A administração Trump impôs unilateralmente — sem qualquer debate ou votação no Congresso, evidentemente — mais uma guerra aos americanos. Desta vez, trata-se de uma campanha militar em larga escala contra o Irão. Houve algum clamor público em apoio a esta guerra? O Congresso votou para gastar mais dólares dos contribuintes americanos em mais uma guerra? Aparentemente não. Segundo uma sondagem da Reuters de 1 de Março, apenas 27% dos americanos inquiridos disseram apoiar a nova guerra dos EUA contra o Irão. Escusado será dizer que poucos americanos têm telefonado aos seus representantes no Congresso a pedir mais uma guerra no Médio Oriente.
Então, porque estão agora os EUA em guerra com o Irão? Nem sequer a própria administração parece saber ao certo. Depois de a guerra já ter começado, a Casa Branca alterou repetidamente a justificação apresentada para iniciar as hostilidades contra o Irão. No início, o regime americano afirmava querer uma mudança de regime no Irão para “libertar” os iranianos. Contudo, na segunda-feira, quando Trump enumerou as suas razões para iniciar a guerra, nem sequer mencionou a mudança de regime. Em vez disso, a administração parece agora ter optado pela alegação de que o regime iraniano estava a desenvolver um programa de mísseis que, de alguma forma, ameaça os Estados Unidos. No entanto, praticamente ninguém acredita que o regime iraniano tenha alguma vez possuído mísseis de longo alcance capazes de chegar sequer perto do território americano. Na realidade, a única “ameaça” aos Estados Unidos é uma ameaça às bases americanas que o governo dos EUA insistiu em construir a 10.000 milhas do seu próprio território e que nada têm a ver com a segurança dos americanos dentro dos Estados Unidos.
Na segunda-feira, Rubio afirmou que os Estados Unidos iniciaram a guerra porque o Estado de Israel planeava atacar o Irão, e que isso levaria a represálias iranianas contra bases americanas. Rubio estava essencialmente a dizer que Telavive forçou os EUA a entrar na guerra. Hoje, Trump contradisse directamente o seu secretário de Estado — bem como o presidente republicano da Câmara dos Representantes e o senador republicano Tom Cotton — e afirmou: “Talvez tenha sido eu a forçar a mão deles.”
Completamente ausente de todas estas tentativas confusas e retroactivas de justificar a guerra está qualquer referência ao povo americano, aos seus impostos, às suas liberdades, ou sequer aos seus alegados representantes no Congresso. Isto não é surpreendente. A guerra actual é um lembrete oportuno de que as elites governantes dos EUA encaram os contribuintes americanos e os cidadãos comuns pouco mais como um incómodo secundário na formulação da política externa americana. Ao mesmo tempo, o regime americano continua a afirmar possuir superioridade moral precisamente porque seria supostamente “democrático”, com o apoio “do povo”.
De facto, a administração Trump, no seu conjunto, ajudou a tornar abundantemente claro que as eleições americanas e a opinião pública são quase completamente irrelevantes para a política externa. Ao longo das suas campanhas, Donald Trump afirmou repetidamente ser o candidato da paz, anunciando nos seus discursos que iria acabar com guerras, em vez de as iniciar. Nos dias que antecederam as eleições de 2024, o Partido Republicano publicou esta imagem nas redes sociais, apresentando claramente a administração Trump como “a candidatura pró-paz” [the pro-peace ticket].

Contudo, menos de um ano após o início do seu segundo mandato, a política externa de Donald Trump parece praticamente indistinguível da política externa de Barack Obama ou Joe Biden. Na verdade, se a guerra actual se prolongar, poderemos dizer que a política externa de Trump faz lembrar a da administração de George W. Bush.
Durante a campanha ficou claro que a candidatura de Trump tentava tirar partido de um sentimento público favorável a uma menor intervenção americana em guerras estrangeiras. No entanto, no que toca à política externa americana, as eleições não importam. Isto foi recentemente sublinhado pelo atrapalhado embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, numa entrevista recente com Tucker Carlson. Carlson começou com uma pergunta simples para Huckabee:
Carlson: Até que ponto importa aquilo que os americanos pensam?
Huckabee: Bem, importa totalmente aquilo que os americanos pensam.
