Há tempos, queixei-me de que, quando se trata de economia e da Bíblia, as pessoas fazem frequentemente afirmações falaciosas devido à ignorância sobre economia, à ignorância da Bíblia ou a ambas. Este não é um problema no caso do Foundations of Economics: A Christian View.
O livro de Shawn Ritenour oferece uma introdução à economia de nível universitário, especificamente economia austríaca, através da perspectiva do teísmo bíblico e do cristianismo. O livro serve de manual para a sua disciplina no Grove City College e pode ser recomendado sem hesitação para qualquer curso de economia numa instituição cristã.
O leitor pode esperar uma apresentação desassombrada e sem constrangimentos da sólida economia austríaca e das implicações de uma visão bíblico-cristã do mundo. Ritenour não mostra reservas quanto aos seus pressupostos e conclusões; pelo contrário, anuncia-os e justifica-os com clareza, bom humor e experiências mentais e exemplos interessantes. A apresentação cativante é informativa e divertida, sendo semelhante ao estilo de Ritenour nas suas conferências.
Quando analiso qualquer livro, há duas palavras que me ocorrem — contributo e importância. Que coisa ou coisas únicas oferece este livro e por que razão são importantes?
De forma a proporcionar um foco a esta recensão, podemos concentrar-nos em dois aspectos fundamentais de Foundations of Economics, para além da sua excelente apresentação de uma economia sólida — epistemologia e ética.
Epistemologia
Uma objecção típica a um livro e a um tema destes é: “Não existe uma economia cristã.” Por outras palavras, poder-se-ia dizer que A Christian View introduz indevidamente argumentos normativos naquilo que deveria ser uma ciência isenta de juízos de valor. Até certo ponto, Ritenour concordaria (p. 340):
A economia é uma ciência social que nos ajuda a compreender a ordem criada. É a relação sistemática das leis que Deus estabeleceu na medida em que estas dizem respeito à acção e à troca humanas. É isenta de juízos de valor no sentido de que descobre e descreve leis universalmente verdadeiras que estão efectivamente implícitas na acção humana. Estas leis são verdadeiras, quer gostemos delas, quer não. São verdadeiras independentemente da ética de uma pessoa. A economia, enquanto tal, descreve aquilo que é, e não aquilo que deveria ser. Descreve como as pessoas agem, e não como deveriam agir.
É verdade que uma lei económica válida se aplica independentemente da religião. A lei económica não se aplica de forma diferente ao cristão, ao judeu, ao budista, ao muçulmano ou ao ateu. Dito isto, é míope afirmar que a visão do mundo não importa. Consciente ou inconscientemente, todas as pessoas possuem pressupostos fundamentais acerca da visão do mundo, isto é, uma rede de crenças interligadas acerca da natureza da realidade (metafísica), do conhecimento (epistemologia) e da ética (uma teoria acerca daquilo que é normativamente bom ou correcto).
Perto do final do livro, Ritenour apresenta uma razão prática — reconhecida por muitos outros — pela qual a religião e a visão do mundo são importantes para a prosperidade económica e o florescimento humano (p. 525):
Devido à sua importância na formação de valores, hábitos e culturas, é difícil sobrestimar a importância da religião na medida em que esta afecta a prosperidade económica. Em última análise, o problema do mandato cultural [Génesis 1:26-28] e do desenvolvimento económico é um problema espiritual e intelectual. A prosperidade é uma questão de investimento de capital, mas não é apenas isso. O desenvolvimento económico depende também das atitudes humanas. Embora a expansão económica não possa garantir o bem-estar espiritual, intelectual, moral ou estético, as perspectivas religiosas têm um efeito tremendo sobre o desempenho económico geral.
Para além do mero impacto económico das atitudes e crenças, o livro estabelece, logo no primeiro capítulo, fundamentos epistemológicos. Nisto segue um padrão semelhante ao daquele que foi, provavelmente, o maior economista do século XX, Ludwig von Mises. Mises — e, consequentemente, a economia austríaca — dedicou-se a concentrar-se meticulosamente na epistemologia.
Em qualquer estudo, é fácil passar por cima da epistemologia, mas é útil perguntar: o que torna possível o estudo da economia?
