têm em mente o interesse público.
Estão enganados. A essência das democracias e das autocracias é a mesma. Na verdade, o próprio governo americano nasceu da conquista. «Foi um golpe de estado sem derramamento de sangue.» O governo consagrado na Constituição dos EUA só surgiu porque «os Federalistas, através do uso de propaganda, falcatruas, fraude, distribuição desigual de delegados, ameaças de chantagem mediante secessão e até leis coercivas, conseguiram manter delegados suficientes para desafiar a vontade da maioria do povo americano e criar uma nova Constituição».
Embora melhor do que muitas alternativas, o governo dos EUA continua a funcionar através da coerção. Discorde da polícia e será lançado na prisão, ou pior. Discorde dos militares e o seu país será bombardeado, sancionado ou invadido. O único conjunto de regras internacionais que os EUA seguem é o de que tudo aquilo que fazem está correcto e que os outros países só devem fazer aquilo que o governo americano considerar aceitável.
Cada eleição nos EUA é uma escolha entre dois partidos políticos que defendem a atribuição de diferentes privilégios a diferentes interesses especiais. Quarenta e nove por cento da população é forçada a aceitar aquele em quem os outros 51% votaram. Além disso, os 51% que escolhem o vencedor fazem-no na crença errónea de que o político implementará políticas que os beneficiarão a eles, e não aos interesses especiais que doaram grandes somas às suas campanhas. O público fica preso à escolha e é forçado a sofrer as consequências. É verdade que os indivíduos têm a opção de se mudar para outro estado ou país, mas até esta escolha é feita sob coerção porque os indivíduos têm de vender a terra que possuem. Não podem separar território de um governo para se juntar a outro estado ou fundar um novo país. Os Estados Unidos projectam para os seus cidadãos a ilusão de escolha enquanto violam um dos princípios fundadores mais importantes do país — o direito à autodeterminação.
Os intelectuais da corte sabem como o jogo funciona e defendem-no. Os economistas, historiadores, especialistas em política externa e outros funcionários credenciados em organismos governamentais, universidades estatais e think tanks são os xamãs dos tempos modernos. Em troca de subsídios pagos pelos contribuintes, justificam as intervenções governamentais X, Y e Z com base na segurança nacional e num PIB mais elevado.
Os políticos vão e vêm, mas Washington, DC, funciona de forma muito semelhante às cidades imperiais de outrora. A coerção é exercida, sinecuras burocráticas são atribuídas e privilégios especiais são vendidos. O resultado é que, entre os dez condados mais ricos dos Estados Unidos segundo o rendimento mediano por agregado familiar, nada menos do que cinco se encontram na área de Washington, DC. São eles e as suas classificações: Loudoun County (primeiro), Falls Church (segundo), Fairfax County (quinto), Howard County (sexto) e Arlington County (sétimo). Poderá alguém honestamente sugerir que isto é o resultado de escolhas consensuais do povo?
A filosofia política de Rothbard fornece percepções penetrantes sobre a forma de olhar para os Estados Unidos. Os nossos governantes querem ser vistos como líderes que dirigem um amigável clube de bairro que vela pelos melhores interesses de todos. Na realidade, apenas querem manter o público ocupado enquanto roubam Pedro para pagar a Paulo. Quando as pessoas ouvem um anúncio noticioso de um político, assistem ao discurso do Estado da União do presidente, lêem um artigo de um especialista em segurança nacional ou se encontram na cabine de voto, deveriam recordar-se da verdadeira anatomia do seu governo.
Análise Empírica Rothbardiana
Murray Rothbard não era um teórico de gabinete que evitava investigação empírica. Pelo contrário, Rothbard estudava indivíduos reais, de carne e osso, e escrevia sobre economia, ideias, política e cultura. Os seus escritos sobre episódios históricos e acontecimentos contemporâneos constituem, na verdade, uma parcela maior da sua obra do que o seu trabalho teórico. Produziu estudos reveladores destes fenómenos através da síntese de enormes quantidades de factos e da sua interpretação à luz das teorias relevantes. Tomemos, por exemplo, os seus escritos populares sobre política e política económica em The Libertarian Forum e os seus tratados históricos Conceived in Liberty e An Austrian Perspective on the History of Economic Thought. Em cada um deles, Rothbard forneceu percepções penetrantes sobre as pessoas, as suas ideias e as consequências das suas decisões.
Os estudos empíricos de Rothbard, como aqueles que examinam um governador colonial no século XVII, o fracasso do movimento de fusões empresariais no início do século XX ou o presidente Richard Nixon no início da década de 1970, são importantes não apenas pela riqueza de informação que fornecem sobre indivíduos específicos, empresas e políticas governamentais. Mais fundamentalmente, possuem relevância duradoura porque constituem demonstrações exemplares do método apropriado que se deve utilizar para explicar correctamente as causas das decisões humanas e as razões pelas quais as pessoas actuaram de determinadas formas. O quadro interpretativo de Rothbard é uma ferramenta indispensável para qualquer pessoa que deseje compreender o mundo real de 2026 e para além dele.