Carlson observa então que cerca de 21% dos americanos apoiam uma guerra contra o Irão. Pergunta a Huckabee se isso é suficiente para o regime americano iniciar uma guerra contra o Irão. Huckabee responde: “Não vivemos num mundo em que se faz uma sondagem para descobrir se a nossa política deve seguir uma determinada direcção…”
Carlson observa então que Huckabee acabara de dizer que a opinião pública importa muito, ao que Huckabee responde: “preocupamo-nos profundamente com ela…”
Carlson: “Se a ignoramos, em que sentido é que ‘nos preocupamos profundamente’ com ela?”
Huckabee responde então com um non sequitur: “Penso que nos preocupamos profundamente quando vemos que existe uma ameaça.” Huckabee continuou depois com mais discurso confuso numa tentativa desesperada de estabelecer uma ligação entre a opinião pública e a sua política preferida de iniciar repetidamente guerras opcionais contra regimes do Médio Oriente que não representam qualquer ameaça para a população dos EUA.
A realidade, claro, está mais próxima da explicação de Rubio para o envolvimento americano na guerra: seguir a liderança do Estado de Israel.
Isto parece ser perfeitamente aceitável para o embaixador Huckabee, naturalmente, que na entrevista com Carlson foi questionado se acreditava que o Estado de Israel tinha o “direito” de tomar posse da maior parte do Médio Oriente. Carlson perguntou: “Israel tem direito a essa terra?” Huckabee respondeu: “Não haveria problema nenhum se ficassem com tudo.”
E se a maioria dos americanos não partilhar essa opinião? Claramente, o regime americano não se importa — e Huckabee, ou Donald Trump, também não.
Apesar de toda a retórica do regime americano sobre “a vontade do povo” e “a representação” no Congresso, o que realmente importa em Washington é servir grupos de interesse poderosos. O público contribuinte existe simplesmente como um recurso a ser espremido em benefício de guerras, proteccionismo e despesa federal que serve o complexo sistema de patronos e clientes das elites governantes que as mantém no poder.
Quando se trata da política externa dos EUA no Médio Oriente, o grupo de interesse dominante é o Estado de Israel. Isto concretiza-se através do American-Israeli Political Action Committee (AIPAC) e de outros elementos daquilo a que os estudiosos de política externa John Mearsheimer e Stephen Walt chamam “o lobby israelita”. Quando Mearsheimer e Walt publicaram o seu livro The Israel Lobby em 2007, foram previsivelmente acusados de anti-semitismo. Contudo, o livro estava à frente do seu tempo ao descrever como os grupos de interesse pró-Israel têm sido extremamente bem-sucedidos em obter favores financeiros, militares e estratégicos para Israel junto dos decisores políticos americanos. Tudo isto foi feito à custa dos contribuintes americanos. O resultado foi uma elite de política externa americana que favorece esmagadoramente a intervenção estrangeira incessante para beneficiar um Estado estrangeiro — o Estado de Israel — independentemente de qualquer preocupação com os custos suportados pelos americanos ou com o risco de arrastar os EUA para conflitos mais amplos que em nada aumentam a segurança dos Estados Unidos.
Em 2007, The Israel Lobby pareceu controverso para muitos. Em 2026, é apenas a constatação do óbvio: a política externa dos EUA é moldada para favorecer determinados grupos de interesse, e não os interesses dos eleitores comuns. Mas é assim que funciona toda a política baseada em grupos de interesse. O público votante não importa — e já não importa há muito tempo.
Isto é demonstrado por estudos empíricos que procuraram encontrar uma ligação entre a opinião pública e as políticas efectivamente adoptadas em Washington. A ligação é, na melhor das hipóteses, ténue.
Por exemplo, num estudo de 2014 de Martin Gilens e Benjamin Page, os autores observam que, no que toca aos “impactos na política governamental dos EUA… os cidadãos comuns e os grupos de interesse de base popular têm pouca ou nenhuma influência independente”. Gilens e Page acrescentam que “as preferências das elites económicas… têm um impacto independente muito maior na mudança de políticas do que as preferências dos cidadãos comuns”.
