[The Writing on the Wall with Milei]
Quando se trata de Milei, os sinais eram evidentes: qualquer pessoa que tenha vindo a acompanhar o seu curto mas desastroso período no poder não ficará surpreendida com as imagens recentes que circulam nas redes sociais, de uma conferência de imprensa conjunta com Netanyahu em 2025.1 Mais importante do que as imagens foi o anúncio que o chefe e o seu subordinado fizeram à Argentina e à comunidade internacional: um acordo público segundo o qual toda a Argentina (1.073.518 milhas quadradas) se tornaria um lar de reforma para “cidadãos” israelitas. Muitos ficaram chocados ao ver isto; parecia saído directamente de uma teoria da conspiração sobre o Plano Andinia — segundo o qual existe ou existiu um plano para estabelecer um estado judaico no Chile e na Argentina —; para aqueles de nós que mantiveram os olhos abertos, esta invasão não foi surpresa. Mas, para os restantes, significou que finalmente puderam ver com os seus próprios olhos qual tem sido o verdadeiro programa de Milei, desde o momento em que colocou a mira na presidência, ou até antes.
O programa é incrivelmente simples, sinistro, e a encarnação de tudo aquilo que um verdadeiro libertário deve detestar:
Primeiro, abrir as comportas a israelitas, oligarcas sionistas, fornecedores americanos, e qualquer pessoa a eles ligada para saquear os recursos da Argentina — abrindo as portas ao saque à custa da nação argentina, uma política de Israel primeiro, Argentina por último.
Segundo, apostar tudo em tornar-se, nas suas próprias palavras (em resposta a Hans-Hermann Hoppe), “o presidente mais sionista do mundo.”2 Isso significa passar um cheque em branco a todos os crimes que Israel cometeu desde 8 de Outubro, e promulgar leis draconianas contra os dois papões da política moderna, isto é, “terrorismo” e “antissemitismo” — uma forma repugnante de retirar direitos civis a qualquer pessoa que considere o genocídio condenável.
Terceiro, transformar o libertarianismo num lobo em pele de cordeiro — um movimento de propriedade, liberdade e paz transformado num movimento de saque, subordinação a potências estrangeiras e sede de guerra. Pior ainda, tornou-se um cavalo de Tróia para o sionismo e para o estado assistencialista-beligerante [welfare-warfare] dentro do movimento libertário, poluindo-o e corroendo-o a partir de dentro.
Os sinais eram evidentes, letras tão grandes que só um avestruz com a cabeça enterrada no chão poderia não as ver. Por onde começar? Desde os primeiros momentos da sua carreira política, ficou sob a influência de dois homens. Um, um rabino, de nome Axel Wahnish,3 foi o seu “conselheiro espiritual” e é agora o embaixador argentino em Israel. O outro, Eduardo Elsztain,4 é membro de Chabad, uma seita judaica ultra-ortodoxa de linha dura, construída em torno do culto de personalidade do rabino Menachem Mendel Schneerson, que, entre outras coisas, afirmou que “existem dois tipos contrários de alma: uma alma não-judaica provém de três esferas satânicas, enquanto a alma judaica deriva da santidade.”5 O hotel de Elsztain tem sido um refúgio de Milei, e os seus fóruns têm sido o local perfeito para Milei proferir os seus discursos pseudolibertários e construir a sua rede sinistra. Escusado será dizer que o sionismo é uma segunda natureza para ambos, e que estão muito para além dos habituais sionistas cristãos a que todos nos habituámos: traçam o retrato de quão enraizado tem estado o supremacismo no círculo interno de Milei anos antes de ele se tornar presidente.