Existe um nexo de pressupostos subjacente ao axioma da acção. Para estudar a economia — ou, na verdade, qualquer outra coisa — há vários elementos que têm de ser previamente pressupostos como verdadeiros, incluindo a lei da causalidade, uma ligação significativa entre meios e fins, causas e efeitos, a indução/princípio da uniformidade (PU), as leis da lógica, leis e princípios imutáveis que operam num mundo mutável e em fluxo, a semiprevisibilidade do mundo, incluindo a incerteza quanto aos resultados de uma acção, a fiabilidade básica da percepção sensorial, a fiabilidade básica da memória, a ligação entre a mente e o corpo, a distinção entre factores materiais — a física, a biologia e a química a funcionar de acordo com processos naturais — e o juízo e a acção humanos orientados para fins. A questão fundamental é: que visão do mundo oferece estas precondições necessárias ao estudo da economia?
Ritenour sustenta que o teísmo bíblico e o cristianismo fornecem, de forma única, os fundamentos de uma visão do mundo que tornam possível a economia e as outras ciências. Apresenta uma crítica interna firme, mas moderada, a teorias alternativas do conhecimento — cepticismo, relativismo, empirismo, apriorismo —, de forma coerente e fácil de compreender.
As suas observações acerca do apriorismo são particularmente relevantes (p. 7):
A teoria epistemológica que nos resta é, então, uma espécie de apriorismo. . . . O apriorismo sustenta que, para adquirirmos conhecimento, existe algo que é logicamente anterior aos factos empíricos. Os aprioristas reconhecem que a nossa mente impõe unidade às experiências através da aplicação de categorias mentais inatas na classificação e avaliação da nossa experiência.
Segundo Ritenour, até o apriorismo kantiano secular ou aparentemente neutro é filosoficamente problemático (p. 7):
[Kant] sustentou que só podemos compreender a nossa experiência porque possuímos categorias de pensamento a priori, como a lógica, a unidade, o espaço e a causalidade. Além disso, considerava que estas categorias a priori que utilizamos para compreender a nossa experiência são aptidões subjectivas.
Infelizmente, estas categorias internas a priori — embora nos ajudem a classificar e a interpretar a experiência — não garantem necessariamente que apreendamos a verdade ou a realidade. “É imposta uma ordem à nossa experiência, mas o mundo tal como realmente é permanece incognoscível” (p. 8). Como alternativa, Ritenour apresenta aquilo que considera ser “Um Caminho Melhor” (p. 8):
Talvez reconheça que o problema de Kant nos conduz de novo ao relativismo e ao cepticismo. As suas categorias poderiam ser verdadeiras para si e as minhas poderiam ser verdadeiras para mim, sem que as duas tivessem alguma vez necessariamente de coincidir. Assim, a nossa caminhada através das várias epistemologias parece ter-nos conduzido a lugar nenhum. Tenha esperança. Não precisamos de desesperar. E se possuirmos efectivamente categorias mentais, mas essas categorias tiverem sido implantadas em nós por um Criador, e se Ele tiver moldado tanto a nossa mente como o mundo para que ambos se harmonizem? É esta a ideia que obtemos da revelação de Deus apresentada na Bíblia.
Esta abordagem é um apriorismo bíblico. Começa com a revelação de Deus, tanto na Sua criação como na Sua palavra escrita. . . .
Fundamentalmente, o argumento é que a natureza e o carácter do Deus-Criador soberano e transcendente do teísmo bíblico e do cristianismo — revelado de forma geral na ordem criada e na natureza do homem, e revelado de forma especial nas Escrituras — proporcionam um fundamento último para a inteligibilidade, a epistemologia, a metafísica e a ética. Sustenta-se, além disso, que esta base oferece, de forma única, o fundamento das ciências, incluindo a economia.
Relativamente à ordem que permite o estudo da ciência, Ritenour escreve (p. 10):
. . .a Bíblia afirma que existe um propósito e uma ordem na criação. Sem essa ordem, seria impossível existir qualquer tipo de ciência. Não poderiam existir leis científicas. Tudo seria caos. Contudo, como Deus criou um universo dotado de ordem e propósito, podemos dedicar-nos à ciência. Podemos observar regularidades naturais e sociais. Podemos utilizar conceitos de causa e efeito para deduzir leis científicas.
De modo semelhante, embora não fosse cristão, Mises escreveu também:
Num mundo sem causalidade e regularidade dos fenómenos, não haveria lugar para o raciocínio humano nem para a acção humana. Um tal mundo seria um caos no qual o homem não conseguiria encontrar qualquer orientação ou guia. O homem nem sequer é capaz de imaginar as condições de um universo tão caótico.