Isto também se pode ver no próprio financiamento de campanha de Trump, dado que uma das suas maiores doadoras, a multimilionária Miriam Adelson, é conhecida pelas suas posições extremamente pró-Israel. Isto reflecte-se, não surpreendentemente, na política externa de Trump.
As conclusões finais de Gilens e Page são claras:
Nos Estados Unidos, os nossos resultados indicam que a maioria não governa — pelo menos não no sentido causal de determinar efectivamente os resultados das políticas. Quando a maioria dos cidadãos discorda das elites económicas ou dos interesses organizados, geralmente perde. Além disso, devido ao forte viés de manutenção do status quo incorporado no sistema político dos EUA, mesmo quando maiorias bastante amplas de americanos favorecem mudanças de política, geralmente não as obtêm.
Talvez nenhum grupo de “elites económicas” seja mais influente na política externa do que aqueles que controlam os fundos de campanha distribuídos através de grupos de interesse pró-Israel como o AIPAC, ou através do financiamento de indivíduos ricos como Adelson.
Outros estudos chegaram a conclusões semelhantes. Por exemplo, num artigo de 2017 sobre preferências dos eleitores, John Matsusaka concluiu que as preferências dos legisladores não se correlacionam com as preferências dos eleitores:
Quando as preferências dos legisladores diferiam da opinião do distrito [district opinion]1 sobre um tema, os legisladores votavam de acordo com a opinião do distrito apenas 29% das vezes. Os dados não mostram uma ligação fiável entre essa concordância e eleições competitivas, limites de mandato, contribuições de campanha ou atenção mediática. As evidências são mais consistentes com a hipótese de um modelo de cidadão-candidato em que os legisladores votam de acordo com as suas próprias preferências.
Naturalmente, não existe algo como uma “opinião do distrito”, mas a ideia geral é suficientemente clara: se o financiamento de campanha de um legislador depende de agradar a um grupo de interesse específico, então as preferências dos eleitores pouco importam.
De modo semelhante, num estudo por Michael Barber em 2016 , este escreve que os votos no Senado dos EUA têm pouca relação com a opinião pública: “As preferências dos senadores divergem dramaticamente das preferências do eleitor médio do seu estado. O grau de divergência é quase tão grande como se os eleitores fossem atribuídos aleatoriamente a um senador.”
Se os decisores políticos são em grande medida independentes dos eleitores que supostamente “representam”, então o que determina a política federal?
A guerra actual é apenas o mais recente lembrete de que o pluralismo está errado e de que a teoria das elites está certa. Não existe “nós, o povo”. Não existe “democracia representativa”. E, quando se trata das grandes questões — como a guerra, a despesa federal ou o banco central — as eleições não importam. É por isso que, independentemente de quem é eleito, a política externa americana prossegue mais ou menos como sempre, ano após ano após ano.
É por isso que não importa que apenas cerca de um em cada quatro americanos esteja disposto a suportar mais uma guerra no Médio Oriente sem benefícios aparentes para o americano médio. É também por isso que a administração continua a apresentar justificações mutáveis para a origem deste conflito. A administração sabe que a alegação de que o Irão representa uma ameaça para o povo americano não é sustentável, estando ao mesmo nível das alegações sobre as armas de destruição maciça no Iraque. Mas o regime também não pode simplesmente admitir: “os nossos financiadores pró-Israel disseram-nos para combater o Irão”. Assim, temos Rubio a dizer-nos que a guerra foi um “ataque preventivo” contra as possíveis repercussões de ataques israelitas contra o Irão financiados pelos EUA. Esta explicação já está a desmoronar-se, razão pela qual Trump agora a nega.
No fim de contas, o regime nem sequer precisa realmente de apresentar uma explicação plausível. As consequências políticas recairão sobretudo sobre a actual administração, e isso terá pouco efeito sobre a verdadeira elite governante, que permanece no controlo independentemente do partido que esteja ostensivamente “no poder”
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
- Uma district opinion (ou, mais formalmente, District Court Opinion) é um documento escrito emitido por um juiz de um tribunal distrital federal dos Estados Unidos que expõe o raciocínio jurídico e a análise que fundamentam a sua decisão num caso. Representa a decisão final ao nível de primeira instância, relativa a matérias como moções, julgamentos ou acordos. [N. do T.] ↩︎
