I
Numa noite do Outono passado, passei longas horas com um conhecido europeu enquanto ele expunha uma doutrina político-económica que me parecia perfeitamente sólida e na qual não conseguia encontrar qualquer defeito. No fim, disse-me com grande seriedade: “Tenho uma missão junto das massas. Sinto que sou chamado a fazer-me ouvir pelo povo. Dedicarei o resto da minha vida a difundir a minha doutrina por toda a população. Que pensa disso?”
Era uma pergunta embaraçosa em qualquer circunstância, e duplamente embaraçosa naquele caso, porque o meu conhecido é um homem de enorme erudição, uma das três ou quatro mentes verdadeiramente de primeira ordem que a Europa produziu na sua geração; e, naturalmente, eu, sendo um dos não-eruditos, inclinava-me a receber até a mais ligeira das suas palavras com uma reverência próxima do assombro.
Ainda assim, reflecti, nem sequer a maior das mentes pode saber tudo, e eu tinha quase a certeza de que ele não tivera as oportunidades que eu tivera de observar as massas humanas e que, portanto, eu provavelmente as conhecia melhor do que ele. Assim, reuni coragem para lhe dizer que não tinha missão alguma desse género e que faria bem em tirar imediatamente essa ideia da cabeça; descobriria que as massas não ligariam patavina à sua doutrina, e ainda menos a ele próprio, pois em circunstâncias destas o favorito popular é geralmente algum Barrabás. Cheguei mesmo ao ponto de dizer (ele é judeu) que a sua ideia parecia revelar que não conhecia muito bem a sua própria literatura. Sorriu com o meu gracejo e perguntou-me o que queria dizer; remeti-o então para a história do profeta Isaías.
Ocorreu-me nessa altura que vale muito a pena recordar esta história em particular agora, quando tantos sábios e adivinhos parecem carregados de uma mensagem para as massas. O Dr. Townsend tem uma mensagem, o Padre Coughlin tem outra, o Sr. Upton Sinclair, o Sr. Lippmann, o Sr. Chase e os confrades da economia planificada, o Sr. Tugwell e os New Dealers, o Sr. Smith e os Liberty Leaguers — a lista não tem fim. Não consigo recordar uma época em que tantos energúmenos proclamassem de formas tão diversas a Palavra à multidão, dizendo-lhe o que tinha de fazer para se salvar. Sendo assim, ocorreu-me, como dizia, que a história de Isaías talvez tivesse algo capaz de firmar e serenar o espírito humano até que passe esta tirania de verbosidade. Parafrasearei a história na nossa linguagem corrente, uma vez que é necessário recompô-la a partir de várias fontes; e, visto que respeitáveis estudiosos acharam por bem publicar uma versão inteiramente nova da Bíblia em vernáculo americano,1 abrigar-me-ei atrás deles, se necessário, contra a acusação de tratar irreverentemente as Sagradas Escrituras.
A carreira do profeta começou no fim do reinado do rei Uzias, por volta de 740 a.C. Este reinado foi invulgarmente longo, quase meio século, e aparentemente próspero. Foi, porém, um daqueles reinados prósperos — como o de Marco Aurélio em Roma, ou a administração de Eubulo em Atenas, ou a do Sr. Coolidge em Washington — em que, no fim, a prosperidade subitamente se esvai e tudo se desmorona com grande estrondo.