Num artigo anterior, em grande medida inspirado pelo amor do Dr. Ritenour por bolo de chocolate sem farinha (“Receitas com Rothbard: O Que Pode o Bolo de Chocolate Ensinar-nos Acerca da Economia”), perguntei: “Em condições tão caóticas, como poderia existir algo semelhante a uma receita — instruções registadas que proporcionam um plano uniforme de acção para alcançar determinados resultados com regularidade?”
Faríamos bem — juntamente com Mises e Ritenour — em realizar o árduo trabalho de nos tornarmos mais autoconscientes do ponto de vista epistemológico, isto é, em examinarmos criticamente aquilo que verdadeiramente sabemos e como o sabemos, a rede de pressupostos subjacente às nossas crenças, e em procurarmos tanto a coerência como a justificação dos nossos pressupostos e crenças.
Enquanto disciplina, Ritenour encara a economia, em grande medida, como o acto de pensar os pensamentos de Deus depois d’Ele e de descobrir no mundo a ordem da criação de Deus. Escreve (p. 13):
Acreditamos nas verdades da economia porque Deus nos criou à Sua imagem, com a capacidade de conhecer e apreender a verdade, e uma dessas verdades que nos é comunicada na Sua criação e na Sua Palavra é a de que, tal como Deus, agimos com um propósito.
Embora muitos possam considerar que a religião em geral, e o cristianismo em particular, são irrelevantes para a economia ou para qualquer ciência, espera-se que a obra de Ritenour nos desafie, pelo menos, a considerar como os pressupostos da visão do mundo e a epistemologia moldam as nossas perspectivas. Numa secção dedicada a sugestões de leituras adicionais, Ritenour recomenda The Savior of Science, de Stanley L. Jaki, como “Uma explicação impressionante da importância da fé e da doutrina cristãs para o desenvolvimento e progresso da ciência na Europa Ocidental durante a Alta Idade Média” (p. 13). Contrariamente à perspectiva secular do “Iluminismo”, segundo a qual o teísmo bíblico e o cristianismo eram contrários à ciência, pode sustentar-se que esta visão do mundo fornece pressupostos conducentes ao desenvolvimento da ciência.
Da Teoria Económica Isenta de Juízos de Valor à Ética Bíblica
A obra de Gary North, Christian Economics in One Lesson, foi uma reelaboração de Economia Numa Lição, de Hazlitt, numa tentativa de enquadrar a economia numa visão bíblico-cristã do mundo. Embora apreciasse profundamente a obra de Hazlitt, North assinalou aquilo que considerava serem lacunas que Foundations of Economics, de Ritenour, vem, possivelmente, preencher.
North escreveu:
O público [de Hazlitt] era constituído por pessoas instruídas que liam há anos as suas colunas no The New York Times. Escrevia também para homens de negócios. Mas não escrevia para as pessoas sentadas nos bancos das igrejas americanas. Contudo, do ponto de vista da dimensão do público, perdeu uma grande oportunidade. . . .
North prossegue:
Hazlitt nunca identificou as intervenções governamentais que descreve por aquilo que elas realmente são, a saber, roubo. Hazlitt evitou cuidadosamente a questão ética fundamental. Não levantou a questão ética. . .
É muito raro as pessoas repensarem as suas vidas e, em seguida, voltarem a consagrá-las, com base numa curta cadeia de raciocínio. . . .
Se, por outro lado, conseguir persuadir a pessoa de que se tornou cúmplice, ou até participante activa, na destruição da janela de outra pessoa, talvez consiga captar a sua atenção. Talvez consiga motivá-la através de uma análise cuidadosa deste princípio: não furtarás.
Na tentativa de serem coerentes com uma ciência económica isenta de juízos de valor, os defensores do mercado livre deixam com frequência o suposto “terreno moral superior” aos progressistas, assistencialistas e socialistas. Pensamos muitas vezes que, se demonstrarmos as impossibilidades económicas do socialismo, a natureza contraproducente do intervencionismo e as implicações morais das consequências devastadoras e da destruição provocadas por cada um deles, as convicções intelectuais das pessoas se alterarão — que se arrependerão — e passarão a acreditar numa teoria e numa política económicas sólidas. Contudo, ignoramos frequentemente que os compromissos da maioria das pessoas — certos ou errados — relativamente às suas perspectivas são compromissos morais e éticos.