A Argentina é importante para a política mundial por uma razão: recursos naturais. A Argentina tem muita terra, agricultura, gás natural, mineração (cobre e ouro), uma quantidade considerável de petróleo e acesso a uma das maiores reservas de lítio6 do mundo. Em todas estas frentes, empresas israelitas, tanto públicas como privadas, têm estado directamente envolvidas. A Mekorot é uma empresa estatal israelita; opera em todo o país, gerindo metade da sua água desde 2022 (antes do tempo de Milei) e exerce um controlo cada vez mais apertado.7 O que começou pela água alargou-se a sectores e recursos dependentes da água: agricultura, lítio, cobre e hidrocarbonetos não-convencionais. A Mekorot opera em muitos países, incluindo a Palestina e a Faixa de Gaza, onde as suas acções têm sido uma entre muitas levadas a cabo pelo estado israelita para limpar etnicamente os habitantes nativos da terra. No que diz respeito ao petróleo, a Argentina foi novamente humilhada: a empresa petrolífera israelita Navitas Petroleum delineou um plano de exploração petrolífera na região das Malvinas [Falkland Islands], denominado “Project Sea Lion”.8 A área continua em disputa, uma vez que a Argentina não reconhece as reivindicações britânicas sobre as Malvinas e as águas circundantes. O governo anterior tinha emitido um aviso à empresa, dizendo à entidade israelita para se manter afastada das águas disputadas entre a Argentina e o Reino Unido. Mas entra o homem de direita, e é instituída uma política de recuo nos interesses nacionais: Milei fechou os olhos, o que equivale a um cheque em branco para a Navitas e as suas operações. Curiosamente, Elsztain, amigo de Milei — imagine-se —, é um cidadão argentino que usa a sua grande fortuna para armar os britânicos nas Malvinas.9 Finalmente, quanto ao lítio, a empresa israelita XtraLIT associou-se à empresa argentina YPF para implementar a extracção directa de lítio.10 Por outras palavras, encontramos empresas israelitas públicas ou financiadas publicamente a extrair recursos a uma escala que não seria possível sem o seu sátrapa sionista em Buenos Aires. Escusado será dizer que isto é o oposto da primapropriação e da troca; trata-se de uma ilustração da natureza de Israel, que Saifedean Ammous descreveu acertadamente como uma agência de roubo de terras.11
Qualquer pessoa que tenha vindo a acompanhar o período de Milei no poder não ficará surpreendida com o desfecho: Milei é mais um sátrapa da busca de domínio mundial por parte de USrael; o seu único propósito é permitir que os Estados Unidos e Israel prolonguem a sua existência como uma violação viva do direito natural e do direito internacional. Não, isto não é uma surpresa, mas há algo que é. Tem sido chocante de observar, e uma grande desilusão, a forma como libertários estiveram dispostos a vender os seus princípios para granjear favor junto de Milei; e uma desilusão ainda maior foi o grupo ainda mais vasto daqueles que optaram pelo silêncio em vez de denunciar Milei como a fraude que é, e a natureza desastrosa das suas políticas sionistas, ou antes, supremacistas. Esses libertários, como Philip Bagus, Huerta de Soto ou Walter Block, que fecharam os olhos à verdade de que Milei é “o maior sionista do mundo”, receberam prémios e recompensas da sua parte e, sempre que alguém apontava o facto de Milei ser um apoiante activo de genocídio televisionado, respondiam que a posição de Milei sobre Israel e o seu genocídio em Gaza não importa, desde que ele promova “a mensagem libertária”. Ao fazê-lo, admitem que não se importam nem com o genocídio nem com princípios. Mancharam o nome do nosso movimento e traíram os ideais pelos quais ele vive e morre. Tornaram-se aquilo a que Rothbard chamou (trabalhando a partir da estratégia marxista para construir uma filosofia libertária de estratégia, como Oscar Grau nos recordou)12 “oportunismo de direita”, defensores de uma estratégia política sem princípios, sem plano e com ganhos de curto prazo trocados por derrota a longo prazo. A tomada de controlo de Milei sobre o libertarianismo argentino, alemão e espanhol só carece do Mises Institute. Os aplausos dados ao seu mentor Huerta de Soto são um sinal do seu futuro mileísta e um presságio de desastre para o instituto que Lew Rockwell e Murray Rothbard construíram.