No ano da morte de Uzias, o Senhor encarregou o profeta de sair e advertir o povo da ira que estava para vir. “Diz-lhes que bela cambada de inúteis são”, disse Ele. “Diz-lhes o que está mal, porquê, e o que vai acontecer a menos que mudem de coração e se emendem. Não meças as palavras. Deixa bem claro que chegaram, positivamente, à última oportunidade. Diz-lhes tudo sem rodeios, com toda a força, e continua a dizê-lo. Suponho que talvez deva avisar-te”, acrescentou Ele, “de que não servirá de nada. A classe oficial e a sua intelligentsia torcerão o nariz ao que disseres, e as massas nem sequer ouvirão. Todos continuarão pelos seus próprios caminhos até levarem tudo à destruição, e provavelmente terás sorte se conseguires escapar com vida.”2
Isaías estivera muito disposto a aceitar o trabalho — na verdade, fora ele próprio que se oferecera —, mas esta perspectiva dava um novo aspecto à situação. Levantava a pergunta óbvia: se tudo aquilo era verdade — se a empresa estava condenada ao fracasso desde o início —, que sentido tinha sequer começá-la? “Ah”, disse o Senhor, “não percebeste. Há aí um Remanente3 do qual nada sabes. São obscuros, desorganizados, inarticulados, cada qual aguentando-se como melhor pode. Precisam de ser encorajados e fortalecidos porque, quando tudo tiver ido completamente por água abaixo, serão eles que regressarão e construirão uma nova sociedade; e, entretanto, a tua pregação dar-lhes-á confiança e ajudá-los-á a perseverar. O teu trabalho é cuidar do Remanente; portanto, vai agora e trata disso.”
II
Aparentemente, portanto, se a palavra do Senhor vale alguma coisa — não ofereço opinião alguma a esse respeito —, o único elemento da sociedade judaica com que valia particularmente a pena preocupar-se era o Remanente. Isaías parece ter finalmente conseguido meter na cabeça que assim era; que nada se podia esperar das massas, mas que, se alguma coisa de substancial viesse alguma vez a ser feita na Judeia, teria de ser o Remanente a fazê-la. É uma ideia muito notável e sugestiva; mas, antes de prosseguirmos na sua exploração, precisamos de deixar bem claros os nossos termos. Que queremos dizer por massas, e que queremos dizer por Remanente?
Tal como a palavra massas é comummente usada, sugere aglomerações de pobres e desfavorecidos, trabalhadores, proletários, mas não significa nada disso; significa simplesmente a maioria. O homem da massa é aquele que não possui nem o vigor intelectual necessário para apreender os princípios que resultam daquilo que conhecemos como a vida propriamente humana, nem a força de carácter necessária para aderir firme e rigorosamente a esses princípios como regras de conduta; e, porque tais pessoas constituem a grande e esmagadora maioria da humanidade, são colectivamente chamadas as massas. A linha de diferenciação entre as massas e o Remanente é invariavelmente determinada pela qualidade, não pelas circunstâncias. O Remanente é constituído por aqueles que, pela força do intelecto, são capazes de apreender esses princípios e, pela força do carácter, são capazes, pelo menos em alguma medida, de se manter fiéis a eles. As massas são aqueles que não conseguem fazer nem uma coisa nem outra.
O retrato que Isaías apresenta das massas judaicas é extremamente desfavorável. Na sua perspectiva, o homem da massa — seja ele de elevada ou humilde condição, rico ou pobre, príncipe ou indigente — fica muito mal visto. Surge não só como intelectualmente débil e de vontade fraca, mas, em consequência disso, também como velhaco, arrogante, ganancioso, dissoluto, sem princípios e sem escrúpulos. A mulher da massa também não fica bem vista, pois partilha todas as qualidades indesejáveis do homem da massa e acrescenta algumas próprias sob a forma de vaidade e preguiça, extravagância e afectação. A lista de produtos de luxo que consumia é interessante; faz lembrar a página feminina de um jornal de Domingo de 1928, ou a montra apresentada por uma das nossas revistas que se pretendem “elegantes”. Noutro lugar, Isaías chega mesmo a evocar os maneirismos que costumávamos conhecer como o “andar afectado das jovens da moda” e o “porte lânguido das debutantes”. Talvez seja justo descontar alguma da vivacidade de Isaías por conta do fervor profético; afinal, como o seu verdadeiro trabalho não era converter as massas, mas fortalecer e dar ânimo ao Remanente, provavelmente achava que podia exagerar à vontade e indiscriminadamente — na verdade, era precisamente isso que dele se esperava. Mas, mesmo assim, o homem da massa judaica devia ser um indivíduo extremamente desagradável, e a mulher da massa absolutamente odiosa.
