No capítulo oito aprendemos que sustentar trabalhos desnecessários não cria riqueza.
Existem muitos esquemas para aumentar artificialmente, através da lei, o número de pessoas que é necessário empregar para fazer uma tarefa ou um trabalho. Estes esquemas têm origem na ilusão de que há uma certa quantidade máxima de trabalho que se pode fazer e que formas mais eficientes de produzir alguma coisa criam desemprego, o que diminui o poder de compra das pessoas, voltando à falácia do “poder de compra” que já apresentámos nos capítulos anteriores.
O primeiro tipo de esquemas é o de obrigar a que haja mais trabalhadores para a mesma quantidade de trabalho. O teu cunhado proclama:
– Há demasiados jovens desempregados. Por isso, precisamos de dois novos sindicatos: um de instaladores de caixilharias e um de instaladores de janelas para criarmos mais empregos. O Estado também precisa de regular estas profissões: para pertencer a um sindicato, um trolha terá de obter uma licença específica, dada depois de fazer um teste de aptidão, e por isso não pode fazer as funções dos outros trolhas. Com esta medida, daremos emprego a estes rapazes e teremos trabalhadores com melhores qualificações. Além disto, os consumidores terão mais confiança e tranquilidade quando mudarem as caixilharias e quando instalarem uma janela.”
A tua avózinha solta um suspiro sapiente e diz:
- Não te estás a esquecer do teu sogro? Tu sabes que ele está a remodelar um quarto porque tu e a tua família, que vivem na mesma casa que ele, estão à espera de um bebé. Ele já me disse que quer instalar uma janela nova com vidro duplo para o quarto ficar quentinho durante o Inverno.
- Se essa medida que defendes for implementada, ele vai ter de contratar dois trolhas em vez de só um. A não ser que ele pague metade a cada um, vai ter de gastar mais dinheiro do que precisaria. Já pensaste nas roupas fofinhas de bebé que ele poderia comprar para a tua filha Madalena se não tivesse este custo? Para além disto, é assim tão difícil fazer os dois trabalhos ao mesmo tempo? Se fosse, a empresa construtora teria todos os incentivos para exigir um trabalho de qualidade e dividir as funções, tornando a licença desnecessária.
O segundo tipo de esquemas é o de diminuir por lei as horas trabalhadas por semana, sem mudar o salário por hora.
Continuando a conversa anterior, o cunhado adiciona:
- Talvez tenha razão, mas o que vejo na rua é que os trolhas trabalham demasiado. Há uma forma de matarmos dois coelhos com uma cajadada só: proibimos que eles trabalhem mais de 30 horas por semana. Assim vamos conseguir empregar ainda mais pessoas que estão desempregadas, porque os capitalistas vão ter de contratar mais pessoas para fazer o mesmo trabalho.
- Que excelente ideia, – responde a avózinha – quantos trolhas desempregados existem em Portugal para voltarem a ser contratados? E mesmo que haja trolhas suficientes, ou que muitos outros trabalhadores de outros sectores passem a ser trolhas, o que vai acontecer com o Sr. Fortunato? Ele trabalha nas obras há 20 anos e precisa de dinheiro para reconstruir a sua janela que a tempestade Kristin destruiu. Com esta medida vai ser forçado a parar de trabalhar as horas que ele quer e, por isso, receber menos para que outro trabalhador também possa trabalhar por uns trocos. Uns trabalhadores vão estar a subsidiar outros à sua própria custa. Temos as mesmas horas trabalhadas no total, as mesmas casas construídas, o mesmo custo total mas mais pessoas a trabalhar, cada uma a receber menos. E achas que o Sr. Fortunato se deixa ficar quieto quando interferem com a vida dele? Ou achas que ele vai passar a ganhar por baixo da mesa? Não farias o mesmo se tivesses de alimentar a tua família e não te deixassem?
O terceiro tipo de esquemas é o de diminuir por lei as horas trabalhadas por semana, mas obrigando a que se aumente o salário por hora.
- Não, não – diz o cunhado – o que eu queria realmente dizer é que devíamos passar para uma semana de 30 horas e ao fim de cada mês todos receberem o mesmo que antes. Passam a receber mais por cada hora. Assim é que beneficiamos todos, incluindo o Sr. Fortunato!
- Ok, todos trabalham menos e recebem como antigamente, mas o que acontece ao chefe da obra?
- O chefe da obra não é afectado. – diz o cunhado.
- Tens a certeza? Para instalar o mesmo número de janelas vai ter de gastar mais dinheiro com os trolhas, o que significa que os custos totais vão ser maiores. Ora todos sabemos que as empresas não contratam pessoas pela bondade no seu coração, mas porque esperam ter lucro. Se isto acontecer, e se as empresas já tivessem estado a pagar os melhores salários que podiam de acordo com as suas finanças e as condições do mercado (que é provável porque haver desemprego pode demonstrar isto), um aumento dos custos do “pessoal” será maior do que o nível dos preços actuais, produção e custos consegue aguentar.
- O desemprego vai aumentar, os custos marginais de produção também e a produção vai diminuir (e as empresas menos eficientes que não tinham muitos lucros, as que chamamos «marginais», irão à falência). Custos de produção maiores tendem a aumentar os preços dos produtos. Por outro lado, o desemprego reduz a procura, o que tende a reduzir preços. As consequências seguintes vão depender da política monetária que o Estado decidir impor.
- Então isto resolve-se facilmente. – diz o cunhado orgulhosamente – O banco central imprime mais dinheiro e o Estado gasta-o.
- Se estivéssemos num conto de fadas até poderia funcionar, mas não conseguimos comer papel. Se o Estado imprimir dinheiro, os preços vão eventualmente aumentar (o raciocínio será explicado num capítulo futuro). Isto fará com que as empresas possam voltar a ter lucro nominal (no papel) e aumentar os salários nominais. No entanto, os salários reais vão voltar ao mesmo nível que estavam antes. Logo, as consequências de diminuir a carga horária por decreto, mantendo os salários nominais totais, passam a ser iguais a quando diminuímos as horas sem aumentar salários. E a inflação tem outras consequências nefastas (como a redistribuição de riqueza dos últimos a receber o novo dinheiro, geralmente os assalariados, para os primeiros, os bancos e fundos de investimento).
Para resumir, distribuir trabalho que pode ser feito por menos pessoas por várias pessoas, diminui a riqueza. Quer esta distribuição seja feita directamente, com licenças, monopólios de certas profissões e ordens profissionais, quer seja feita indirectamente, ao proibir que se trabalhe voluntariamente uma certa quantidade de horas por um certo preço. Não há uma quantidade limitada e finita de trabalho a ser feita enquanto houver necessidades ou vontades insatisfeitas, que vão sempre haver.
Nota: O livro Economia Numa Lição de Henry Hazlitt está disponível gratuitamente na nossa biblioteca.