(Isto não pretende sugerir que as pessoas adoptem necessariamente ou habitualmente as suas posições devido a perspectivas éticas sólidas ou justas; na verdade, segundo a visão bíblica do mundo, a natureza humana encontra-se eticamente decaída, e observamos frequentemente que as posições éticas não costumam resultar de uma reflexão filosófica, mas de racionalizações morais ad hoc e/ou post hoc.)
Em nome de Jesus e dos ensinamentos bíblicos, os homens tentam frequentemente substituir os mandamentos de Deus pelas tradições dos homens (cf. Marcos 7). Esta defesa moral de excepções combina habitualmente generalidades bíblicas isoladas e descontextualizadas (por exemplo, ama o teu próximo, cuida dos pobres) com pressupostos e preocupações progressistas/intervencionistas, para depois saltar para conclusões modernas e estatistas injustificadas. Ritenour trata habilmente aquilo a que chamo os non sequiturs estatistas — em verdade, foi uma conferência proferida por Ritenour que me ajudou a identificar este conceito — num exemplo (p. 441):
Embora tributar as pessoas para pagar subsídios a outras designadas como pobres constitua uma violação dos direitos de propriedade privada, os programas de assistência social tendem a ser bastante populares entre os cristãos, porque estes reconhecem as numerosas ocasiões em que, na Bíblia, Deus chama o Seu povo a cuidar dos pobres. Muitos parecem traçar uma linha lógica directa entre os mandamentos de cuidar dos pobres e os subsídios assistenciais impostos pelo governo. Deus quer que sejamos caridosos para com os pobres, portanto precisamos do estado-providência.
Muitos cristãos foram intimidados a presumir que, embora possam possuir uma economia sólida, os progressistas têm do seu lado a bondade, Jesus e a Bíblia. “Talvez tenha o deísta Adam Smith do seu lado, mas nós temos Jesus do nosso.” Evidentemente, isto não os impede de adoptar os pressupostos mundanos e não-cristãos e as prescrições políticas do ateu, pervertido e abusador sexual de crianças John Maynard Keynes em nome de Jesus, mas estou a divagar.
Muitos cristãos poderão saber que o socialismo integral não é bíblico, mas não possuem os instrumentos intelectuais, económicos ou éticos necessários para combater estas perspectivas; por isso, muitos cristãos e igrejas deslizam lentamente em direcção ao progressismo, ao assistencialismo e ao intervencionismo de via intermédia. A obra de Ritenour fornece o vocabulário apologético necessário para combater estes erros.
Numa afirmação simples, enuncia um modelo mental igualmente simples para avaliar políticas (p. 341):
Uma análise completa da política económica deve, portanto, ter em conta não só a economia, mas também a ética. Uma tal análise exige que se responda a duas perguntas. Em primeiro lugar, a política é economicamente sólida? Por economicamente sólida queremos dizer: constitui a política o meio adequado para atingir os seus objectivos? A política alcança aquilo que é suposto alcançar? Para avaliar a política económica, utilizaremos os princípios económicos até aqui explicados para responder a estas perguntas.
Em segundo lugar, a política é eticamente sólida? Por eticamente sólida queremos dizer: procura a política alcançar um fim moralmente lícito? Procura alcançar esse fim de uma forma moralmente lícita? Só uma política que possa responder afirmativamente a todas estas perguntas pode ser adoptada como uma política económica verdadeiramente boa.
Recorrendo à Bíblia e à economia, Ritenour defende solidamente a propriedade privada, a livre troca, a moeda sólida e muitos outros princípios. Inversamente, refuta a legitimidade moral do socialismo, do controlo das rendas, dos controlos de salários e preços, do ambientalismo e de muitos outros males promovidos como bens. Depois de apresentar um argumento económico e ético-bíblico devastador contra o socialismo, resume-o numa só frase: “Independentemente dos motivos daqueles que promovem reformas económicas colectivistas, o socialismo é simultaneamente um mal económico e ético” (p. 500).
Este livro pode ajudar a dotar o cristão de confiança económica e ética, firmemente enraizada numa visão bíblica do mundo. Precisamos de mais trabalhadores na seara da divisão intelectual e ética do trabalho.
Artigo publicado originalmente no Mises Institute.