Se o espírito moderno, seja lá isso o que for, não estiver inclinado a aceitar a palavra do Senhor pelo seu valor facial (como ouço dizer que é o caso), podemos observar que o testemunho de Isaías sobre o carácter das massas encontra forte apoio colateral da respeitável autoridade gentia. Platão viveu até à administração de Eubulo, quando Atenas se encontrava no auge da sua era do jazz e papel, e fala das massas atenienses com todo o fervor de Isaías, chegando mesmo a compará-las a uma manada de feras vorazes. Curiosamente, também ele aplica a própria palavra de Isaías, remanente [ou resto], à parcela mais digna da sociedade ateniense; “existe apenas um pequeníssimo remanente”, diz ele, daqueles que possuem uma força salvífica de intelecto e de carácter — demasiado pequeno, exactamente como na Judeia, para conseguir fazer alguma coisa contra a preponderância ignorante e viciosa das massas.
Mas Isaías era um pregador e Platão um filósofo; e tendemos a encarar pregadores e filósofos mais como observadores passivos do drama da vida do que como participantes activos. Por conseguinte, numa questão deste género, poderia suspeitar-se que o seu juízo fosse um pouco intransigente, um pouco acre ou, como dizem os franceses, saugrenu. Podemos, portanto, apresentar outra testemunha que foi, por excelência, um homem de acção, e cujo juízo não pode ficar sujeito a esta suspeita. Marco Aurélio foi governante do maior dos impérios e, nessa qualidade, não só teve o homem da massa romano sob observação, como teve de lidar com ele vinte e quatro horas por dia durante dezoito anos. Aquilo que não sabia sobre ele não valia a pena saber; e o que pensava dele encontra-se abundantemente atestado em quase todas as páginas do pequeno livro de apontamentos que rabiscava informalmente de dia para dia e que nunca pretendeu que olhos alguns, além dos seus, viessem a ver.
Esta visão das massas é aquela que encontramos largamente predominante entre as autoridades antigas cujos escritos chegaram até nós. No século XVIII, porém, certos filósofos europeus difundiram a ideia de que o homem da massa, no seu estado natural, não é de todo o género de pessoa que as autoridades anteriores diziam ser, mas, pelo contrário, que é um digno objecto de interesse. As suas qualidades indesejáveis são efeito do ambiente, efeito pelo qual a “sociedade” é, de algum modo, responsável. Se apenas o seu ambiente lhe permitisse viver segundo as suas próprias luzes, revelar-se-ia, sem dúvida, um sujeito notável; e a melhor maneira de lhe assegurar um ambiente mais favorável seria deixá-lo organizá-lo por si próprio. A Revolução Francesa funcionou poderosamente como plataforma de lançamento desta ideia, projectando a sua influência em todas as direcções por toda a Europa.
Deste lado do oceano, todo um novo continente estava pronto para uma experiência em grande escala com esta teoria. Oferecia todos os recursos concebíveis para que as massas pudessem desenvolver uma civilização feita à sua semelhança e segundo a sua própria imagem. Não havia força de tradição que perturbasse a sua preponderância ou que as impedisse de depreciar sistematicamente o Remanente. Imensa riqueza natural, predominância incontestada, isolamento virtual, liberdade relativamente a interferências externas e ao receio delas e, por fim, um século e meio de tempo — tais foram as vantagens de que o homem da massa dispôs para produzir uma civilização que deveria desmentir os pregadores e filósofos anteriores na sua convicção de que nada de substancial se pode esperar das massas, mas apenas do Remanente.