Ao estudar acontecimentos humanos — passados, presentes e futuros — é necessário reunir e interpretar dados relativos aos indivíduos e às suas acções. A natureza subjectiva deste processo significa que qualquer narrativa coerente exige que certas informações sejam incluídas e outros detalhes omitidos. Em todos os escritos empíricos de Rothbard, ele procurou sempre estruturar os seus estudos de caso em torno da pergunta Cui bono? Quem beneficia desta medida? Mais precisamente, porque fizeram eles determinada coisa? Se um empresário disser a um entrevistador que criou o produto X por Deus e pela pátria, estará a dizer a verdade? Poderá a sua principal motivação ter sido, na realidade, ganhar muito dinheiro? Se uma reformadora social do século XIX defendeu a proibição do consumo de álcool, fê-lo para ajudar os outros ou para se salvar a si própria através do estabelecimento do reino de Deus na Terra? Se um fornecedor da indústria da defesa militar advoga subsídios para o seu sector com base na defesa nacional, poderá a verdadeira razão ser, afinal, o seu interesse em obter lucros à custa dos contribuintes? Naturalmente, a plausibilidade destas motivações não significa que sejam necessariamente verdadeiras. Estas são apenas hipóteses, e o historiador ou jornalista de investigação deve aprofundar a análise e examinar correspondência pessoal, discursos, avaliações contemporâneas, transacções comerciais e assim por diante para determinar os motivos de uma figura histórica.
A abordagem de Rothbard é especialmente crucial para compreender as acções de funcionários governamentais. Na medida em que os autores convencionais tentam analisar as suas motivações, fazem-no frequentemente partindo da pressuposição de que os políticos são motivados pelo desejo de melhorar o bem público. Isto porque, como Rothbard explicou aos seus estudantes numa conferência, quando lidam «com funcionários governamentais — presidentes, secretários de estado, secretários do tesouro, seja quem for — falam destes tipos como se tivessem caído do espaço sideral. […] Não perguntam: “Quem eram estas pessoas? O que faziam antes de se tornarem presidentes? O que fizeram depois?” Têm uma vida antes e depois. Se examinarmos as vidas destas pessoas antes e depois, encontramos algumas coisas interessantes que se ligam entre si e explicam as motivações de muitas das acções que tomaram no cargo.» De facto, uma compreensão adequada dos funcionários governamentais exige que se procure descobrir as suas motivações através da identificação de conexões entre as suas acções e os seus antecedentes, relações e aspirações. Estas ligações podem, e frequentemente conseguem, conduzir a explicações persuasivas.
Rothbard realizou frequentemente este tipo de investigação, especialmente sobre o tema proibido dos responsáveis da Reserva Federal. Demonstrou que o primeiro governador do Federal Reserve Bank de Nova Iorque, Benjamin Strong, fora anteriormente presidente da Bankers Trust Company, uma instituição financeira situada na esfera de influência da J. P. Morgan & Co., e que esta ligação ajuda a explicar muitas das políticas pró-Wall Street que implementou nas décadas de 1910 e 1920. Rothbard também sublinhou que não era coincidência o facto de Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal (Fed) entre 1987 e 2006 e responsável por políticas monetárias expansionistas que favoreceram desproporcionalmente Wall Street, ter sido antigo director da J. P. Morgan & Co. e da Morgan Guaranty Trust.
Podemos, embora de forma extremamente breve, aplicar a lente rothbardiana ao actual presidente da Fed, Jerome Powell, e ao seu provável sucessor, Kevin Warsh. Powell, antigo sócio da firma de private equity Carlyle Group, deixará um legado de impulsionamento artificial dos mercados financeiros. Kevin Warsh foi director executivo da Morgan Stanley. Tornou-se depois membro do Conselho de Governadores da Fed e trabalhou de perto com Wall Street durante a crise financeira de 2008. Será surpreendente que os mercados financeiros tenham celebrado a nomeação de Warsh para presidente da Fed? São necessárias mais provas, mas o panorama não parece favorável para aqueles que afirmam que os líderes da Fed são apolíticos e não influenciados por interesses especiais.
A abordagem rothbardiana do cui bono? e a necessária investigação aprofundada dos antecedentes e ligações dos indivíduos são extremamente relevantes para qualquer pessoa que procure compreender o mundo em que vivemos. As motivações declaradas pelas pessoas não podem ser tomadas como garantidas, e aquilo que fazem antes e depois de empreenderem determinada acção é importante na tentativa de perceber porque actuaram da forma como actuaram.
A Ciência da Liberdade
Ao longo da sua prodigiosa carreira, Rothbard realizou avanços revolucionários não numa, nem em duas, mas em múltiplas disciplinas. Ao fazê-lo, mostrou como o libertarianismo é uma poderosa construção arquitectónica erguida a partir de teorias lógicas e estudos de caso detalhados. A ciência da liberdade demonstra, entre muitas outras coisas, que (1) o livre mercado é uma estrutura interligada cujo mecanismo promove a abundância, enquanto as restrições governamentais produzem o oposto, (2) o governo é antitético ao mercado e funciona através da força e da manipulação da população, e (3) os acontecimentos humanos devem ser compreendidos como consequências de actores que possuem os seus próprios motivos. Todos estes ensinamentos apontam para e reforçam a conclusão do libertarianismo: a liberdade humana conduz à prosperidade; a coerção governamental conduz à regressão.
Rothbard nunca viveu na década de 2020, muito menos no século XXI. Nunca conheceremos a sua avaliação singular dos avanços tecnológicos, da situação política actual, dos confinamentos da covid ou da nova guerra com o Irão. Mas podemos utilizar a sua ciência da liberdade para explicar estes acontecimentos e muito mais. É por isso que Rothbard permanece tão relevante como sempre e é por isso que 2026 é o Ano de Rothbard.
Artigo publicado originalmente na revista The Misesian, 3, n.º 2 (Março/Abril de 2026): 6–16. e republicado no Mises Institute.