O que deve ser feito? É um imperativo moral dos libertários dissociarem-se daqueles que utilizam as nossas ideias como marca para o supremacismo. Dissociarem-se de qualquer pessoa que apoie um presidente que transforma o seu país num resort de verão para criminosos de guerra israelitas, e que utiliza cada palavra que profere para sinalizar que aceita o genocídio e o saque, desde que sejam cometidos pelo grupo “certo” de pessoas.
- “O Governo Nacional concederá subsídios e prestações a israelitas que venham para a Argentina.” 17 de Junho de 2025. ↩︎
- Buenos Aires Herald. “Milei: ‘Sou o presidente mais sionista do mundo’.” 10 de Março de 2026. ↩︎
- Aish Latino. “O rabino e guia espiritual do presidente Milei assume como embaixador em Israel.” 8 de Julho de 2024. ↩︎
- El País (English Edition). “Eduardo Elsztain: o empresário que sussurra a Javier Milei, da Argentina.” 9 de Março de 2025. ↩︎
- Alison Weir, “Porque está os EUA a homenagear um rabino racista? As origens extremistas do Education and Sharing Day,” The Unz Review, 7 de Abril de 2014. ↩︎
- Nota: O lítio explica por que razão Silicon Valley está interessado na Argentina. A Argentina, juntamente com a Bolívia e o Chile, faz parte do “Triângulo do Lítio”, concentrando 53% dos depósitos de lítio identificados no mundo; ao mesmo tempo, pelo menos 60% do lítio nos EUA é importado, principalmente do Chile e da Argentina. O lítio é necessário para fabricar baterias portáteis que alimentam muitas empresas e os seus produtos; por exemplo, as baterias da Tesla baseiam-se em lítio. Mais importante ainda, o lítio é necessário para alimentar os centros de dados de que a IA depende, e a IA é um elemento central da actividade do Valley. A Palantir Technologies (que tem como principal cliente o Departamento da Defesa e desenvolve software de targeting utilizado por Israel para matar habitantes de Gaza, entre outras coisas) necessita de lítio para os seus centros de dados, e permite a extracção optimizada deste mineral e de outros graças aos sistemas de dados e software que fornece às empresas. Em particular, na Rio Tinto, a tecnologia da Palantir tem sido utilizada. Já agora, pode acrescentar-se que, embora a XtraLit e a Mekorot sejam empresas distintas, ambas operam sob o guarda-chuva do alinhamento estratégico Argentina–Israel e ambas dependem de decisões relativas aos recursos hídricos moldadas pela Mekorot. ↩︎
- Prism Reports, “A empresa nacional de água de Israel aponta à Argentina,” 10 de Fevereiro de 2026. ↩︎
- Wingrove, Martyn. “Navitas e Rockhopper tomam FID no Sea Lion das Malvinas de 2,1 mil milhões de dólares.” Riviera Maritime Media, 11 de Dezembro de 2025. ↩︎
- Realpolitik, “Eduardo Elsztain, o empresário que financia Javier Milei e arma os britânicos nas Ilhas Malvinas,” 12 de Novembro de 2025. ↩︎
- Reuters. “Y-TEC da YPF da Argentina assina acordo com a israelita XtraLit para extracção directa de lítio.” 5 de Maio de 2025. ↩︎
- Saifedean Ammous, “PFS309 | Direitos de propriedade: a causa raiz do conflito palestiniano-israelita” Property and Freedom Podcast (2 de Fevereiro de 2026). [Ver também a tradução portuguesa aqui. N. do T.] ↩︎
- Oscar Grau, “Em defesa do legado de Murray Rothbard,” The Unz Review, 8 de Janeiro de 2026. ↩︎
Artigo publicado originalmente na Property and Freedom Society.