O seu êxito é pouco impressionante. Perante as provas até agora apresentadas, creio que se deva dizer que a concepção do homem da massa acerca daquilo que a vida tem para oferecer, e a sua escolha daquilo que há-de pedir à vida, parecem ser hoje praticamente as mesmas que eram nos tempos de Isaías e Platão; e o mesmo parece suceder com os conflitos e convulsões sociais catastróficos nos quais a sua visão da vida e as suas exigências à vida o envolvem. Não desejo insistir neste ponto, mas apenas observar que a importância monstruosamente inflacionada das massas parece ter afastado por completo da cabeça do profeta moderno qualquer ideia de uma possível missão junto do Remanente. Isto é, obviamente, como deve ser, desde que os antigos pregadores e filósofos estivessem efectivamente errados e que toda a esperança última da raça humana esteja de facto centrada nas massas. Se, por outro lado, vier a verificar-se que o Senhor, Isaías, Platão e Marco Aurélio tinham razão na sua avaliação do valor social relativo das massas e do Remanente, a situação é um pouco diferente. Além disso, uma vez que, apesar de terem tido tudo a seu favor, as massas deram até agora uma imagem tão extraordinariamente desanimadora de si mesmas, pareceria que a questão em disputa entre estes dois corpos de opinião pode ser reaberta com bastante proveito.
III
Mas, sem prosseguir com esta sugestão, desejo apenas, como disse, assinalar o facto de que, tal como as coisas estão, o trabalho de Isaías parece não ter quem o faça. Hoje em dia, todos os que têm uma mensagem são, como o meu venerável amigo europeu, ávidos por levá-la às massas. O seu primeiro, último e único pensamento é a aceitação e aprovação das massas. A sua grande preocupação consiste em dar à sua doutrina uma forma capaz de captar a atenção e o interesse das massas. Esta atitude perante as massas é tão exclusiva, tão devota, que faz lembrar o monstro troglodita descrito por Platão e a multidão diligente à entrada da sua caverna, tentando obsequiosamente apaziguá-lo e conquistar o seu favor, tentando interpretar os seus ruídos inarticulados, tentando descobrir o que deseja e oferecendo-lhe avidamente toda a espécie de coisas que julgam poder agradar-lhe.
O principal problema de tudo isto é a sua repercussão sobre a própria missão. Torna necessária uma adaptação oportunista da doutrina, que altera profundamente o seu carácter e a reduz a um mero placebo. Se, por exemplo, é um pregador, deseja atrair uma congregação tão numerosa quanto possível, o que significa apelar às massas; e isso, por sua vez, significa adaptar os termos da sua mensagem ao nível de intelecto e carácter que as massas revelam. Se é educador, digamos que tem um colégio a seu cargo, deseja obter o maior número possível de alunos e, em conformidade, reduz as suas exigências. Se é escritor, procura obter muitos leitores; se editor, muitos compradores; se filósofo, muitos discípulos; se reformador, muitos convertidos; se músico, muitos ouvintes; e assim por diante. Mas, como vemos por todo o lado, na concretização destes vários desejos, a mensagem profética é, em todos os casos, tão fortemente adulterada com trivialidades que o seu efeito sobre as massas consiste apenas em endurecê-las nos seus pecados. Entretanto, o Remanente, consciente dessa adulteração e dos desejos que a motivam, vira as costas ao profeta e não quer ter nada que ver com ele nem com a sua mensagem.
Isaías, pelo contrário, não trabalhava sob limitações destas. Pregava às massas apenas no sentido de que pregava publicamente. Quem quisesse podia ouvir; quem quisesse podia passar adiante. Sabia que o Remanente ouviria; e, sabendo também que nada se podia esperar das massas em circunstância alguma, não lhes fazia qualquer apelo específico, não adaptava de maneira nenhuma a sua mensagem à medida delas e não se importava minimamente com que lhe prestassem atenção ou não. Como poderia dizer um editor moderno, não se preocupava com a circulação nem com a publicidade. Assim, estando completamente livre de todas essas obsessões, encontrava-se em posição de dar o melhor de si, sem temor nem favor, respondendo apenas perante o seu augusto Chefe.
Se um profeta não fosse demasiado exigente quanto a ganhar dinheiro com a sua missão ou obter dela uma forma duvidosa de notoriedade, as considerações anteriores levar-nos-iam a dizer que servir o Remanente parece ser um bom trabalho. Um encargo ao qual se possa verdadeiramente meter mãos à obra e dar o melhor de si sem pensar nos resultados é um verdadeiro trabalho; ao passo que servir as massas é, na melhor das hipóteses, apenas meio trabalho, tendo em conta as condições inexoráveis que as massas impõem aos seus servidores. Pedem-lhe que se lhes dê aquilo que querem, insistem nisso e não aceitarão outra coisa; e acompanhar os seus caprichos, as suas irracionais mudanças de gosto, os seus entusiasmos e desalentos é uma tarefa enfadonha, para já não falar do facto de aquilo que querem em cada momento exigir muito pouco dos recursos proféticos de uma pessoa. O Remanente, por outro lado, quer apenas o melhor que tenha para dar, seja isso o que for. Dê-lhe isso, e fica satisfeito; nada mais tem com que se preocupar. O profeta das massas americanas tem de visar conscientemente o mais baixo denominador comum de intelecto, gosto e carácter entre 120.000.000 de pessoas; e esta é uma tarefa penosa. O profeta do Remanente, pelo contrário, encontra-se na invejável posição de Papa Haydn na casa do príncipe Esterhazy. Tudo o que Haydn tinha de fazer era continuar a produzir a melhor música que sabia fazer, sabendo que seria compreendida e apreciada por aqueles para quem a produzia, e não ligando a mínima ao que qualquer outra pessoa pensasse dela — e isso sim é um bom trabalho.
Num certo sentido, porém, como já disse, não é um trabalho recompensador. Se conseguir captar a fantasia das massas e tiver a sagacidade necessária para se manter sempre um passo à frente dos seus caprichos e vacilações, pode-se obter bons retornos pecuniários servindo as massas, e bons rendimentos também na notoriedade de boca-em-boca:
Digito monstrari et dicier, Hic est!4
Todos conhecemos inúmeros políticos, jornalistas, dramaturgos, romancistas e semelhantes que se saíram extremamente bem por estes meios. Cuidar do Remanente, pelo contrário, oferece poucas perspectivas de recompensas desse género. Um profeta do Remanente não ficará inchado de orgulho com os rendimentos financeiros do seu trabalho, nem é provável que dele obtenha grande renome. O caso de Isaías foi uma excepção a esta segunda regra, e há outros, mas não muitos.
Poder-se-á pensar, portanto, que, embora cuidar do Remanente seja sem dúvida um bom trabalho, não é um trabalho particularmente interessante porque, em regra, é muito mal pago. Tenho as minhas dúvidas. Há outras compensações que se podem retirar de um trabalho além do dinheiro e da notoriedade, e algumas parecem suficientemente substanciais para serem atraentes. Muitos trabalhos que não pagam bem são, ainda assim, profundamente interessantes, como, por exemplo, se diz ser o trabalho de investigação científica; e o trabalho de cuidar do Remanente parece-me, depois de o observar durante muitos anos do meu lugar na bancada, tão interessante como qualquer outro que se possa encontrar no mundo.
IV
O que principalmente o torna assim, creio, é o facto de, em qualquer sociedade, o Remanente ser sempre, em tão grande medida, uma quantidade desconhecida. Não sabemos, e nunca saberemos, mais do que duas coisas a seu respeito. Dessas podemos ter a certeza — certeza absoluta, como dizemos —, mas nunca conseguiremos fazer sequer uma estimativa razoável acerca de qualquer outra coisa. Não sabemos, e nunca saberemos, quem constitui o Remanente, nem o que estão a fazer ou farão. Duas coisas sabemos, e nada mais: primeiro, que existem; segundo, que nos encontrarão. Fora destas duas certezas, trabalhar para o Remanente significa trabalhar numa escuridão impenetrável; e esta, diria eu, é precisamente a condição mais apta a despertar eficazmente o interesse de qualquer profeta devidamente dotado da imaginação, perspicácia e curiosidade intelectual necessárias ao exercício bem sucedido do seu ofício.
O fascínio e o desespero do historiador, quando olha retrospectivamente para a Judeia de Isaías, para a Atenas de Platão ou para a Roma dos Antoninos, residem na esperança de descobrir e pôr a nu o “substrato de pensamento recto e boa conduta” que ele sabe ter necessariamente existido algures nessas sociedades, porque nenhuma forma de vida colectiva pode de modo algum prosseguir sem ele. Encontra aqui e ali, em muitos lugares, indícios deslumbrantes desse substrato, como na Antologia Grega, no livro de apontamentos de Aulo Gélio, nos poemas de Ausónio e no breve e comovente tributo, Bene merenti, concedido aos ocupantes desconhecidos de túmulos romanos. Mas são vagos e fragmentários; não o conduzem a lado algum na sua procura de algum modo de avaliar esse substrato, limitando-se a testemunhar aquilo que ele já sabia a priori — que o substrato existiu algures. Onde estava, quão substancial era, qual era o seu poder de auto-afirmação e resistência — sobre tudo isto nada lhe dizem.
Do mesmo modo, quando o historiador de daqui a 2.000 anos, ou 200 anos, examinar os testemunhos disponíveis acerca da qualidade da nossa civilização e procurar obter algum tipo de prova clara e competente sobre o substrato de pensamento recto e boa conduta que ele sabe ter necessariamente existido aqui, terá uma dificuldade dos diabos em encontrá-la. Depois de reunir tudo quanto conseguir e de fazer apenas uma concessão mínima à aparência enganadora, à imprecisão e à confusão de motivos, reconhecerá tristemente que o resultado líquido é simplesmente nada. Existiu aqui um Remanente, construindo um substrato como pólipos de coral; isso ele saberá, mas nada encontrará que o coloque na pista de quem eram, onde estavam, quantos eram e como era o seu trabalho.
Também a respeito de tudo isto, o profeta do presente sabe precisamente tanto e tão pouco como o historiador do futuro; e é isso, repito, que faz com que o seu trabalho me pareça tão profundamente interessante. Um dos episódios mais sugestivos narrados na Bíblia é o da tentativa de um profeta — a única tentativa do género de que há registo, creio — de contar o Remanente. Elias fugira da perseguição para o deserto, onde o Senhor acabou por ir ao seu encontro e lhe perguntou o que estava ele a fazer tão longe do seu trabalho.
Disse que estava a fugir, não porque fosse cobarde, mas porque todo o Remanente fora morto, excepto ele. Escapara por um triz e, sendo agora ele todo o Remanente que restava, se fosse morto a Verdadeira Fé ficaria por terra. O Senhor respondeu que não precisava de se preocupar com isso, porque, mesmo sem ele, a Verdadeira Fé provavelmente conseguiria ir sobrevivendo de algum modo, se tivesse de ser.
“E quanto aos teus números sobre o Remanente”, disse Ele, “não me importo de te dizer que há lá em Israel 7.000 deles, dos quais parece que nunca ouviste falar; mas podes aceitar a Minha palavra de que estão lá.”
Naquele tempo, provavelmente a população de Israel não passaria muito mais de um milhão ou coisa semelhante; e um Remanente de 7.000 em um milhão é uma percentagem altamente encorajadora para qualquer profeta. Com 7.000 dos seus do seu lado, Elias não tinha grande motivo para se sentir sozinho; e, incidentalmente, isso seria algo em que o profeta moderno do Remanente poderia pensar quando estivesse um pouco em baixo. Mas o ponto principal é que, se o profeta Elias não conseguiu fazer uma estimativa mais próxima do número do Remanente do que aquela que fez, falhando por 7.000, qualquer outra pessoa que tentasse resolver o problema estaria apenas a perder o seu tempo.
A outra certeza que o profeta do Remanente pode sempre ter é a de que o Remanente o encontrará. Pode confiar nisso com absoluta segurança. Encontrá-lo-á sem que ele faça seja o que for para que tal aconteça; na verdade, se tentar fazer alguma coisa nesse sentido, é bastante provável que o afaste. Não precisa de fazer publicidade à procura dele nem de recorrer a quaisquer expedientes publicitários para captar a sua atenção. Se for pregador ou orador público, por exemplo, pode ser completamente indiferente a exibir-se em recepções, a fazer publicar a sua fotografia nos jornais ou a fornecer material autobiográfico para publicação sob a rubrica do “interesse humano”. Se for escritor, não precisa de fazer questão de frequentar chás mundanos, autografar livros às centenas, nem entrar em qualquer espécie de confraternização artificiosa com críticos literários. Tudo isto, e muito mais da mesma ordem, faz parte da rotina normal e necessária estabelecida para o profeta das massas; é, e tem de ser, parte da grande técnica geral de captar o ouvido do homem da massa — ou, como diz o nosso vigoroso e excelente publicista, Sr. H. L. Mencken, a técnica de manobrar papalvos. O profeta do Remanente não está sujeito a esta técnica. Pode ter absoluta certeza de que o Remanente encontrará por si próprio o caminho até ele sem quaisquer auxílios acidentais; e não só isso, como, se o encontrar a recorrer a tais auxílios, como disse, há dez hipóteses contra uma de que desconfiará de que há ali gato escondido e se afastará.
A certeza de que o Remanente o encontrará, contudo, deixa o profeta tão às escuras como antes, tão impotente como antes para fazer qualquer tipo de estimativa sobre o Remanente; pois, como se vê no caso de Elias, continua sem saber quem são aqueles que o encontraram, onde estão ou quantos são. Não lhe escrevem para o informar disso, à maneira daqueles que admiram as vedetas de Hollywood, nem o procuram para se ligarem à sua pessoa. Não são desse género. Recebem a sua mensagem mais ou menos como os condutores recebem as indicações numa placa à beira da estrada — isto é, pensando muito pouco na placa, além de ficarem agradecidos por ela estar ali, mas concentrando toda a atenção nas indicações.
Esta atitude impessoal do Remanente aumenta extraordinariamente o interesse do trabalho do profeta dotado de imaginação. De vez em quando, apenas com a frequência suficiente para manter a sua curiosidade intelectual em bom estado de funcionamento, encontrará por puro acaso algum reflexo nítido da sua própria mensagem num lugar insuspeitado. Isto permite-lhe entreter-se nos seus momentos de lazer com agradáveis especulações acerca do percurso que a sua mensagem poderá ter feito para chegar àquele lugar em particular e acerca do que lhe aconteceu depois de lá chegar. Os casos mais interessantes de todos são aqueles, se fosse possível rastreá-los até à origem (mas podemos sempre especular a seu respeito), em que o próprio destinatário já não sabe onde, quando nem de quem recebeu a mensagem — ou até aqueles em que, como por vezes acontece, se esqueceu de que alguma vez a recebeu de algum lado e imagina que se trata inteiramente de uma ideia surgida espontaneamente da sua própria cabeça.
Casos destes provavelmente não são raros, pois, sem pretendermos incluir-nos entre o Remanente, todos nós conseguimos sem dúvida recordar ocasiões em que nos descobrimos subitamente sob a influência de uma ideia cuja origem não conseguimos de modo algum identificar. “Só nos ocorreu mais tarde”, como dizemos; isto é, só tomamos consciência dela depois de ter surgido plenamente formada na nossa mente, deixando-nos completamente ignorantes de como, quando e por intermédio de que agente foi ali plantada e deixada a germinar. Parece altamente provável que a mensagem do profeta siga muitas vezes um percurso deste género junto do Remanente.
Se, por exemplo, você é um escritor, orador ou pregador, apresenta uma ideia que se aloja no Unbewußtsein de um membro ocasional do Remanente, e aí fica firmemente presa. Durante algum tempo permanece inerte; depois começa a incomodar e a supurar até acabar por invadir a mente consciente do homem e, por assim dizer, corrompê-la. Entretanto, ele esqueceu por completo como recebeu inicialmente a ideia e talvez até julgue tê-la inventado; e, nessas circunstâncias, o mais interessante de tudo é que nunca sabemos o que a pressão dessa ideia o levará a fazer.
Por estas razões, parece-me que o trabalho de Isaías não é apenas bom, mas também extremamente interessante; e especialmente no momento presente, em que ninguém o está a fazer. Se eu fosse jovem e tivesse a ideia de entrar no ramo profético, escolheria certamente este sector da actividade; e, por isso, não hesito em recomendá-lo como carreira a qualquer pessoa nessa posição. Oferece um campo aberto, sem concorrência; a nossa civilização negligencia e rejeita tão completamente o Remanente que qualquer pessoa que entrasse no ramo tendo exclusivamente em vista servi-lo poderia contar praticamente com todo o negócio disponível.
Mesmo admitindo que exista algum salvado social que possa ser peneirado das massas, mesmo admitindo que o testemunho da história acerca do seu valor social seja um pouco demasiado abrangente e leve o desalento um pouco longe demais, ainda assim é necessário perceber, creio, que as massas já têm profetas mais do que suficientes. Mesmo admitindo, contra o testemunho da história, que a esperança da raça humana talvez não esteja inteiramente centrada no Remanente, é necessário reconhecer que este possui valor social suficiente para ter direito a alguma medida de encorajamento e consolação proféticos, e que a nossa civilização não lhe concede absolutamente nenhum. Todas as vozes proféticas se dirigem às massas, e apenas a elas; a voz do púlpito, a voz da educação, a voz da política, da literatura, do teatro, do jornalismo — todas se dirigem exclusivamente às massas e conduzem-nas pelo caminho que já seguem.
Poder-se-ia sugerir, portanto, que o talento profético em início de carreira faria bem em voltar-se para outro campo. Sat patriae Priamoque datum5 — qualquer obrigação deste género que possa existir para com as massas já foi monstruosamente paga em excesso. Enquanto as massas transportarem o tabernáculo de Moloque e Quium, as suas imagens, e seguirem a estrela do seu deus Buncombe,6 não lhes faltarão profetas que lhes indiquem o caminho que conduz à Vida Mais Abundante; e, portanto, alguns daqueles que sentem o sopro profético fariam talvez melhor em dedicar-se a servir o Remanente. É um bom trabalho, um trabalho interessante, muito mais interessante do que servir as massas; e, além disso, é o único trabalho de toda a nossa civilização, tanto quanto sei, que oferece um campo virgem.
Publicado originalmente na The Atlantic Monthly em 1936. Traduzido a partir do original inglês disponível aqui.
Notas do Tradutor:
- Referência a The Complete Bible: An American Translation, publicada pela University of Chicago Press em 1931. Esta reuniu o popular Novo Testamento de Edgar J. Goodspeed, de 1923, com um Antigo Testamento traduzido por uma equipa de estudiosos sob a direcção editorial de J. M. Powis Smith. Tornou-se conhecida por substituir a linguagem arcaica dos séculos XVI e XVII por um inglês americano claro e corrente. ↩︎
- Naturalmente, o autor toma aqui alguma liberdade na paráfrase do texto bíblico. Os versículos do Livro de Isaías que servem de base a esta passagem podem ser consultados aqui. ↩︎
- No original, Remnant. Apesar de, habitualmente, nas traduções bíblicas portuguesas, o conceito surgir traduzido geralmente como “Resto”, optou-se por “Remanente”, termo português que conserva a proximidade lexical e conceptual com o inglês. ↩︎
- “Ser apontado a dedo e ouvir dizer: ‘É ele!’” Pérsio, Sátiras, I, 28. A expressão alude à satisfação proporcionada pelo reconhecimento e pela notoriedade pública. ↩︎
- “Já se deu bastante à pátria e a Príamo.” Virgílio, Eneida, II, 291 – Palavras de Heitor a Eneias, indicando que já fizera o suficiente por Tróia e que deveri abandonar uma causa perdida. ↩︎
- A palavra “Buncombe”, juntamente com as suas variantes “bunk” e “bunkum”, entrou na gíria americana como sinónimo de discurso vazio ou sem sentido. ↩︎
